Observatório diz que emigraram mais de 850 mil jovens portugueses nas últimas décadas

12 de janeiro 2024 - 15:02

Quase um em cada três jovens nascidos em Portugal, com idades atuais entre 15 e 39 anos, está a viver fora do país, calcula o Observatório da Emigração. Crises económicas, baixos salários e más condições de trabalho explicam o fenómeno que prosseguiu nas últimas décadas.

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Foto de Paulete Matos.

O “Atlas da Emigração Portuguesa”, organizado pelo Observatório da Emigração, é lançado na próxima semana e a edição desta sexta-feira do semanário Expresso avança as suas principais conclusões, nomeadamente a de que 30% dos jovens nascidos em Portugal está atualmente a viver fora do país. O número é estimado a partir de uma amostra de países de destino da emigração que disponibilizam esses dados por grupo etário e extrapolado para o universo de países destino da emigração portuguesa, explicou o sociólogo Rui Pena Pires.

Em média, desde 2001 emigraram mais de 75 mil portugueses por ano, com o maior número (120 mil) a sair em 2013, quando o país estava sob a austeridade da troika e do governo PSD/CDS. Isto significou um milhão e meio de saídas até 2019, 70% das quais de jovens entre os 15 e os 39 anos. O impacto é minorado pelo regresso de cerca de 20 mil emigrantes em média por ano, a maior parte co menos de 40 anos.

"São gerações de jovens que não foram bem tratadas no país e tiveram de procurar os caminhos da emigração, tal como outras gerações antes deles fizeram", diz a ao Expresso a ex-presidente da Associação Portuguesa de Demografia, Maria Filomena Mendes.

O geógrafo Jorge Malheiros alerta para o efeito da quebra de mão-de-obra jovem e da fecundidade, sublinhando a urgência de o país investir “numa valorização clara das condições de trabalho e dos salários, sobretudo em início de carreira, para que uma parte dos jovens portugueses fique no país ou, saindo, tenha condições para voltar”. Mas não tem ilusões de que a emigração portuguesa possa vir a reduzir-se muito mesmo com essas medidas, devido à pequena dimensão da economia e a sua integração num espaço de livre circulação. Na sua opinião, a estratégia deve por isso passar por “estratégias ativas de captação de imigrantes” para mitigar o efeito da emigração e aumentar a taxa de natalidade.

Segundo os dados recolhidos pelo Observatório, terão saído de Portugal entre 60 mil e 65 mil pessoas em 2021 e outro tanto em 2022. Com o Brexit, o Reino Unido, que recebeu cerca de oito mil portugueses em 2022, deixou de ser o principal destino e passou a ocupar a terceira posição, a seguir à Espanha (11 mil) e Suíça (10 mil). Seguem-se a Alemanha (6 mil), os Países Baixos (4,5 mil), o Luxemburgo (3,6 mil) e a Dinamarca (1,8 mil).

No ranking dos dez países com mais emigrantes nascidos em Portugal, a França lidera destacada com 604 mil, seguindo-se a Suíça (214 mil), o Reino Unido (165 mil), os EUA (161 mil, o Canadá (143 mil), o Brasil (137 mil), a Alemanha (114 mil), a Espanha (94 mil), o Luxemburgo (73 mil) e a Venezuela (37 mil).