ONU alerta para situação cada vez mais “apocalíptica” em Gaza

05 de dezembro 2023 - 15:13

Organizações internacionais no terreno alertam para agravamento da situação e aumento do número de civis mortos, e afirmam não existir quaisquer zonas seguras. Defendendo que “o desrespeito flagrante pela humanidade básica deve parar”, reforçam o apelo ao cessar-fogo.

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Foto UNICEF/Hassan Islyeh (recortada).

“Cada vez que pensamos que as coisas não podem ficar mais apocalípticas em Gaza, elas ficam”, escreve Martin Griffiths, diretor do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), na rede social X.

“As pessoas estão a ser obrigadas a mudarem-se novamente, com pouco para sobreviver, forçadas a fazer uma escolha impossível após outra. Nenhum lugar é seguro em Gaza. Nem hospitais, nem abrigos, nem campos de refugiados. Ninguém está a salvo. Nem as crianças. Nem os profissionais de saúde. Nem os trabalhadores humanitários. Tal desrespeito flagrante pela humanidade básica deve parar”, continua.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou a ideia de que “não há lugar seguro para ir em Gaza” e apelou na segunda-feira às Forças de Defesa de Israel (FDI para pouparem os civis de mais sofrimento: “Os civis – incluindo profissionais de saúde, jornalistas e pessoal da ONU – e as infraestruturas civis devem ser protegidos em todos os momentos”.

Também a Unicef, através do seu porta-voz, James Elder, desmontou a ideia da possibilidade da criação de zonas seguras: “As chamadas zonas seguras… não são científicas, não são racionais, não são possíveis, e penso que as autoridades estão cientes disso”.

Situação “piora a cada hora”

Richard Peeperkorn, representante da Organização Mundial da Saúde para os territórios palestinianos ocupados, afirmou, em declarações aos jornalistas através de videoconferência, que “a situação está a piorar a cada hora”.

“Há bombardeamentos intensificados a acontecer por toda parte, inclusive aqui nas áreas do sul, Khan Younis e até mesmo em Rafah”.

A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA) alerta que “a retoma da operação militar e a sua expansão no sul de Gaza está a repetir os horrores das últimas semanas”.

“O número de civis mortos está a aumentar rapidamente. Os civis, incluindo homens, mulheres, crianças, idosos, doentes e pessoas com deficiência, são os que mais sofrem”, adianta a agência.

A UNRWA explica que “a ordem de evacuação obriga as pessoas a concentrarem-se no que representa menos de um terço da Faixa de Gaza”, e que falta tudo: “comida, água, abrigo e principalmente segurança”.

“O acesso à água é limitado, uma vez que a operação israelita impediu o acesso à maior central de dessalinização de Gaza, que anteriormente fornecia água potável a 350 mil pessoas. O maior hospital no sul de Gaza, com mais de 1.000 pacientes internados e abrigando 17.000 pessoas deslocadas, pode deixar de funcionar”, descreve a agência.

Acresce que a operação humanitária está bastante limitada, com as autoridades israelitas a manterem as restrições ao fluxo de abastecimento humanitário, incluindo combustível, forçando a ONU a utilizar apenas o ponto de passagem mal equipado com o Egipto.

“Apelamos ao Estado de Israel para que reabra Kerem Shalom e outras passagens e facilite a prestação incondicional, ininterrupta e significativa de assistência humanitária que salva vidas. O facto de não o fazer viola o direito humanitário internacional”, enfatiza a UNRWA, ao mesmo tempo que reforça o apelo a um cessar-fogo humanitário.

Intensificam-se ataques no sul. Ofensiva terrestre avança

Durante a noite de segunda e já na manhã desta terça-feira, Israel intensificou os ataques no sul do enclave, ao mesmo tempo que continuava a sua ofensiva terrestre.

Em Salah Al-Arja, em Rafah, os moradores tentaram resgatar os seus entes queridos dos escombros com as próprias mãos.

A agência de notícias palestina Wafa assinalou que, pelo menos, 50 pessoas foram mortas em ataques israelitas ao campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza, e a Khan Younis, no sul de Gaza.

A Sociedade do Crescente Vermelho Palestiniano (PRCS) denunciou ataques de tanques israelitas junto a duas das suas ambulâncias que prestavam assistência a vítimas em Deir Al-Balah, também no sul.

A Organização Mundial de Saúde recebeu uma notificação da FDI para retirar, em 24 horas, os seus mantimentos do armazém médico no sul de Gaza dentro de 24 horas. Na sequência desta ordem, a OMS apelou a Israel para que a retire e “tome todas as medidas possíveis para proteger os civis e a infraestrutura civil, incluindo hospitais e instalações humanitárias”.

O norte da Faixa de Gaza também foi alvo de ataques, incluindo Jabalia al-Balad, onde mais de 15 palestinianos foram mortos. As IDF confirmam que “completaram o cerco” ao campo de refugiados de Jabalia.

O Ministério da Saúde em Gaza informou que 108 pessoas foram mortas no hospital Kamal Adwan, no norte de Gaza, e que dezenas de outras ficaram feridas. Um jornalista que se encontrava dentro do hospital, Mahmoud Al-Sabbah, enviou à CNN um vídeo de cerca de 30 corpos cobertos por lençóis brancos num pátio do hospital.