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Perguntas e respostas sobre o Covid-19 com Bruno Maia

Em entrevista ao esquerda.net, o médico Bruno Maia responde a algumas questões sobre a epidemia do coronavírus em Portugal e dá conselhos úteis sobre a prevenção do contágio.

O esquerda.net falou com Bruno Maia sobre a epidemia do Covid-19. “Estamos em crise e vamos piorar nas próximas semanas”, avisa o médico neurologista e intensivista do Hospital de São José, em Lisboa. “E a melhor atitude em termos coletivos que podemos fazer é cumprir as orientações das autoridades de saúde, isto é, ter recato social”, acrescenta. Ir a um hospital sem estar referenciado é que nem pensar, alerta o médico, “porque é aí que estão as principais fontes e origens do vírus”. Aos pais deixa um conselho: mantenham as crianças longe dos avós e outras pessoas mais vulneráveis, pois os sintomas do Covid-19 nos mais pequenos são poucos e mais difíceis de detetar.

A infeção já está espalhada na população?

Portugal, neste momento, ainda está na fase a que chamamos de contenção alargada. O que é que isto significa? Significa que a maioria das redes de contaminação e de infeção são redes importadas. Ou seja, já se estabeleceram em Portugal, mas são redes importadas, têm uma origem importada. Mas os especialistas acreditam que poderemos estar muito em breve na fase de mitigação. O que é a fase de mitigação? É a fase em que o vírus circula entre nós e já não conseguimos estabelecer ligações entre nós para saber de onde veio o vírus. Provavelmente, dentro das próximas horas ou dias, Portugal vai entrar nessa fase de mitigação e o vírus, sim, vai passar a circular na comunidade.

Qual é a taxa de letalidade?

O que sabemos neste momento é que a letalidade do vírus é superior à da gripe sazonal. Esse aumento será entre 10 a 20 vezes mais do que o do vírus da gripe. Ou seja, é mais perigoso, mais letal do que o vírus da gripe. Claro que há números diferentes para a China e números diferentes para a Itália, mas isso pode simplesmente a ver com o número de pessoas que se testam na China e o número de pessoas que se testam na Itália e até em Portugal. Ou seja, quanto mais pessoas nós testarmos, menor vai ser a letalidade do vírus, quanto menos nós testarmos, maior será essa letalidade.

 
Quais são os grupos de risco?

O que sabemos neste momento é que o risco associado ao vírus é proporcional à idade. Ou seja, quanto mais velhos nós somos, maior é a probabilidade de termos problemas mais graves. Estima-se que acima dos 80 anos cerca de 14% da população poderá vir a ter problemas mais graves associados a este vírus.

De todos os dados que temos até agora, as crianças estão especialmente protegidas contra este vírus. Isto significa o quê? Que sim, têm doença associada ao vírus, mas é uma doença muito ligeira. Há uma exceção, que são pessoas com doenças do foro imunitário, o que é que isto quer dizer? Que pessoas que possam ter, por exemplo, um cancro e por isso estejam a fazer quimioterapia, pessoas mais velhas com outro tipo de doenças cumulativas que possam enfraquecer o seu sistema imunitários, diabetes, por exemplo… Mas aquilo que se sabe é que em crianças saudáveis é como a varicela. A população toda sabe que em crianças a varicela é benigna e que quanto mais velhos somos mais perigosa pode vir a ser. Este vírus comporta-se exatamente da mesma maneira.

 
Qual é o tempo de incubação?

O tempo de incubação da doença é entre os 2 e os 14 dias, com uma mediana aos 5 dias. Ou seja, a maior parte das pessoas terá um incubação de cinco dias, mas algumas terão até 14 dias. O que significa que na fase da incubação as pessoas vão ter o vírus, vão poder propagar o vírus a outras pessoas por contacto direto e não vão ter sintomas, portanto não vão saber que estão infetadas.

 
O que fazer quando se suspeita estar infetado?

A primeira atitude na presença de sintomas como tosse, falta de ar, expetoração abundante, dores musculares e sobretudo febre, deve ser ligar para a linha Saúde24 (808 24 24 24). Já sabemos que há muitas chamadas para a linha Saúde24, que temos problemas no atendimento que temos de resolver, mas isso não significa que devamos escolher outro caminho. O caminho é linha Saúde 24 porque é lá que nos vão dar as orientações corretas. Pode haver casos que não devem ir ao hospital e pode haver outros casos que são mais raros e que devem, pelo contrário, ir ao hospital para serem testados. Eles fazem essa triagem, fazem esse aconselhamento, esse é o primeiro passo.

 
Partindo do princípio que a infeção já está ou estará em breve na população, o que devemos fazer?

Em primeiro lugar, cumprir as recomendação que estão a ser dadas pelas autoridades de saúde. Estamos em crise e vamos piorar nas próximas semanas. E a melhor atitude em termos coletivos que podemos fazer é cumprir as orientações das autoridades de saúde, isto é, ter recato social.

Isto significa não frequentar sítios em que haja multidões, não ir a espetáculos de teatro, cinema, ou outros espetáculos dentro ou fora de portas, nomeadamente futebol. Não frequentar sítios com grandes aglomerados de gente, evitar ir ao shopping, ao supermercado, às praias, evitar todos os sítios onde haja muitas pessoas, procurar estar o mais tempo possível em casa e só sair para ir trabalhar, ou para ir ao supermercado buscar bens de primeira necessidade. Essa é a primeira coisa. Depois, lavar frequentemente as mãos. Lavar as mãos, lavar as mãos, lavar as mãos. Se tossirem, se derem um espirro, tentem fazê-lo para o braço e não para a mão. Se o fizerem para a mão, tentem ir imediatamente levar a mão abundantemente com sabão natural.

Porque é que lavar as mãos com sabão é a melhor precaução?

O sabão normal, seja o sabão natural, seja o sabonete de supermercado, tanto faz, é um desinfetante perfeito para este vírus e vai diminuir grandemente a probabilidade de nós o transmitirmos.

As escolas fecharam, significa que as crianças e as suas famílias estão de quarentena?

Não. Uma coisa é recato ou isolamento social, outra coisa é quarentena. Quarentena é uma pessoa que precisa de estar totalmente isolada num ambiente controlado, sob supervisão médica – o que não significa necessariamente que tenha de ser num hospital, mas sob supervisão médica que está assinalada pelos técnicos, pelos profissionais de saúde, que está assinalada como sendo de probabilidade de risco elevado. Essa pessoa vai estar, durante o período de incubação do vírus, supervisionada, controlada e afastada do maior possível número de pessoas. Outra coisa que está a ser recomendada para a população em geral é o isolamento ou recato social, isso é diferente: não há uma supervisão médica, não há um assinalar dessa pessoa por parte das autoridades de saúde, há uma recomendação que as pessoas devem cumprir de contactar o menos possível com outras e de irem a sítios públicos o menos possível.

Para as famílias com crianças que tipo de atividades são recomendadas?

O mais possível dentro de casa, o mais possível, sabemos que será difícil, em algumas situações, mas o mais possível dentro de casa. Em segundo lugar, evitar o contacto com os mais idosos, sobretudo os avós, porque as crianças têm muito poucos sintomas, vai ser difícil identificar as crianças que têm o vírus, e podem eventualmente passar o vírus aos mais velhos, que são a população mais vulnerável.

 
Se tivermos estado com alguém que se suspeita que tenha coronavirus, o que devemos fazer?

Devem contactar a linha Saúde 24, deve ser essa a primeira atitude e, conforme as indicações que dêem ao telefone, seguir à risca essas indicações. Seja ficar em casa em recato, com pouco contacto com outros, seja ir ao hospital se, e só se, essa for a recomendação da linha Saúde24. Devemos ao máximo evitar ir às urgências, aos hospitais, porque é aí que estão as principais fontes e origens do vírus. Se não tivermos necessidade de ir ao hospital, devemos evitar ir, estamos a correr um risco.

 
Um estudo revela que Portugal tem o menor número de camas de cuidados intensivos da Europa. Isso pode vir a ser um problema?

Sim, já sabemos há vários anos que Portugal, por exemplo, tem um terço das camas de cuidados intensivos comparado com Itália, e cerca de um quinto a um sexto das camas de cuidados intensivos comparados com a Alemanha. Nós para os problemas do dia a dia vamos tendo camas de cuidados intensivos mais ou menos suficientes, estamos permanentemente em lotação máxima no país todo. No caso de uma crise, em que a demanda é maior, é evidente que isto vai ser um problema difícil de resolver. O que precisamos de fazer? Para esta fase precisamos de criar um série de procedimentos e camas extraordinárias, serviços extraordinários, profissionais extraordinários, seja com camas extra, seja com a criação de novos espaços, nomeadamente aproveitando blocos operatórios, salas de emergência, urgências, etc., para criar mais unidades de cuidados intensivos. Mas passada esta crise vamos ter de ter uma discussão importante sobre se vamos continuar a querer ter um número reduzido de camas de cuidados intensivos e na próxima crise que surja uma epidemia ou uma pandemia voltarmos a ter problemas de organização e de criação de novas camas. Para o futuro, depois de passarmos esta pandemia, vamos ter de ter uma discussão séria sobre que cuidados e que oferta de cuidados e capacidade nós temos atualmente no SNS e se é isso que queremos mesmo para o futuro e para outras epidemias.

 
Em Madrid vão requisitar hotéis para quarentenas. Seria uma solução?

Há uma coisa que a Direção Geral de Saúde diz que é verdade, nós vamos ter de ir aprendendo a quente. À medida que os números forem subindo, vamos ter de tomar decisões que provavelmente nem sequer estamos a planeá-las neste momento, como requisitar hotéis para quarentena ou, inclusivamente, requisitar os serviços de medicina privados que existem para ajudarem a ultrapassar esta crise. Acho que o governo e o Estado português devem ter esse recurso, utilizar a capacidade instalada na medicina privada para dar resposta a esses cidadãos e portanto, se for possível requisitar os profissionais da privada e mesmo os serviços físicos da privada, isso deve estar em cima da mesa e disponível.

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