O SNS não aguenta este caminho", diz presidente da FNAM

07 de março 2023 - 22:18

No arranque da greve de 8 e 9 de março, a presidente da FNAM, Joana Bordalo e Sá, falou ao Esquerda.net sobre as negociações em que o Governo só propõe "perda de direitos" e não tem propostas de valorização salarial e das condições de trabalho que contrariem a "sangria brutal" da saída de médicos do SNS.

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Joana Bordalo e Sá, presidente da FNAM. Imagem FNAM/Youtube

As negociações com o Governo arrastam-se sem resultados e a mudança de ministro não significou mais abertura para atender as reivindicações dos médicos. Esta quarta-feira, no primeiro dia da greve convocada pela Federação Nacional dos Médicos (FNAM), há concentração às 15h em frente ao Ministério da Saúde, em Lisboa. Joana Bordalo e Sá, presidente da FNAM, explicou ao Esquerda.net as razões desta greve.

As reuniões entre sindicatos e Ministério arrastam-se há meses sem resultados concretos. Qual é o ponto da situação?

Estamos num ponto pior do que estávamos anteriormente. Na última reunião negocial, entre a FNAM e o Ministério da Saúde, foi-nos apresentada, pela terceira vez, uma proposta que prevê perda de direitos: introduzir novos parâmetros, mais alargados, para as listas de utentes dos médicos de família; e aumentar em mais cinco anos a idade para os médicos fazerem trabalho noturno e serviço de urgência.

Por outro lado, não nos é apresentada nenhuma proposta de valorização salarial nem de melhoria das condições de trabalho. É inadmissível: estamos numa situação insustentável e o SNS não aguenta este caminho – que é uma escolha política do Governo – de desinvestimento nos médicos e profissionais de saúde.

Os médicos do SNS estão sem esperança e sem futuro. O Ministro apenas propõe mais trabalho até à exaustão, a impossibilidade de conciliar a nossa vida profissional com a vida pessoal e familiar e baixos salários.

A pandemia veio agravar o estado de exaustão dos profissionais do SNS. Além dos elogios do Governo, o que receberam em troca?

E mesmo elogios… foram poucos. Até o Primeiro-Ministro nos chamou de cobardes em plena pandemia, quando estivemos totalente entregues ao seu combate, num esforço inaudito.

A situação não estava fácil antes da pandemia e durante a pandemia demos, realmente, o nosso melhor. Esperávamos, apesar de tudo, que depois houvesse abertura para, pelo menos, negociar melhores salários e condições de trabalho, que o SNS fosse devidamente valorizado. Mas não, esbarramos contra uma parede.

No último ano houve mudança de ministro e a criação da direção executiva do SNS. Ainda é cedo para um balanço completo, mas como olham para essas mudanças?

O Dr. Manuel Pizarro sentou-se connosco na mesa negocial, nas duas primeiras reuniões, ao contrário da sua antecessora. Esperávamos que essa mudança de atitude trouxesse alguma vontade política em negociar, mas foi o contrário: mais do mesmo.

Entre as razões da greve está a falta de respostas do Governo quanto às grelhas salariais e o que chamam de "falta de medidas para salvar o SNS". No vosso entender, que medidas seriam essas?

Já saiu a revista Esquerda Saúde nº 3

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A edição de novembro de 2022 já está disponível online. Em destaque, a crise do SNS e a falta de respostas do Governo. Leia aqui a revista em formato pdf.

Parágrafos

O terceiro número da revista Esquerda Saúde inclui artigos sobre o debate orçamental para a Saúde, a troca de ministros no Governo, a situação dos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica, o ensino da Medicina, a gestão do SNS, a crise nas urgências, entre outros.

O editorial da Esquerda Saúde faz o rescaldo do "verão quente" no setor, com a demissão da ministra, a aprovação do novo Estatuto do SNS e a nomeação de uma direção executiva para o Serviço Nacional de Saúde.

Ainda sobre a crise do SNS nos últimos meses, com encerramento de maternidades e urgâncias de obstetrícia, Tânia Russo aponta que a pressão nas urgências obriga a deslocar profissionais e não há vontade política para suprir essas carências de profissionais. Jessica Pacheco fala da situação na Região Autónoma dos Açores, onde num dos hospitais já se gasta mais em horas extraordinárias do que em salários. E Mário André Macedo reflete sobre o que deve ser feito para alterar um sistema que é ineficiente e produz maus resultados.

Noutro artigo desta edição, Luís Mós fala da ausência das reivindicaçoes dos enfermeiros na proposta orçamental do Governo, enquanto se verifica um impasse negocial entre o novo ministro Manuel Pizarro e os sindicatos quanto às progressões nas carreiras, a contagem dos pontos e a não discriminação salarial.  

A revista publica ainda um testemunho de Maria Ribeiro, uma enfermeira que emigrou para a Bélgica no início da carreira e fala do que tem sido a sua experiência e das razões para ainda não ter regressado a um país que não valoriza estes profissionais. A enfermeira Fernanda Lopes fala do estado atual da enfermagem em Portugal, com as promessas do Governo a nunca se concretizarem.

A situação dos técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, que na maioria ainda esperam que o Governo reconheça os seus anos de carreira, é o tema de dois artigos de Eloísa Macedo e Nuno Malafaia.

Pedro Vilão Silva, estudante do quinto ano de Medicina, fala da realidade atual do ensino médico em Portugal, confrontando vários modelos. E Gisela Almeida aborda os desafios da gestão do SNS e do modelo de contratualização.


Descarregar revista Esquerda Saúde nº 3 em pdf


Ler edições nº 2 e nº 1

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É começar por priorizar o SNS. Não podemos continuar a assistir à fuga de médicos e profissionais de saúde para o sector privado e para a emigração como temos assistido. É uma sangria brutal. E isso só se combate valorizando o trabalho dos médicos no SNS. Tem de se começar por aí, mas não basta. É preciso melhorar condições de trabalho, a nível das infraestruturas e dos equipamentos. É preciso reduzir as listas de utentes dos médicos de família, para melhorar os cuidados de proximidade. É preciso reduzir o trabalho em serviço de urgência, das 18 para as 12 horas, para permitir que descansemos e possamos melhor cuidados dos nossos doentes. É preciso reverter as medidas da troika, repondo dias de férias, por exemplo. Precisamos de ter a perspetiva que há vida para além do trabalho, estando em casa sabendo que o SNS garante os cuidados de saúde para todas as pessoas. Não podemos continuar a trabalhar nesta aflição. Se estas medidas fossem atendidas, mais médicos ficariam no SNS.