Pedrógão: Governo e celuloses criaram condições para "tragédia ainda pior

16 de junho 2022 - 22:26

Cinco anos após o incêndio, cientistas e ativistas climáticos afirmam que "todos os discursos de circunstância, as vozes embargadas e as lágrimas que caírem hoje por parte dos responsáveis por 2017 e pelo pós-2017 devem ser desprezados e caracterizados pelo que efetivamente são: insignificantes".

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Fotografia de Miguel Lopes/Lusa.

Quando se assinalam os cinco anos desde o incêndio mortífero de Pedrógão Grande, um grupo de ativistas de organizações pela justiça climática e académicos da área da floresta criticam duramente a falta de ação do Governo num artigo de opinião publicado no Expresso.

"Houve breves momentos, em 2017 e 2018, em que pareceu que seria possível mudar algo no país", referem os subscritores, concluindo que foram enganados ao verem que os desafios então levantados "já não ocupam um só minuto das preocupações da elite governante deste país".

"Cinco anos depois, Portugal é um país mais perigoso, mais despreparado e mais frágil", onde "os donos da floresta mandam mais do que nunca" e se expande o abandono, o eucaliptal e o deserto, enquanto as alterações climaticas tornam o clima mais quente e seco. "Temos menos florestas, menos pessoas no interior, menos poder no meio rural e nenhum respeito pelas comunidades devastadas pelos incêndios de 2017", referem.

"Cada lágrima chorada hoje será, de forma inequívoca, uma farsa"

Recordando a recente Caravana pela Justiça Climática, que passou pelas áreas afetadas pelo incêndio de junho de 2017, os subscritores não têm dúvidas em afirmar que "cinco anos depois dos piores incêndios da história deste país, as condições estão reunidas para uma tragédia ainda pior". E apontam o dedo aos responsáveis por essa situação: "este governo, sem dúvida, e as empresas de celulose que proliferam nesta degradação, que se expandem e se beneficiam neste caos".

"Cada lágrima chorada hoje será, de forma inequívoca, uma farsa, uma mentira, uma chapada na cara das famílias de quem morreu e uma machadada no futuro de quem pensa continuar a viver em Portugal", prossegue o texto, acrescentando as duas promessas falhadas do Governo à população de Pedrógão: um projeto piloto de ordenamento florestal e um monumento às vítimas. Por isso, acrescentam, "todos os discursos de circunstância, as vozes embargadas e as lágrimas que caírem hoje por parte dos responsáveis por 2017 e pelo pós-2017 devem ser desprezados e caracterizados pelo que efetivamente são: insignificantes".

O artigo é assinado por ativistas de movimentos e coletivos ligados pela justiça climática, como António Assunção, Eunice Duarte, Fábio João Marçal, João Camargo, Maria Teresa Rito, Matilde Alvim, Matilde Ventura, Mónica Casqueira, Nina Van Dijk ou Serafim Riem, juntamente com o botânico e catedrático jubilado da Universidade de Coimbra, Jorge Paiva, e o engenheiro silvicultor e presidente da Acréscimo - Associação de Promoção ao Investimento Florestal -, Paulo Pimenta de Castro.