Papa Francisco aprova bênção a casais do mesmo sexo

19 de dezembro 2023 - 12:01

Decisão também abrange casais “irregulares”. Documento aprovado pelo papa refere que padres “não devem impedir ou proibir a proximidade da Igreja às pessoas em todas as situações em que possam procurar a ajuda de Deus através de uma simples bênção”.

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Foto publicada no portal do Bloco de Esquerda de Loures.

A "Fiducia supplicans" do Dicastério para a Doutrina da Fé, aprovada pelo papa Francisco, abre a porta à bênção de casais irregulares e casais formados por pessoas do mesmo sexo. O Vaticano explica que o documento distingue as bênçãos rituais e litúrgicas e as bênçãos espontâneas, sendo nesta segunda categoria que é contemplada “a possibilidade de acolher também aqueles que não vivem de acordo com as normas da doutrina moral cristã, mas pedem humildemente para serem abençoados”.

Na introdução do documento, da autoria do cardeal Victor Fernandez, é referido que a declaração aprofunda o "significado pastoral das bênçãos", permitindo que "a sua compreensão clássica seja ampliada e enriquecida" através de uma reflexão teológica "baseada na visão pastoral do Papa Francisco". Uma reflexão que "implica um verdadeiro desenvolvimento em relação ao que foi dito sobre as bênçãos" até agora, chegando a incluir a possibilidade "de abençoar casais em situação irregular e casais do mesmo sexo, sem validar oficialmente o seu status ou modificar de qualquer forma o ensino perene da Igreja sobre o casamento".

Existem "várias ocasiões em que as pessoas vêm espontaneamente pedir uma bênção, seja em peregrinações, em santuários, ou mesmo na rua quando encontram um sacerdote", e tais bênçãos "são dirigidas a todos, ninguém pode ser excluído", aponta a declaração.

Esta bênção “nunca será realizada ao mesmo tempo que as cerimónias de união civil ou mesmo em conexão com elas. Nem com roupas, gestos ou palavras típicas de um casamento”, clarifica o documento, que acrescenta que a mesma pode enquadrar-se “numa visita a um santuário, um encontro com um sacerdote, uma oração recitada em grupo ou durante uma peregrinação”.

Ainda que esta declaração não se traduza na aprovação do casamento homossexual, é considerada uma decisão histórica, na medida em que é a primeira vez que a Igreja abre caminho à bênção dos casais do mesmo sexo. A decisão contradiz, de facto, a afirmação de longa data do Vaticano de que abençoar casais do mesmo sexo minaria o ensinamento da Igreja de que o casamento é entre um homem e uma mulher, incluindo uma decisão de 2021 que dizia que Deus “não pode abençoar o pecado”.

Francisco Louçã
Francisco Louçã

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Decisão irrita conservadores norte-americanos

Nos Estados Unidos, o documento irritou alguns conservadores, mas foi celebrada por aqueles que consideram que a decisão constitui um passo substancial para levar a Igreja a uma maior aceitação da comunidade LGBTQ.

“É realmente um marco e um marco no relacionamento da Igreja com LGBTQ”, afirmou Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, um grupo de Maryland que defende os católicos homossexuais desde a década de 1970. “Esta declaração é a prova de que o ensino da Igreja pode – e deve – mudar”, continuou DeBernardo, citado pelo New York Times.

Já os católicos conservadores norte-americanos, muitos dos quais são profundamente céticos em relação à liderança do papa Francisco, reagiram com indignação.

A decisão papal foi emitida “em contradição com o imutável ensinamento católico de que a Igreja não pode abençoar relacionamentos pecaminosos”, escreveu o conservador LifeSiteNews.

Numa declaração breve e cautelosa, a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA enfatizou a distinção entre bênçãos sacramentais formais e “bênçãos pastorais”. “O ensinamento da Igreja sobre o casamento não mudou, e esta declaração afirma isso, ao mesmo tempo que faz um esforço para acompanhar as pessoas através da transmissão de bênçãos pastorais, porque cada um de nós precisa do amor curador e da misericórdia de Deus nas nossas vidas”, afirmou Chieko Noguchi, seu porta-voz.

O Arcebispo Salvatore J. Cordileone, de São Francisco, conservador declarado, encorajou “aqueles que têm dúvidas a lerem atentamente a declaração do Vaticano e em continuidade com o ensinamento imutável da Igreja”. “Isso permitirá compreender como encoraja a solicitude pastoral, mantendo ao mesmo tempo a fidelidade ao Senhor Jesus Cristo”, escreveu.

“Nunca concederei uma bênção a dois homens ou duas mulheres que estejam envolvidos numa relação sexual que seja, por natureza, gravemente pecaminosa”, afirmou, por sua vez, o reverendo Gerald Murray, pastor da Igreja da Sagrada Família em Nova Iorque. “O papa colocou os padres que defendem a doutrina católica sobre a imoralidade da sodomia e do adultério numa posição terrível”, acrescentou.

“É mais uma destas formas de aprovar as relações homossexuais sem realmente dizer que as aprovamos”, disse ainda Peter Kwasniewski, um autor católico tradicionalista.

Marianne Duddy-Burke, diretora executiva da DignityUSA, uma organização que apoia a comunidade LGBTQ, afirmou que “parece que outra janela da igreja foi aberta”, enquanto “ainda esperamos que as portas sejam abertas”.