Uma onda de calor está a atingir dois dos estados mais populosos da Índia, Uttar Pradesh, a norte, e Bihar, a leste. Têm-se sentido temperaturas de 45ºC junto com uma forte humidade. Há notícias de que pelo menos 96 pessoas morreram devido às condições térmicas, mas estes números são contestados pelas autoridades de saúde locais e as causas de morte destas e de dezenas de outras pessoas estão a ser investigadas.
Em Uttar Pradesh, o distrito de Ballia é o ponto central de controvérsia. Entre quinta-feira e domingo, morreram 68 pessoas na zona e há perto de 400 hospitalizadas. O número de mortes é considerado invulgar relativamente às estatísticas habituais e contrasta com outras zonas que estão também a sofrer com a onda de calor. De acordo com a BBC, Diwakar Singh, chefe do hospital distrital de Ballia, atribuiu cerca de 25 mortes à onda de calor e acabou por ser transferido, o que causou uma batalha política à volta do caso e uma investigação oficial.
O vice-primeiro-ministro deste estado, Brajesh Pathak, do partido do primeiro-ministro Modi, justifica a transferência com as declarações “descuidadas” daquele responsável. O líder do principal partido da oposição, o socialista Samajwadi, Akhilesh Yadav, ex-primeiro-ministro, contrapõe atacando a falta de cuidado do Governo, que não teria lançado suficientes alertas à população sobre a onda de calor. Sublinha que “nenhum hospital foi construído nos últimos seis anos” e que “aqueles que perderam a vida são camponeses pobres porque não receberam comida, remédios e tratamento a tempo”.
No estado de Bihar, os meios de comunicação social locais, como o jornal Hindustan Times, noticiam a morte de 40 pessoas devido à onda de calor desde o início do mês. A estação pública britânica falou com Umesh Kumar, responsável pelo centro de controlo de desastres, que refuta, indicando apenas um morte por estas causas.
Ondas de calor cada vez mais intensas
Os especialistas salientam que as ondas de calor no norte da Índia são comuns, particularmente entre maio e junho, mas que se têm tornado mais intensas, frequentes e duradouras.
Em maio do ano passado, quando uma onda de calor atravessou também o país e fez Deli chegar ao recorde de 49,2ºC, a mesma BBC tinha ouvido um conjunto de especialistas locais sobre as causas destes fenómenos. Roxy Mathew Koll, cientista do clima no Instituto Indiano de Meteorologia Tropical, apresentava uma variedade de fatores mas destacava o aquecimento global como “a causa principal de outras flutuações meteorológicas menos extremas”.
A estas causas soma-se a pressão populacional que leva ao aumento do uso dos transportes, pressão sobre recursos naturais, desflorestação e aumento da urbanização. E com “mais estradas de cimento e edifícios, o calor fica preso dentro”, explicava outro especialista, Sivananda Pai, diretor do Instituto de Estudos sobre as Alterações Climáticas.
O seu colega Chandni Singh, investigador e um dos autores principais dos estudos do IPCC, acrescentava na altura que tudo isto afeta mais as pessoas em condição de pobreza “que têm menos recursos para arrefecer e menos opções para permanecer dentro de casa, ao abrigo do calor”.
Os mais recentes estudos comprovam a subida da mortalidade devido ao calor. O ano passado, um estudo publicado no The Lancet, demonstrava que, entre 2000-2004 e 2017-2021, tinha havido uma subida de 55% nas mortes por esta causa.
O Guardian dá conta que a Índia tem atravessado desde o início do ano fenómenos climáticos pouco habituais. Em fevereiro, as temperaturas subiram aos níveis mais altos desde 1901. No mês seguinte o problema foi o excesso de humidade. Em abril o tempo foi “invulgarmente fresco e húmido”. E em maio “excecionalmente fresco e ameno”.
Para além disso, ao mesmo tempo desta onda de calor, no estado de Rajasthan têm ocorrido chuvas torrenciais que causaram cheias em muitos pontos.
Ondas de calor também na Europa
Nesta segunda-feira, a ONU e o programa Copernicus da União Europeia deram conta que mais de 16.000 pessoas morreram na Europa devido às alterações climáticas em 2022.
No ano passado o continente aumentou mais 2,3ºC relativamente ao período pré-industrial e o relatório “Estado do Clima” na Europa 2022 revela que este aquecimento tem sido o dobro da média global desde 1980.
O Banco de Dados de Situações de Emergência indica que 16.365 mortes registadas por riscos meteorológicos, hidrológicos e climáticos em 2022 aconteceram sobretudo por causa das ondas de calor.