Evidentemente, eles tiveram uma educação. Foram para escolas como a Sciences-Po ou a escola de jornalismo. Então, nós ensinamo-los e eles aprenderam. Aprenderam História. Regurgitam-na: em cópias, depois em artigos e em discussões quotidianas. Eles viram documentários na Arte. Filmes. Sobre a ascensão do fascismo. Sobre o que aconteceu, os processos em curso, as acelerações. Ao que os processos levaram. Eles foram convidados, e convidaram, a “meditar”. Como tudo isso pôde acontecer. No meio de tanta inconsciência, passividade e falências políticas, intelectuais e morais. Depois disso, eles juraram solenemente que “nunca mais”. Portanto, eles sabem. Naturalmente.
E assim tudo acontece de novo — mas como no desfile. Não há sequer necessidade de fazer um esforço para generalizar ou conceptualizar. Tudo está diante dos seus olhos de novo: a mesma sequência. Quase idêntica. Basta olhar, e logo qualificar. Mas nada. Não, não se passa nada — bem, pelo menos nada de extraordinário. Pelo menos aqui. Noutros lugares, sim, é diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo. São muito diferentes, os Estados Unidos. De acordo com a regra mais comprovada do jornalismo nacional, quando é “longe” podemos ver; mas cuidado: não se use para Israel. Sobre os Estados Unidos, por exemplo, agora até é permitido entregar-se à emoção de dizer “fascismo”. Em França? Ascensão, sequência? Francamente, não, não se vê. Nada. RN, sim — ainda assim, lemos as sondagens. Mas perfeitamente republicano – fascismo, não.
Inverter
Para todos os efeitos, e na situação em que nos encontramos, “nada” seria de longe preferível. Porque não há “nada”: aí está a inversão. O problema político em França não é a ascensão inexorável do fascismo, é o bloco da esquerda antifascista. Que, em última análise, sugerimos a meia voz, poderia muito bem ser o “verdadeiro fascismo”. Não é, portanto, correto afirmar que “tudo se reproduz” de igual forma. O segundo fascismo histórico tem a particularidade de negar absolutamente ser fascismo e reservar essa infâmia para os seus adversários. A este respeito, um vídeo já antigo é elucidativo — é uma paródia, mas é extremamente sério. Nele, vemos um oficial das SS, abordado por um transeunte que o chama de nazi, reagindo indignada e sarcasticamente: «E por que não me chama de extrema-direita já que vai por aí? É sempre assim: quando ficamos sem argumentos, lá vem a polémica nazi; e nosso Führer, suponho que também seja nazi?!». Este é exatamente o estado real do debate hoje. Um relatório da France Info termina com a evocação de «flores para Quentin»
No entanto, três minutos de vídeo seriam suficientes para dar a conhecer a natureza dos grupos aos quais este infeliz pertencia. Ouviremos falar do “corista e filósofo”, ou do “estudante de matemática”, pode variar; em todo o caso, uma figura de sabedoria, moderação e empatia cristã. Mas ao que ele estava realmente afiliado, as hordas negras, os desfiles de tochas, as faixas com cruzes celtas, os braços estendidos, o desfile neonazi em que participou no dia 10 de maio, por exemplo — ou seja, todas as manifestações de fascismo autêntico gentilmente autorizadas pelo trio ministerial Darmanin-Retailleau-Nunez — isso, os media não mostrarão. Também não vão mostrar os vídeos, ainda amplamente disponíveis, de milícias fascistas em operação, de picareta nas mãos, nas ruas de Angers, Rennes, Lyon e outros lugares. Eles não dirão o que acontece na vida noturna, em bares, discotecas ou livrarias, quando uma rusga pode ocorrer a qualquer momento. Eles não mostrarão a foto de Retailleau na agradável companhia do «Jarl», notório chefe de uma milícia, ilustração perfeita do que é um arco fascista. Eles não vão enumerar a lista de todos os assassinados pela extrema-direita — é verdade que todos eles têm nomes que soam muito pouco cristãos, e, além disso, ninguém falou sobre eles na altura. Não falarão da compaixão seletiva de Macron, que praticamente chora a morte de um militante fascista, mas não diz nada sobre os assassinatos cometidos por militantes fascistas — ocasiões que, no entanto, são numerosas.
Em suma, não dirão que se há antifascismo, talvez seja porque em primeiro lugar, existe um fascismo — porque logicamente não podemos preceder aquilo em relação ao qual nos definimos. E que, quando a sociedade é abandonada às milícias, toleradas por todo o aparelho estatal, desde as profundezas da polícia até às cúpulas da administração e do governo, presidentes de câmara e ministros, ignoradas pelos meios de comunicação social, que teriam o poder de dar origem a uma reprovação social à escala nacional – então, sim, quando nada mais dissuade as milícias, não é de surpreender que alguns não queiram mais sofrer, que formem um projeto para se defenderem, por arrasto defendo outros, e que se revistam de meios. E também não é surpreendente que a deserção de um Estado cúmplice deixa apenas a possibilidade de encontros físicos violentos. Normalmente, caberia à polícia opor-se-lhes — mas agora todos sabem de que lado a polícia está. Todos exceto os media.
Estando a ascensão do fascismo afastada da paisagem, tudo o que resta é um incompreensível «antifascismo», uma aberração absurda, uma violência pura e sem causa. Então, mentirosamente, podemos fazer títulos dizendo “LFI, o novo inimigo”, como a France Info, a estação de rádio pública de extrema-direita, que retirou o ponto de exclamação por não precisar de validar todos os graus de hipocrisia. Ou, como Sandrine Cassini, “LFI posta em causa pela direita e pela extrema-direita”, quando é bastante óbvio que o título real deveria ser “LFI posta em causa pelo Le Monde”. Teremos de nos lembrar deste fim de semana de fevereiro de 2026, porque ficará sem dúvida como um momento histórico. Não que o que aconteceu nesta data tenha sido absolutamente inédito. Já conhecemos a negação da corrida ao fascismo sob Macron, o desânimo da única força política verdadeiramente de oposição – já que o RN apenas propõe intensificações do que já se faz, e os restantes um status quo perfeito. Não é que tudo seja novo, mas tudo foi levado a este cúmulo em que as variações quantitativas provocam diferenças qualitativas. A transição para o que por conveniência se chama de “trumpização”, isto é, uma forma extraordinária de mentir, de distorcer e de fabricar, é total e capturou toda a paisagem política e mediática.
Falsificar
Não é de todo acidental que este evento tenha lugar apenas alguns dias após as palavras do Ministro do Interior Nunez declarando que “práticas de perfilagem racial não existem”, embora tenham sido documentadas pelo Supremo Tribunal, pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e pelo Conselho de Estado. Ou da afirmação espantosa do Ministro dos Negócios Estrangeiros, exigindo a demissão de Francesca Albanese com base em comentários que ela simplesmente não fez. Ambas as declarações ocorreram sem que nenhum meio de comunicação notasse a sua extrema gravidade, contentando-se (na melhor das hipóteses) a relatá-las como rotineiras. Um sistema de media ‘saudável’ deveria ser uma instância de retificação e até mesmo de denúncia da indecência dessas falsificações. No entanto, o sistema contemporâneo tornou-se ele próprio um agente da corrupção intelectual contra a qual deveria lutar, agora ocupado a esconder a verdade, quando não a dizer o seu oposto. Também a imprensa de “verificação de fatos”, numa cruzada contra a pós-verdade, se transformou ela mesmo numa formidável máquina de pós-verdade. Não há fascismo, e o antifascismo é fascismo. A LFI é a violência na política e as milícias verdadeiramente assassinas não existem. As palavras da LFI matam, mas não as da Grande Substituição. Aliás, as palavras “Abaixo o véu” não provocaram a Retailleau nem um ligeiro escândalo. A LFI é o antissemitismo reconstituído, embora isso não possa ser comprovado de nenhuma forma, mas a lama espessa que cobre o RN – candidatos ordinários, grupos de mensagens, conexões de milícias – é insignificante, uma vez que o RN apoia Israel.
França
Tantas vezes estigmatizado, mas nunca destruído, o antifascismo entra em zona de turbulência
Mathieu Dejean
Israel e seu genocídio. Este é talvez o lugar original e sintomático da mudança política e mediática. O genocídio em Gaza é objeto da mesma negação que a ascensão fascista, para dar origem a uma aliança que desafia a compreensão, a lógica e a História: o sionismo na sua variante genocida (e não só) e o bloco da defesa da ordem burguesa, do PS até à extrema-direita mais antissemita. Basta, como único cimento, o ódio à LFI. É verdade que, como a França Insubmissa estava sozinha na arena institucional a denunciar o genocídio e também sozinha na esquerda, tornou-se um alvo para todos os adversários. Ocorrerá a algum meio de comunicação questionar este mundo paralelo que se tornou o nosso, no qual, por exemplo, o filho de um caçador de nazis apela a “grandes rusgas” [perseguição a imigrantes sem documentos]? Nesta inversão dos polos magnéticos, a mentira extrema reina de forma absoluta.
E isto inclui até círculos bem-educados, como o C Politique, por exemplo, o equivalente de domingo, na France 5, da máquina de sedação diária que é o C ce soir. Jean-Yves Camus, supostamente um académico, está a delirar, porque não há outra palavra, quando diz que Rima Hassan descreveu todos os judeus como “genocidas”. Imediatamente junta-lhe outra falsificação, dizendo que “Do Jordão ao mar” significa a expulsão de judeus, mesmo que ela tenha dito sistematicamente o contrário. E nem uma questão ou contraditório da parte de Thomas Snegaroff, o apresentador; nem um movimento de interrupção seca e clara diante da fabricação no seu estado mais puro. Preferiram passar a outro assunto — por exemplo (e por acaso!) a LFI. O apresentador observa que, formalmente, ela não está a priori de forma alguma envolvida no drama em Lyon, mas dedica-lhe mesmo assim o último quarto de hora do programa, o que dará muitas oportunidades para insinuar o contrário.
Sem surpresa, poderíamos contar com Macron para oferecer uma síntese perfeita: LFI / extrema-esquerda / arco republicano (do qual está fora) / antissemita. Fê-lo a convite amável de Frédéric Haziza, mascote da Radio J, à qual o jornalismo é tão distante quanto o assédio sexual é familiar. De qualquer forma, não esperávamos nada menos do presidente, que tem sido um agente ativo nesse processo e cujo sistema de comunicação social tem trabalhado incansavelmente para negar o seu papel de liderança do mesmo. Para ele, Pétain é um grande soldado, Maurras uma referência, Zemmour o consolo telefónico, tendo até dado uma entrevista à Valeurs Actuelles. Conta no seu currículo também com violência policial galopante, impunidade garantida, atividades legislativas espantosas (proibição de filmar a polícia, presunção de legítima defesa), racismo autorizado em declarações ministeriais, polícia ideológica na universidade, vigilância das redes sociais sob o pretexto da proteção dos jovens, repressão ou proibição de manifestações de apoio à Palestina – enfim, um colapso generalizado dos direitos e liberdades fundamentais, e a despromoção de França ao posto de “democracia falhada” (Civicus) ou de “democracia defeituosa” (The Economist). E por último, mas não menos importante, a obsessão documentada em entregar o poder ao RN, mesmo que isso signifique ignorar os resultados eleitorais, como em 2024. A imprensa francesa já se prepara para se preocupar alegremente com o que Trump poderá fazer nas midterms, sem nunca mencionar que a violação das eleições já está a acontecer aqui. Em total silêncio.
Colaborar
O genocídio em Gaza foi o primeiro passo da trumpização, mas tudo o que se lhe seguiu veio acelerar este processo, em particular as alegações de “violência” — apenas da LFI, é claro. Da mesma forma que não existe antifascismo sem um fascismo que o precede, não existe violência que surja da sociedade sem uma violência exercida por esta em primeiro lugar — especialmente durante as últimas três décadas, mas particularmente na última com o Macronismo. Graças a deus que existe uma força política importante como a FI para capturar esta violência em resposta, para expressá-la e dar-lhe forma, ou seja, transformando a raiva em conflito regulado. Senão, o que teria acontecido? Que formas teria ela tomado? Quase acabaríamos a sonhar com uma insurreição total, qual Coletes Amarelos redux, mas em esteróides, que viria procurar a burguesia do poder às suas casas, para lhes ensinar em primeira mão a diferença entre a violência real e o conflito político. Mas a burguesia já nem sequer tolera o simples conflito, e a única oposição de esquerda que é capaz de considerar é à direita — Hollande, Glucksmann, Cazeneuve, quem quisermos, mas de direita. Na verdade, ela não consegue compreender nada, sendo apenas movida pelo desejo de preservar sua ordem, que o RN não coloca em causa de nenhuma forma. E esse desejo fanático tomou furiosamente conta de todas as suas cabeças políticas e mediáticas, razão pela qual, como disse Bourdieu, não há necessidade de um maestro para coordenar esta orquestração. Porque o é. Na realidade, é até uma campanha.
Podemos e devemos qualificar como uma campanha um empreendimento tão geral, coerente e violento de eliminação de uma força política, a única de esquerda no panorama eleitoral institucional. Benjamin Duhamel, diante de Manuel Bompard, pode bem esbracejar e bater o pé, dizendo que fomos avisados — das ligações RN e GUD, por exemplo, responsável pelo assassinato de Federico Aramburu. A verdade é que não, eles não falaram sobre isso — não da forma como falam, numa explosão de alegria, sobre o que aconteceu em Lyon, não como falam da LFI. Porque o RN não é falado há muito tempo. Desertores dos media de extrema-direita tornaram-se colunistas do serviço público, até na France 5, e especialmente na France Info, que se tornou a rádio de colaboração por excelência. Interlaçam-se diariamente os dois negacionismos: o do crime contra a humanidade em Gaza e o da ascensão fascista em França, agora profundamente ligados. Esta conexão nunca é expressa de forma mais clara do que no mantra inepto, mas omnipresente, do «arco republicano» e de quem se diz estar dentro ou fora desse «arco». Sem dúvida, continuará a ser o fetiche desta classe imbecil, que nem sequer tem a grandeza particular do cinismo: acredita nisso com toda a convicção. Na realidade, esse «arco» entrará para a história como a proeza canónica dos colaboradores.
Eu estava a acabar de escrever, a respeito de Quentin Deranque, que certamente estaríamos prestes a ver uma homenagem nacional ou uma marcha silenciosa em sua honra. Entretanto, veio a notícia de um minuto de silêncio na Assembleia Nacional. Um militante da extrema-direita mais violenta, homenageado na Assembleia Nacional. Foi preciso um cartoonista político do calibre de Fred Sochard para produzir imediatamente o antídoto. «E as vítimas de crimes racistas?», pergunta uma personagem. «Anos de silêncio não são suficientes?», responde o Presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet…
Mas mesmo assim. Uma classe inteira, minoritária, nociva, radicalizada na defesa fanática dos seus privilégios, disposta a tudo, instala literalmente a extrema-direita, quando não a invoca, negando, claro, ter a menor intenção disso, mas fazendo tudo o que é necessário para que isso aconteça. A extrema-direita não é grave. Afinal, já limpámos bem o caminho, preparámos bem o terreno. Já somos racistas, livres do Estado de Direito e das eleições, defensores de todas as autorizações policiais, pouco preocupados com as milícias. Não prestamos uma bela homenagem a um deles? Não, o que é grave são “os outros”, os seus impostos, a sua paixão pelos árabes, daqui a Gaza, as suas objeções ao capitalismo, o seu doloroso tropismo pelos dominados, a sua falta de simpatia pelos poderosos — para nós, isto é grave. Mas faremos o que for preciso. Aprendemos, mas, na verdade, esquecemos tudo que a História nos ensinou, e isso faz-nos sentir muito mais leves. Então distorceremos, fabricaremos, falsificaremos, inverteremos — para ser sincero, não vemos muitos limites, um pouco como Epstein (perdoem-me o toque de humor). Nem acharemos que estamos a mentir porque, ao intoxicar o público, nós autointoxicamo-nos e, agora, acreditamos em tudo o que dizemos. É com uma alma clara e um espírito muito livre que colaboramos. Então não, não aprendemos nada com a história. É a nossa maneira de entrar nela.
Frédéric Lordon é economista e filósofo francês, diretor de pesquisa do CNRS no Centre européen de sociologie et de science politique de Paris. Texto publicado no blogue do Le Monde Diplomatique (edição francesa), a 18 de fevereiro de 2026. Tradução de Diogo Machado.