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Coronavírus: Perguntas & respostas

O esquerda.net entrevistou Constantino Sakellarides, ex-Diretor-Geral de Saúde e Professor Jubilado da Escola Nacional de Saúde Pública sobre o Coronavirus, que responde a perguntas pertinentes e destaca a importância dos planos de contingência.
Entrevista de Constantino Sakellarides ao esquerda.net
Entrevista de Constantino Sakellarides ao esquerda.net

Nesta entrevista ao esquerda.net, Constantino Sakellarides alerta que não “se podem fazer previsões porque os fatores são múltiplos e não podem ser todos antecipados” e afirma: “mas podemos preparar-nos”.

E, sobre a preparação, destaca a importância dos planos de contingência, sublinhando que não basta o país ter um, “como tem”, “mas também as pessoas, as famílias, as empresas, as escolas, associações, terem também o seu plano de contingência”.

O que se sabe sobre como surgiu o vírus em humanos?

Nós vivemos numa biosfera onde microorganismos de vária natureza passam de uma espécie para a outra. E é assim que de vez em quando um microorganismo, neste caso um vírus que vive numa espécie diferente da nossa - pode ser num morcego, pode ser num dromedário, pode ser num gato selvagem… - atravessa a barreira da espécie e adapta-se a uma nova espécie. Quando isso acontece, para nós é um vírus novo. É um vírus que não conhecemos. E habitualmente é um vírus agressivo porque é pouco adaptado ainda à nossa espécie. Foi assim que este apareceu. Não se sabe exatamente qual foi o animal que o transmitiu na China pela primeira vez. Há a hipótese de o reservatório fundamental ser um morcego, mas mesmo isto é posto em dúvida, não sabemos ainda. Mas aconteceu isso que acontece frequentemente, e desta vez é o coronavírus.

Covid-19 - Imagem de viriões de SARS-CoV-2 obtida por microscópio eletrónico de varrimento, em que se observa partículas virais a emergir de uma célula – Foto e legenda wikipedia

Covid-19 - Imagem de viriões de SARS-CoV-2 obtida por microscópio eletrónico de varrimento, em que se observa partículas virais a emergir de uma célula
Foto e legenda wikipedia

 

Como se transmite o coronavirus?

Bem, antes de mais, como os vírus são novos, ou sempre que o vírus é novo, há um grau de incerteza em relação a ele. Nós adotamos como fórmula útil que este vírus transmite-se de uma forma semelhante ao vírus da gripe. Mas todos os dias vamos aprendendo subtilezas e ajustamos este modelo ao modelo mais real deste vírus específico. Portanto, ao dizer que ele se transmite de uma forma semelhante ao da gripe, quer dizer que se transmite essencialmente através das gotículas das nossas secreções respiratórias e é eficaz se a transmissão for de um metro, metro e meio, porque depende da densidade do vírus dessa gotícula. Portanto, quanto mais próximos mais denso é o projétil. E também é verdade, e pelas mesmas razões, que uma pessoa com sintomas muito ténues transmite muito menos. Transmite muito mais uma pessoa que tem uma situação muito exuberante, está sempre a espirrar e a tossir e portanto está sempre a expelir vírus.

Transmite-se essencialmente através das gotículas das nossas secreções respiratórias e é eficaz se a transmissão for de um metro, metro e meio

Qual a sua taxa de letalidade?

Tem havido uma grande confusão na imprensa entre taxa de mortalidade e taxa de letalidade. Os cálculos têm variado, mas neste momento deve situar-se entre 2.5%, 3% de taxa de letalidade. Taxa de letalidade quer dizer o número dos que morrem em função de estarem doentes. A taxa de mortalidade são pessoas que morrem em função da população daquele país. Portanto, 3% de taxa de mortalidade é uma calamidade. 3% de taxa de letalidade não é grande coisa, é muito menos que o coronavírus que provocou a SARS há vinte anos.

Taxa de letalidade deve situar-se, neste momento, entre 2.5% e 3%

Quais são os sintomas?

Os sintomas são muito semelhantes ao sintoma da gripe. Até às vezes de uma constipação nos casos mais ténues. Porque grande parte dos casos são casos ténues. Só uma pequena percentagem é que são casos sérios. E portanto os sintomas podem ir de uma simples constipação até a uma gripe mais óbvia. Os sintomas são febre e tosse e, nos casos mais graves, falta de ar, insuficiência respiratória.

Pode haver re-infeção?

Em relação à re-infeção, há casos descritos na China e no Japão em que aparentemente reaparece o vírus. Não se sabe ainda explicar o fenómeno, há muita especulação à volta disso. Mas é preciso dizer que, se acontece, são situações pouco frequentes. Não contam nos cálculos que fazemos e nas defesas que devemos ter em relação a este tipo de fenómeno.

Será possível a produção e comercialização de uma vacina?

Há muito trabalho neste momento nessa direção. Toda a gente quer uma vacina, como se deve compreender. Nos Estados Unidos diziam-nos há cerca de uma semana que dificilmente seria este ano. Há notícias mais recentes de grupos de investigação um pouco mais “atrevidos” que nos dizem que possivelmente será mais cedo. Mas é difícil de prever. Não será nos próximos meses.

Quem são as pessoas mais vulneráveis e porquê?

Pessoas com doenças fragilizantes, que são habitualmente doenças do foro respiratório, doenças crónicas como a diabetes, doenças cardiovasculares… - foto pulmões, wikipedia
Pessoas com doenças fragilizantes, que são habitualmente doenças do foro respiratório, doenças crónicas como a diabetes, doenças cardiovasculares… - foto pulmões, wikipedia

Depende muito do nosso sistema imunitário. O sistema imunitário faz parte das nossas defesas. Com a idade o nosso sistema imunitário enfraquece. Se uma pessoa mais velha tomar uma vacina hoje, a resposta não será tão boa quanto no caso de alguém jovem, pois o sistema imunitário de um já envelheceu e o outro ainda está jovem. A resposta do sistema imunitário é fundamental, ele torna-se mais frágil à medida que uma pessoa envelhece e torna-se mais frágil quando se tem doenças fragilizantes, que são habitualmente doenças do foro respiratório, doenças crónicas como a diabetes, doenças cardiovasculares… Mas fundamentalmente o que há é esta fragilidade de resposta imunitária e, no caso das doenças pulmonares, uma vulnerabilidade pulmonar específica, uma vez que isto é uma doença que afeta principalmente os pulmões.

 

O que se deve fazer para prevenir o contágio?

Há uma primeira fase em que nós começamos a ter casos importados e depois há uns casos que resultam de contacto direto com casos importados. Quando isto acontece nós estamos na fase de contenção

Depende da fase em que está esta epidemia em termos nacionais e globais, e isso é muito importante distinguir. Falemos por exemplo de Portugal. Há uma primeira fase em que nós começamos a ter casos importados e depois há uns casos que resultam de contacto direto com casos importados. Quando isto acontece nós estamos na fase de contenção. Ou seja, os casos aparecem, mas nós sabemos quem são, de onde vieram e onde adquiriram a doença. Chamamos a isto contenção na medida em que conseguimos controlar a situação. Nesta fase podemos estar atentos às pessoas que vieram daqueles países que estão numa fase diferente, que estão numa fase em que o vírus circula na comunidade de uma forma sistémica, e assegurar que, se tivermos contacto com essas pessoas e se adoecermos, permitirmos que as autoridades de saúde pública identifiquem todos esses casos importados. A nossa contribuição limita-se a isso, porque o vírus não circula na comunidade de uma forma sustentada, portanto não podemos apanhar o vírus sem saber onde o apanhamos. A fase seguinte é quando essa contenção não funciona e o vírus começa a circular na comunidade de uma forma sustentada e as pessoas adquirem a doença, são infetadas sem saber exatamente onde.

 

O que devemos fazer se entrarmos na fase seguinte?

estarem preparadas é terem o seu plano de contingência

Nessa altura é que precisamos de ativar o nosso plano de contingência. O país está tão preparado quanto as autoridades e serviços de saúde estiverem preparados, mas também as pessoas, as famílias, as empresas e as associações estiverem preparadas também. E estarem preparadas é terem o seu plano de contingência. Claro que um plano de contingência para um país ou até uma grande organização é uma coisa complexa, agora para a pessoa e para uma família é mais simples.

O que é um plano de contingência?

Os planos de contingência são sobre alguma coisa que pode não acontecer. E portanto é preciso ter um plano de contingência e é preciso saber quando ativá-lo. E perante todos nós, a família e o local de trabalho, temos de ter o nosso plano de contingência.

Quais são os objetivos dos planos de contingência?

Como me protejo? Fundamentalmente de duas formas: primeiro por distanciamento social. Segunda, não tocar em superfícies que estejam contaminadas com o vírus

O primeiro objetivo é proteger-nos da infeção, o segundo é o que fazer se algum de nós adoece. Isto deve estar pré-planeado. E como é que eu me protejo? Fundamentalmente de duas formas: primeiro por distanciamento social. O Professor Ricardo Jorge, que foi professor de saúde pública há cem anos e que há cem anos, em relação à gripe endémica de 1918 escreveu “não me toquem com cousas tão polutas como beiços e dedos”. E portanto o distanciamento social é mantermos distâncias: não há beijinhos, não há abraços. Se eu tenho um elevador no meu prédio, devo combinar a ida de uma família de cada vez, porque o elevador é muito apertado. Há um conjunto de atitudes que obviam que eu me aproxime demasiado de uma pessoa que eventualmente possa ser transmissora do vírus. A segunda circunstância tem a ver com não adquirir o vírus de outra forma que também é possível, apesar de ser menos eficaz do que a primeira, que é tocar em superfícies que estejam contaminadas com o vírus.

O que fazer se um familiar adocer?

Essa pessoa deve ser afastada das outras

Essa pessoa deve ser afastada das outras, mas isso tem uma dinâmica própria, tem uma logística própria, manter essa pessoa afastada. E se for uma pessoa com uma certa idade, com uma doença crónica, nós devemos protegê-la com mais vigor. Por exemplo, se no meu prédio morar um casal com uma certa idade com alguma doença, que está isolado, não têm filhos próximos, nós podemos ajudá-los com as compras do supermercado, para não os expormos tanto, isso faz parte do tal plano de contingência.

Quando devemos ativar o plano de contingência?

Quando o vírus circular de forma sustentada na comunidade. Como é que eu sei isso? A Direção Geral de Saúde vai dizer-nos “olhe, o vírus começou a circular de uma forma sustentada na nossa comunidade” e sabemos também porque o número de casos, ao contrário desta fase de contenção em que temos 1, 2, 3, 1, 5, 7, 8, passa a ser 1, 17, 300. Há uma explosão no número de casos. Nessa altura sei que, em princípio, como o vírus circula, eu posso ser infetado em qualquer lado e, portanto nessa altura tenho de me proteger.

preparar é não só o país ter um plano de contingência, como tem, mas também as pessoas, as famílias, as empresas, as escolas, associações

preparar é não só o país ter um plano de contingência, como tem, mas também as pessoas, as famílias, as empresas, as escolas, associações

Em Itália o vírus já está disseminado por toda a população?

em termos de epidemia, não há um país, há vários países porque não afeta igualmente o país no seu conjunto

Se olhar para a Itália o foco está no Norte. No fim de semana passado não houve jogos de futebol em Milão, não foram permitidos, para as pessoas não se juntarem, mas houve em Nápoles. Ou seja, em termos de epidemia, não há um país, há vários países porque não afeta igualmente o país no seu conjunto. Há partes da Itália que estão de fase de tentar minimizar os efeitos de uma curva epidémica que se estabeleceu, há outras partes de Itália que estão em contenção, estão a importar casos e estão buscando a contenção, no fundo. Se olhar para a China há um número grande de províncias da China que tiveram muito poucos casos. Dos 3.000 mortos da China, 2.800 são da província de Hubei. Quando dizemos que um país tem uma onda epidémica, não é um país inteiro necessariamente, e isso é importante conhecer.

Quais podem ser as consequências da infeção em Itália para o resto da Europa?

os grandes exportadores são quatro: a Coreia do Sul e a China, o Irão e a Itália. Enquanto forem quatro, nós temos esperança que possa ser contida nos outros países

Devido ao “chuveirinho italiano”, esta exportação do Norte de Itália, o número de casos em Espanha, na França, na Alemanha, têm aumentado muito nos últimos dias. Eles ainda estão em contenção e esperemos que estejam assim muito tempo. Porque qual é o risco? Se tivermos mais um exportador da dimensão de Itália, o número de vírus importado é tão grande que é difícil fazer a contenção. Daí a OMS ter sido cautelosa. Porque, no fundo, no fundo, os grandes exportadores são quatro: a Coreia do Sul e a China, o Irão e a Itália. Enquanto forem quatro, nós temos esperança que possa ser contida nos outros países, não ter uma curva epidémica em todos os países europeus. Se esse número de quatro se duplica, então a exportação de vírus é tão intensa que o exercício de contenção, apesar de possível, é mais difícil.

O que aconteceu em Itália para a contenção ter falhado?

São sempre circunstâncias difíceis de investigar, e habitualmente têm a ver com a forma como aparece a doença. Se aparece uma pessoa que tem uma sintomatologia não muito intensa e que é socialmente muito ativa, vai jantar com um conjunto de pessoas, vai dançar à noite, tem uma atividade muito grande, e se houver descuido da parte das pessoas, ter sintomas e não telefonar para a Saúde 24 de lá do sítio, se houver um conjunto de circuntâncias dessas, não conseguimos fazer a contenção. Não é um fator, não é um erro, não é uma debilidade, não é uma fragilidade, é um conjunto de circunstâncias que fazem com que a contenção falhe e apesar disso, apesar da exportação chinesa, que foi grande, apesar da exportação italiana que, como se nota, foi intensa, apesar disso, os países europeus têm-se aguentado, não passámos ainda em nenhum outro país europeu para uma situação de “transmissão sustentada na comunidade”. Como é que vai evoluir? Não sabemos.

Será possível fazer a contenção do vírus em Portugal?

Não se podem fazer previsões porque os fatores são múltiplos e não podem ser todos antecipados, mas podemos preparar-nos

Em termos de saúde pública e Serviço Nacional de Saúde, nós estamos melhor que a maior parte dos outros países. Agora, tudo depende da intensidade da importação. Se houver vários países a exportar como a Itália, ficamos um pouco cercados em termos da intensidade dos vírus importados. Se mantivermos a situação atual, é possível ainda conter e não ter um foco tão intenso como aquele que experimentamos na Itália ou no Irão. Não se podem fazer previsões porque os fatores são múltiplos e não podem ser todos antecipados, mas podemos preparar-nos. E preparar é não só o país ter um plano de contingência, como tem, mas também as pessoas, as famílias, as empresas, as escolas, associações, terem também o seu plano de contingência, saberem como construí-lo e ativarem-no no momento preciso.

 

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