Israel

O rufar dos tambores no Sul do Líbano é um prelúdio de uma guerra total?

29 de junho 2024 - 13:58

A luta política no seio da elite política sionista não é entre falcões e pombas. Tanto Netanyahu quanto a oposição acreditam que ou o Hezbollah se retira para norte ou haverá uma guerra devastadora que todos consideram necessária para restaurar a capacidade de dissuasão do seu Estado.

porGilbert Achcar

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Fumo em Odaisseh no Líbano depois de um ataque israelita.
Fumo em Odaisseh no Líbano depois de um ataque israelita. Foto de ATEF SAFADI/EPA/Lusa.

As últimas semanas ficaram marcadas por uma forte escalada na troca de tiros entre a resistência libanesa e as forças israelitas no Sul do Líbano e no Norte do Estado sionista. Esta escalada foi acompanhada por uma escalada de declarações e ameaças entre as duas partes, com uma ameaça israelita crescente de lançar uma guerra total em todas as áreas onde o Hezbollah está implantado, a fim de infligir um destino semelhante ao da Faixa de Gaza em termos de intensidade da destruição. No entanto, embora fontes do exército israelita afirmem que este está totalmente preparado para travar esta guerra, estas afirmações são contrariadas pelos esforços em curso para aumentar o número de reservistas mobilizados de 300.000 para 350.000, através do aumento da idade de saída dos reservistas (de 40 para 41 anos para os soldados, de 45 para 46 anos para os oficiais e de 49 para 50 anos para os especialistas, como médicos e tripulações de voo).

Além disso, estes esforços continuam a colidir com a insistência da liderança militar sionista na necessidade de acabar com a isenção de recrutamento para os estudantes ultra-ortodoxos da yeshiva, o que aumentaria o número de soldados sem aumentar a carga sobre as famílias e os empregos dos atuais recrutas e, consequentemente, sobre a economia do país. Assim, embora os esforços para aumentar a mobilização indiquem certamente a determinação da liderança militar em concluir os preparativos para uma guerra total contra o Líbano, também indicam que a escalada de ameaças do lado israelita não reflete uma verdadeira intenção de lançar uma guerra em grande escala contra o Líbano nas atuais circunstâncias, especialmente porque todos sabem que o custo de uma tal guerra para o Estado sionista seria muito mais elevado do que o custo da invasão de Gaza, quer em termos de custos humanos (mesmo que o exército sionista se abstenha de invadir o território libanês e se limite a bombardeamentos intensivos, como é provável, o número de vítimas dos bombardeamentos dentro do Estado de Israel será inevitavelmente superior ao da guerra contra Gaza), quer em termos de custos militares (o tipo de equipamento que o exército sionista terá de utilizar contra o Hezbollah), quer em termos de custos económicos.

Esta realidade cria um grave problema para Israel, uma vez que não pode travar uma guerra total contra o Líbano sem um forte aumento da ajuda dos EUA, para além da ajuda já substancial fornecida por Washington na guerra genocida contra Gaza. Além disso, uma vez que o Hezbollah está organicamente ligado a Teerão, uma guerra total das forças sionistas contra o Líbano poderia estender-se ao Irão, que poderia disparar foguetes e drones contra o Estado de Israel, como aconteceu em abril passado. À luz desta dependência do ataque israelita em relação à ajuda americana, a súbita escalada da retórica de Netanyahu contra a administração Biden nos últimos dias é mais uma prova de que o governo sionista não está preparado para lançar uma guerra total contra o Líbano nas atuais circunstâncias, com o comportamento de Netanyahu em relação a Washington em desacordo com a necessidade do seu exército de um apoio americano ainda maior do que o que tem recebido até agora.

Tornou-se assim claro que Netanyahu aposta na vitória de Donald Trump para um segundo mandato nas eleições americanas previstas para o início de novembro. Está a agir como um jogador que decidiu apostar tudo procurando duplicar o que tem ou ficar sem nada. Além disso, Netanyahu está a beneficiar politicamente da escalada de tensões entre ele e a administração Biden, que está a aumentar a sua popularidade, fazendo-o aparecer como um líder sionista que resiste à pressão externa, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Está a preparar-se para mais uma ronda deste jogo político, demonstrando o forte apoio político de que goza no Congresso dos EUA contra a administração Biden, quando se deslocar a Washington para proferir o seu quarto discurso numa sessão conjunta da Câmara dos Representantes e do Senado, em 24 de julho.

Se Trump ganhar as eleições, Netanyahu esperará um apoio livre do tipo de contenção e pressão que a administração Biden tentou recentemente impor-lhe. Se Trump perder, Netanyahu irá provavelmente negociar com a administração Biden e a oposição sionista garantias de que acabará com a sua dependência da extrema-direita sionista no seu governo e formará um gabinete de "unidade nacional" que liderará até às próximas eleições em 2026. A oposição, por seu lado, tentará certamente livrar-se dele, dividindo a coligação em que se baseia o seu atual governo no Knesset e forçando a realização de eleições antecipadas.

Não se pense, no entanto, que a luta política no seio da elite política sionista é entre falcões e pombas: pelo contrário, é entre falcões e abutres. Ambos os lados, Netanyahu e a oposição, acreditam que não existe uma terceira opção na sua frente norte: ou o Hezbollah aceita retirar-se para norte, em aplicação da Resolução 1701 adotada pelo Conselho de Segurança da ONU após a guerra de 33 dias em 2006, ou travarão uma guerra devastadora contra o Hezbollah a um custo elevado, que todos consideram necessária para restaurar a capacidade de dissuasão do seu Estado, consideravelmente diminuída na frente libanesa desde 7 de outubro.


Texto publicado originalmente no Al-Quds al-Arabi. Traduzido para francês e publicado no blogue do autor. Traduzido a partir desta versão para o Esquerda.net.

Gilbert Achcar
Sobre o/a autor(a)

Gilbert Achcar

Professor de Estudos de Desenvolvimento e Relações Internacionais na SOAS, Universidade de Londres. Entre os seus vários livros contam-se: The Clash of Barbarisms: The Making of the New World Disorder; Perilous Power: The Middle East and U.S. Foreign Policy, com Noam Chomsky; The Arabs and the Holocaust: A Guerra de Narrativas Árabe-Israelita; The People Want: A Radical Exploration of the Arab Uprising; e The New Cold War: The United States, Russia and China, from Kosovo to Ukraine. Leia mais em gilbert-achcar.net
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