“Objetivo da retirada da nacionalidade é relacionar imigração com terrorismo”

14 de março 2016 - 14:25

Olivier Besancenot foi entrevistado para o esquerda.net sobre as manifestações contra as alterações climáticas durante a COP21 em Paris e sobre a lei de retirada de nacionalidade aprovada pelo PS francês.

PARTILHAR
Olivier Besancenot.

Olivier Besancenot é carteiro, sindicalista e ex porta voz do NPA (Novo Partido Anticapitalista) em França. Foi entrevistado para o esquerda.net na conferência "Um Plano B para a Europa". A entrevista pode ser lida em baixo ou vista aqui.

Quais as implicações da lei de retirada de nacionalidade, aprovada pelo PS?

Em França, há uma barreira moral que foi quebrada pelo PS que está no poder, quando pegou numa proposta que era da extrema direita francesa que é a retirada da nacionalidade. A retirada da nacionalidade é uma medida reivindicada pela extrema direita francesa nos anos 30, que foi aplicada durante a Segunda Guerra Mundial pelo governo de colaboração Nazi de Pétin e que foi anulada com a libertação.

Esta medida foi reivindicada depois pela extrema direita e depois pela direita. Toda a esquerda, incluíndo o PS, estava contra esta medida até 2010 há 5 ou 6 anos, quando Nicolas Sarkozy quis rever a medida, e agora foi um governo de esquerda que propôs a retirada da nacionalidade. Que é, de todas as formas, particularmente ineficaz na luta contra o terrorismo, porque é totalmente inimaginável que um terrorista renuncie aos seus atos devido à retirada da nacionalidade.

Além disso, quem parte para combater pelo Daesh, um quarto das pessoas, um terço dos combatentes não têm origem imigrante, são convertidos. O que é absolutamente nauseabundo nesta proposta e é por isso que revolta muitas pessoas de esquerda em França, muito além da esquerda radical, é que o único objetivo desta medida é fazer uma correlação entre imigração e terrorismo. E é isso que é realmente insuportável.

O estado de emergência tem essa função política, de nos fazer viver num estado de emergência permanente, num clima ultra securitário, que põe as questões sociais em segundo plano.

Houve boas mobilizações contra a retirada da nacionalidade, a luta vai continuar. Tudo isto está a ser feito sob a constitucionalização geral que é o estado de emergência, uma vez que o governo restabelece o estado de emergência a cada três meses e evidentemente isso tem uma função política, é desmoralizante, tentam com essa medida passar as questões sociais para o segundo plano que continuam presentes porque o governo em França também conduz uma política de austeridade que consiste em rever os direitos fundamentais, o Código do Trabalho, o tempo de trabalho, ou seja, coisas que são realmente importantes em termos de cobertura social que foram rasgadas depois de anos de luta. Estamos nesta fase.

O estado de emergência tem essa função política, de nos fazer viver num estado de emergência permanente, num clima ultra securitário, que põe as questões sociais em segundo plano, à imagem daquilo que se passa um pouco por toda a Europa, políticas que procuram desmontar o Estado Social e que, para o fazer, reforçam o estado penal, reforçam a repressão.

Como foram as mobilizações pela justiça climática durante a COP21 em Paris e que implicações tiveram?

Em França, houve uma grande mobilização sobre a questão do aquecimento climático, durante a COP21, sob o lema "mudar a sociedade, não o clima" uma manifestação que foi, aliás, impedida pela declaração do estado de emergência e pela instumentalização, um pouco sórdida e revoltante pelo governo dos atentados que tinham acabado de acontecer.

As questões democráticas, sociais e ecológicas estão completamente interligadas. E é isso que é subversivo no movimento que luta pela justiça climática.

É uma questão global que coloca tudo, todos os temas da sociedade em cima da mesa. No sentido em que, quando falamos de aquecimento climático, falamos necessariamente no modo de consumo e produção. Logo, no tipo de sociedade em que queremos viver.

Através disso há questões importantes que se colocam pois a única forma de encontrar um equilíbrio entre a questões social ambiental seria permitir à população decidir, por maioria, a produção que estima socialmente útil mas, ao mesmo tempo, ecologicamente possível. Isso só pode ser feito no contexto de uma estimativa coletiva, uma deliberação democrática.

E isso implica mudar e acabar com a lógica da economia de mercado que impõe o contrário. Se seguirmos os critérios de rentabilidade, produzimos em primeiro lugar e colocamos as questões sobre a atribuição dos recursos e das riquezas apenas depois.

E é porque o sistema funciona assim que temos as desigualdades sociais, o desperdício, o aquecimento climático. Isso significa que as questões democráticas, sociais e ecológicas estão completamente interligadas. E é isso que é subversivo no movimento que luta pela justiça climática.