Nos últimos dez anos, os presidentes executivos (CEO) das maiores empresas portuguesas cotadas em bolsa no índice PSI (antigo PSI20) viram a sua remuneração aumentar em média 47% para perto de 1,4 milhões de euros anuais enquanto os trabalhadores dessas empresas sofreram um corte salarial de 0,6%, recebendo em média 36.727 euros brutos em 2022. As contas são do semanário Expresso, a partir da comparação dos relatórios e contas para perceber a dimensão do fosso salarial entre 2012 e o ano passado.
A conclusão é óbvia: a desigualdade salarial aumentou na última década nas grandes empresas portuguesas. E o aumento foi quase para o dobro, com a diferença média entre a remuneração dos CEO e dos trabalhadores da mesma empresa, que era em 2012 de vinte vezes, a passar agora para 36 vezes. Isto representa um aumento também face ao ano anterior, quando essa diferença era de 32,2 vezes.
No topo deste ranking da desigualdade salarial continua o líder da Jerónimo Martins, o grupo de distribuição dono do Pingo Doce, Recheio e de cadeias de supermercados na Polónia e Colômbia. Pedro Soares dos Santos acumulou em 2022 uma remuneração de 3,7 milhões, incluindo variáveis e ainda 740 mil euros de complementos de reforma que não entram para estas contas. Mesmo sem os complementos, levou para casa uma remuneração 186 vezes superior à média dos seus trabalhadores, que rondou no ano passado os 16 mil euros brutos, tendo em conta que na Polónia e Colômbia os salários são mais baixos que em Portugal.
Segue-se nessa lista a CEO da Sonae, dona do Continente, cuja remuneração média é 82 vezes maior que a dos seus trabalhadores, o ex-CEO da Mota Engil Gonçalo Moura Martins (49 vezes) e o CEO da EDP e EDP Renováveis Miguel Stilwell de Andrade (42 vezes). Entre os CEO que ultrapassam a fasquia de vinte vezes o salário dos seus trabalhadores estão ainda António Redondo (Navigator, 36 vezes), Miguel Maya (BCP, 34 vezes), Miguel Almeida (NOS, 31 vezes), João Bento (CTT, 26 vezes) e Andy Brown (GALP, 24 vezes). Na mesma comparação, José Pina (Altri) e João Manso Neto (Greenvolt) ganharam 19 vezes mais, enquanto Rodrigo Costa, da REN, ganhou 17 vezes mais. A grande distância e a fechar a lista surge António Rosa Amorim, da Corticeira Amorim, onde este fosso salarial é de nove vezes. Fora das contas ficou a Semapa por não ter ainda apresentado contas nem respondido às questões do Expresso.
PS e direita chumbaram proposta de leque salarial
Para procurar combater esta disparidade salarial, o Bloco voltou a apresentar este ano um projeto lei para a definição de leques salariais de referência, entendido como o diferencial máximo entre a remuneração mais elevada e a remuneração mais baixa paga por uma mesma entidade empregadora.
Esse leque salarial seria aplicado na administração pública e o efeito nas empresas privadas decorrerá das penalizações às empresas que não o respeitem, ao serem excluídas de concursos públicos ou benefícios fiscais. A proposta foi a votos em fevereiro e acabou chumbada com os votos do PS e dos três partidos da direita, tal como havia acontecido com uma proposta semelhante que o Bloco apresentou em 2018.