Uma nova campanha de recrutamento surgiu, há alguns meses, nos campi das universidades mais prestigiadas dos EUA. Na Universidade Cornell em Ítaca (uma pequena cidade universitária situada a cerca de 280 km a noroeste de Nova Iorque) e na Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia, cartazes sombrios exibidos em paragens de autocarro mostravam um alerta ameaçador: “A hora da verdade chegou para o Ocidente”. Eles acusavam os gigantes da tecnologia de negligenciar o “interesse nacional” ao decidirem “o que deve ser construído”.
Em contrapartida, a Palantir[1], empresa do setor da defesa especializada em análise de dados e autora desses cartazes, declarava que não se limitava a criar produtos tecnológicos “para garantir o futuro da América”, mas sim “para dominar”.
A mensagem implícita desses anúncios ecoa a convicção dos líderes da Palantir — incluindo o fundador Peter Thiel (n.1967) e o executivo-chefe Alex Karp (n.1967) — de que a verdadeira missão do Vale do Silício é consolidar a supremacia militar dos EUA e do Ocidente: uma nostalgia reacionária da fusão entre Estado, engenharia e capital que marcou a Guerra Fria.
Nessa versão do ultranacionalismo tecnológico, devolver a grandeza aos Estados Unidos significa não só dominar adversários estrangeiros, mas também lançar uma ofensiva contra o “capital woke”, o consumismo considerado efeminado e um sistema universitário virado para a justiça social e a diversidade. (Os cartazes da Palantir foram divulgados em paralelo a uma nova iniciativa para atrair estudantes do ensino secundário com excelentes notas, oferecendo-lhes uma bolsa de quatro meses para “escapar do doutrinamento” do ensino superior.)
A Palantir tem motivos de sobra para embarcar nessa onda de contratações. Apesar de os seus críticos terem festejado quando a cotação das suas ações caiu brevemente, após os anúncios das tarifas aduaneiras do governo Trump, o seu valor triplicou desde as eleições presidenciais dos EUA, em novembro de 2024. E o talento da empresa para cultivar relações de alto escalão na segurança nacional rendeu-lhe uma enxurrada de contratos governamentais ligados ao autoritarismo crescente de Trump.
A Palantir já se aliou à SpaceX, empresa de Elon Musk (n.1971), e à Anduril[2], empresa especializada em IA e robótica, para começar a construir o “Golden Dome”, “Escudo de Ouro” de Trump — uma versão estadunidense do sistema de defesa aérea israelita Iron Dome. Também colabora com o DOGE (Departamento de Eficiência Governamental) criado por Musk para estabelecer uma interface de programação de aplicações [3] que permita ao Departamento de Segurança Interna vasculhar dados da Receita Federal e identificar contribuintes indocumentados para deportação.
Em abril de 2024, a Palantir — que mantém parcerias de longa data com o exército, a polícia e os serviços de controle de fronteiras dos EUA — garantiu um contrato de US$ 29,8 milhões com a ICE (polícia anti-imigrantes) para aprimorar o seu “Sistema Operacional do Ciclo de Vida da Imigração”[4], um sistema distópico que fornece informações detalhadas sobre imigrantes que o governo deseja monitorizar, deter e deportar.
A empresa também se prepara para reorganizar o sistema de gestão de investigações da ICE, rastreando populações-alvo através de centenas de categorias de dados — desde cor dos olhos e tatuagens até endereços profissionais e números de segurança social. Ex-funcionários alarmados com o apoio ao programa repressivo de Trump publicaram recentemente uma carta aberta intitulada “The Scouring of the Shire” (A Limpeza do Condado)[5], alertando que a Palantir (e as gigantes de tecnologia em geral) “normaliza o autoritarismo sob o disfarce de uma ‘revolução’ conduzida por oligarcas”.
O trabalho da Palantir em Investigação & Desenvolvimento fascista não se limita aos EUA. A empresa e Karp, o seu executivo-chefe, declararam abertamente o seu apoio ideológico e material a Israel durante o genocídio em Gaza. Numa reunião extraordinária do conselho em Telavive (janeiro/2024), a empresa destacou a sua parceria estratégica com o ministério da Defesa israelita, fornecendo tecnologias bélicas como a sua plataforma de IA — supostamente usada para decisões em tempo real em zonas de guerra via chatbots automatizados.
A direção da Palantir deixou claro que a sua visão de supremacia ocidental inclui a defesa intransigente do sionismo no estrangeiro e do nacionalismo de extrema direita no seu próprio país.
Através de tudo isso, a Palantir tornou-se o epítome do alinhamento da indústria tecnológica com o ultranacionalismo autoritário — indo muito além das saudações nazis de Elon Musk, do seu pró-natalismo de tabloide e dos seus trolls “dark MAGA”[6]. Nas palavras do investigador Jathan Sadowski: “Desde a sua fundação, a Palantir procura fornecer a ‘camada ontológica’ do fascismo, materializando os seus objetivos ideológicos”.
Por outras palavras, a Palantir cria infraestrutura digital ao serviço das múltiplas formas de violência e controle estatal que sustentam o autoritarismo contemporâneo — desde softwares que facilitam deportações em massa até IAs usadas em guerras contra povos colonizados.
Menos de um mês após o regresso de Trump ao poder, Karp lançou The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West — mistura curiosa (e palavrosa) de manifesto neoconservador e propaganda corporativa. No centro do livro está a versão tecnológica do velho lamento da direita: para Karp, as elites liberais “woke”, estudantes militantes e até intelectuais como Edward Said (1935-2003) teriam “castrado” o Ocidente, enfraquecendo o seu ímpeto tecnológico justamente quando enfrenta a revolução da IA e o avanço da China.
Mas por trás dessa retórica estereotipada sobre guerra cultural, é fácil discernir a raiva de Karp contra a resistência organizada dos trabalhadores do setor tecnológico — como as campanhas #NoTechForICE[7] e a Tech Workers Coalition — que combatem o projeto de construir o arsenal do fascismo. Aqui, a ideologia funde-se com um argumento comercial.
A Palantir não só lucra com o medo — seja de migrantes, da IA ou de futuras guerras travadas com enxames de drones — que leva governos a abrir os cofres públicos. Também tira partido da onda mediática em torno de seu modelo comercial distópico, que promete fundir análise de dados e violência estatal.
O seu valor na bolsa quintuplicou no mil milhões — muito além do crescimento real de receita. Essa lacuna é preenchida por especulações sobre um futuro que a Palantir retrata como uma escolha entre supremacia estadunidense ou dominação chinesa.
Por trás dos lamentos de Karp sobre uma crise ocidental de “crença”, o que ele realmente quer que aceitemos é a Palantir: uma nova interface reluzente para o velho comércio de racismo, repressão e guerra.
Alberto Toscano é professor na Simon Fraser University, ensaísta, crítico cultural e tradutor. Artigo publicado no Contretemps e traduzido por Antonio Martins para o Outras Palavras. Adaptado para português-PT pelo Esquerda.net.
Notas
[1] A Palantir Technologies Inc. é uma empresa estadunidense fundada em 2003 e listada na Nasdaq. Fornece plataformas de análise de dados em massa (Gotham, Foundry, AIP) para agências governamentais (defesa, inteligência, polícia, imigração). Em 2024, faturou US$ 2,87 mil milhões, com lucro de US$ 214 milhões no 1º trimestre de 2025. As suas ações na bolsa saltaram 73% desde o início do ano, elevando a sua capitalização para quase US$ 300 mil milhões – colocando-a entre as 40 empresas mais valiosas do mundo. Essa explosão financeira é sustentada por contratos lucrativos com a Immigration and Customs Enforcement — ICE, a polícia antiimigrantes dos EUA — (US$ 30 milhões em abril) e o Pentágono (US$ 178 milhões só em março), além do seu papel central no desenvolvimento da IA. É um sucesso ecoóômico alarmante para ativistas de direitos humanos, que denunciam vigilância em massa e tendências autoritárias.
[2] A Anduril Industries é uma empresa estadunidense fundada em 2017, especializada em sistemas autônomos de defesa (drones aéreos e submarinos, vigilância, lançadores de foguetes), controlados por sua plataforma de software “Lattice”. Em junho de 2025, a sua avaliação atingiu US$ 30 mil milhões após captação excepcional de US$ 2,5 mil milhões. Atualmente colabora com gigantes da defesa como a Rheinmetall para produzir drones na Europa, e possui ampla carteira de contratos (defesa dos EUA, marinha australiana etc.), consolidando crescente poder militar e industrial.
[3] Em abril de 2025, a revista Wired revelou que a Palantir colabora com o DOGE (Departamento de Eficiência Governamental, iniciativa de Elon Musk para desenvolver um megaportal acessando todos os bancos de dados da IRS (agência tributária dos EUA). O projeto centraliza dados sensíveis – nomes, endereços, números de previdência social, declarações fiscais -, usando o software Foundry da Palantir como hub único de leitura dos sistemas da IRS, gerando preocupações sobre concentração e segurança de dados privados. Ver Makena Kelly, “Palantir Is Helping DOGE With a Massive IRS Data Project”, Wired, 11/04/2025.
[4] Immigration Lifecycle Operating System (ILOS): plataforma digital criada pela Palantir para a agência ICE, usada para catalogar, rastrear e facilitar a deportação de migrantes. Apresentada como ferramenta de “eficiência”, exemplifica a deriva securitária e racista da tecnologia a serviço de políticas migratórias repressivas e desumanizadoras. Ver https://notechforice.com.
[5] “The Scouring of the Shire” (“A Limpeza do Condado”) é o penúltimo capítulo de O Senhor dos Anéis, onde os hobbits retornam para encontrar o Condado corrompido por Saruman. Através de laços comunitários, derrubam esse regime opressivo, cumprindo dupla missão moral: destruir o Anel e defender seu lar.
[6] O termo “dark MAGA” designa um movimento político online, apoiado por Elon Musk e figuras da tecnologia, que combina estética gótica (bonés pretos, montagens vermelho/negro, olhos laser em retratos de Trump) com ideias abertamente fascistas. Usa símbolos como o Sonnenrad (“Sol negro” nazista originalmente usado pelas SS) e runes das SS, reforçando imagens de extrema-direita radical em memes virais que reinventam a retórica MAGA com códigos neonazistas.
[7] A #NoTechForICE é campanha iniciada em 2018 pela organização Mijente para encerrar contratos entre empresas de tecnologia (como Palantir, Amazon e Microsoft) e a agência federal ICE (polícia antiimigrantes), denunciando o uso de tecnologias de vigilância e bancos de dados em políticas de deportação e detenção de migrantes. Ver https://notechforice.com.