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O que dizem os nossos dentes sobre a guerra social

Ludivine Bantigny reflete sobre um livro de Olivier Cyran que mostra como os dentes estragados ilustram dolorosamente a realidade do capitalismo e a história das desigualdades sociais.
Radiografia dentária. Foto de Dick Thomas Johnson/Flickr.
Radiografia dentária. Foto de Dick Thomas Johnson/Flickr.

O livro “Sobre os dentes. O que eles dizem sobre nós e sobre a guerra social”, de Olivier Cyran é verdadeiramente original, tanto engraçado como arrepiante, impressionante. Olivier Cyran decide considerar os dentes como um símbolo de desigualdade, uma questão política, por vezes portadores de uma dor terrível que é também sofrimento social. O livro abre com uma cena traumática no dentista: “Eu tinha sete anos de idade quando experimentei a pior dor da minha vida”, diz ele. “Uma dor deste calibre é única na medida em que é ao mesmo tempo indescritível e indelével: uma vida inteira mais tarde, o seu eco ainda se faz sentir sob os sedimentos da memória”. Daqui deriva o entendimento de que “os dentes são objeto de um perpétuo e caótico equilíbrio de poder”, orquestrado em consultórios privados ou, de agora em diante, pelos anúncios publicitários de cuidados dentários de baixo custo, o poder das “classes dominantes e do seu sistema de predação”.

O acesso aos cuidados de medicina dentária é marcado por profundas desigualdades. “Mesmo o muito liberal Tribunal de Contas denunciou no final de 2016 uma “erosão contínua da cobertura pelo seguro de saúde obrigatório”. Cada vez mais pessoas têm de renunciar aos cuidados. Desde o início do livro que Olivier Cyran mostra logo o tom – furioso, subversivo e determinado: estamos na era de uma “sequência histórica completamente insana que nos coloca sob a tripla ameaça de uma epidemia mortal, de um capitalismo ávido de explorar o negócio da pandemia e de um regime político robótico programado para transformar o mundo numa incubadora de start-ups, mas que agora parece governar apenas pelo ódio aos pobres, pela demagogia racista e pela força brutal e todo-poderosa do seu aparelho policial.” Assim, os dentes aparecem como metáfora, que não podia ser mais concreta e material, desta guerra social.

A fim de compreender na sua riqueza total todas as questões em jogo, o livro recua no tempo, até há 14.000 anos, com a descoberta de um ato cirúrgico obviamente admirável. Um dentista dos tempos modernos só pode tirar o chapéu a este colega, que era talvez uma colega, que realizou a operação (dente trefilado, limpo e obturado). Mas vai também muito mais atrás, até há… 130.000 anos: sabe-se que o homem de Neanderthal esfregava os dentes para os limpar e para tentar a todo o custo aliviar certas dores; foram inclusivamente encontrados vestígios de uma operação numa mandíbula recolhida durante uma escavação arqueológica na Croácia, um ato de odontologia pré-histórica realizado com um pedaço de osso e um pedaço de madeira. De facto, o livro tem algumas belas páginas de história. Fala do estado apocalíptico dos dentes de Luís XIV e de como por vezes tudo se transforma num pesadelo: um dia, os cirurgiões removeram inadvertidamente um pedaço do seu maxilar - ao ponto de a comida lhe subir pelo nariz (mmmm...).

O livro mostra que os dentes estragados, no século XVIII, eram principalmente os das classes possuidoras, quando se atiravam com loucura sobre o açúcar proveniente das Caraíbas e, portanto, da escravatura: o estado dos dentes nunca foi tão desastroso em toda a história da humanidade. Páginas terríveis da história, precisamente, quando se trata de recordar a escravatura. Os dentes dos escravos foram arrancados para os castigar ou para os reconhecer após uma tentativa de fuga – mas também para fazer dentaduras para os ricos, como essa dentadura feita de dentes de escravos para George Washington (Washington tinha toda uma coleção de dentaduras feitas de dentes humanos e animais – burro, cavalo, cabra, marfim de hipopótamo...). Cyran descreve a “raiva mutiladora dos senhores brancos” e, com estas dentaduras feitas de dentes de escravos, a “vertiginosa concentração de uma história de barbárie e pilhagem, onde a classe dominante branca desarma literalmente a boca dos negros para armar a sua própria”.

Nos Estados Unidos, atualmente, estima-se que 36 milhões de pessoas estejam totalmente desdentadas e que uma em cada dez não pode pagar dentaduras. Quando alguém morre de uma dor de dentes não tratada é quase sempre negro, dado o acesso desigual aos cuidados de saúde dentária. Em 2007 uma criança negra de 12 anos, Deamonte Driver, morreu devido a uma infeção de um abcesso dentário. A sua mãe, que não tinha seguro de saúde, não tinha os 80 dólares exigidos pelo dentista para extrair o molar doente. Outro exemplo é o de Kyle Willis, um jovem afro-americano desempregado de Cincinnati, que morreu aos 24 anos de idade devido a um abcesso dentário porque não tinha os 100 dólares necessários para uma consulta dentária. “Os dentes traem a crueldade do mundo”, escreve Olivier Cyran.

Mas o grosso do livro é sobre França, sob a “nomenclatura bizantina de atos reembolsados e não reembolsados”, onde a Confederação nacional dos sindicatos dentários1 conseguiu recomendar a colocação dos doentes beneficiários de CMU2 em lista de espera: ou seja, num beco sem saída para evitar tratá-los. Um estudo da Associação Médicos do Mundo3 realizado entre 230 dentistas em 2015 revelou que mais de um terço se recusava a aceitar “doentes com CMU”.

Estamos muito longe do Juramento de Hipócrates: “Darei os meus cuidados ao indigente e a qualquer um que me peça”. Trata-se de facto uma “guerra social”. 45% dos trabalhadores não qualificados declaram ter pelo menos um dente em falta que não tenha sido substituído, em comparação com 29% dos quadros (ou executivos). Olivier Cyran fala de uma “discriminação desleixada” e dessa “arte de ignorar os pobres”, segundo a expressão de John Kenneth Galbraith. Descreve a profissão de dentista (sem esquecer as exceções) devorada pela “voracidade longa, demorada, inerente à organização capitalista do trabalho”.

Os estudos de caso são assustadores. Para Cyran estes não são “casos” mas sim homens e mulheres, alguns dos quais teve oportunidade de conhecer pessoalmente. As suas histórias são terríveis: vítimas de dentistas corruptos, especialmente das clínicas de baixo custo, capitalistas sem escrúpulos. Por exemplo, a clínica Dentexia, uma cadeia de clínicas de baixo custo liquidada em março de 2016 “após ter enganado, maltratado ou martirizado em graus variáveis cerca de 3.000 pacientes”. “Nunca os dentes dos pobres tinham sido alvo de um negócio de demolição tão diabolicamente bem-sucedido”. “Os seus dentistas, na sua maioria inexperientes e tragicamente incompetentes, trabalhavam numa linha de montagem, como autómatos sobreaquecidos”.

Centenas de pacientes saíram não apenas mutilados, infetados ou desdentados, mas também arruinados. Com as suas bocas deixadas em farrapos. Este livro merece realmente ser lido, com os testemunhos de pessoas mutiladas por estas “trituradoras”, símbolo de um capitalismo dentário em plena expansão. Ele mostra espirais de dor e vergonha, mas também a força da organização coletiva para se defender destas slot machines, verdadeiras máquinas de fazer dinheiro, com a criação de uma associação de utilizadores de cuidados dentários.

Olivier Cyran conseguiu encontrar um dentista de esquerda... Ler o seu testemunho é fascinante e edificante. Ele relata as práticas deste meio sócio-profissional, a sua avareza, o habitus4 aristocrático de uma maioria dos profissionais, o seu desprezo de classe, o apego frequente ao seu estatuto de diretor de empresa e não de cuidador, a exibida prioridade dada ao lucro. O homem a quem Cyran atribui o pseudónimo Paul Lafargue declarou: “Algumas pessoas disseram-me: Não te preocupes, à medida que fores envelhecendo vais acabar por ficar à direita. Ainda estou à espera. As pessoas de esquerda que vão para a direita estão lá porque nunca estiveram realmente à esquerda. Uma vez que se abre os olhos à injustiça social, não se pode fechá-los novamente”.

Contra o universo dos reembolsos e não-reembolsos arbitrários, avança uma ideia básica: “Poderíamos criar centros de saúde de serviço público”, com “uma gestão que dê prioridade ao interesse público antes da rentabilidade”. Isto seria baseado num modelo que já conhecemos e que tem um nome: o sistema hospitalar”.


Ludivine Bantigny é um historiadora da Universidade de Rouen-Normandie.

Sobre: Olivier Cyran, Sur les dents. Ce qu'elles disent de nous et de la guerre sociale, Paris, La Découverte, 2021.

Texto originalmente publicado em 23 de abril de 2021 na revista Contretemps. Traduzido por Paulo Antunes Ferreira para o Esquerda.net.

Notas:

1 A Confederação Nacional dos Sindicatos Dentários (no original: Confédération nationale des syndicats dentaires - CNSD) é uma confederação sindical que representa os cirurgiões dentistas em França, desde 1935. Em 2018 foi alvo de uma reestruturação profunda e mudou o seu nome para “Cirurgiões-Dentistas de França” (no original: Les Chirurgiens-Dentistes de France). https://fr.wikipedia.org/wiki/Conf%C3%A9d%C3%A9ration_nationale_des_synd...

2 CMU, no original Couverture Maladie Universelle, é um mecanismo de proteção social, criado em 1999, que poderia ser traduzido como cobertura universal de doença. Garantia a todos um reembolso de parte dos cuidados de saúde por um regime de seguro de doença, e às pessoas cujos rendimentos são mais baixos o direito a uma proteção complementar e à dispensa antecipada de despesas, desde que não beneficiassem já de outro regime de segurança social. Desde 2016 foi substituída pela PUMA (no original: Protection Universelle Maladie), Proteção Universal contra a Doença. https://fr.wikipedia.org/wiki/Protection_universelle_maladie

3 A Associação Médicos do Mundo é uma Organização Não-Governamental de ajuda humanitária e de cooperação para o desenvolvimento, sem filiação partidária ou religiosa, e que foi criada em França em 1980. https://www.medicosdomundo.pt/

4 O conceito de habitus foi desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu com o objetivo de pôr fim à antinomia indivíduo/sociedade dentro da sociologia. Nas palavras de Bourdieu, habitus refere-se a “um sistema subjetivo, mas não individual, de estruturas internalizadas, esquemas de percepção, concepção e ação comuns a todos os membros do mesmo grupo ou classe”. Essas “estruturas internalizadas” e “esquemas de percepção” estruturam a visão do mundo (compartilhada) do indivíduo e a sua “apreensão” do mundo no qual eles supõem que existem. in Pierre Bourdieu, Esboço de uma teoria da prática: precedido de três estudos de etnologia cabila, Celta Editora, 2002.

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