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O que diferencia as candidaturas de Marisa Matias e Ana Gomes?

A campanha eleitoral mostrou, como já se sabia, que as duas candidatas têm importantes pontos comuns: a defesa das causas democráticas, a oposição aos candidatos de direita. Têm também importantes diferenças. Vejamos o que separa Marisa Matias e Ana Gomes.
Debate de Marisa Matias e Ana Gomes na SIC Notícias
Debate de Marisa Matias e Ana Gomes na SIC Notícias

No debate televisivo1 do passado dia 4, Marisa Matias lembrou que, entre 2009 e 2019, estiveram as duas no Parlamento Europeu e “fomos amigas, somos amigas, e somos adversárias políticas. Estivemos em grupos parlamentares diferentes2, tivemos tomadas de posição muito diferentes em relação a muitas matérias”, acrescentou, reafirmando o que escreveu no esquerda.net3, em 2019 quando foi conhecida a saída de Ana Gomes do Parlamento Europeu.

O melhor para o dia seguinte

“Quero disputar o melhor resultado possível para, no dia seguinte, lutar pelas bandeiras da saúde, do trabalho, da regulação da banca, ainda com mais força”, afirmou Marisa Matias no debate com Ana Gomes. Esta afirmação é todo um programa e uma diferença de fundo pela positiva entre as duas candidatas.

Sendo previsível que Marcelo vença as eleições do próximo domingo, uma questão chave é qual é o melhor resultado para a defesa das causas do trabalho, do ambiente e para  o combate à desigualdade.

Marisa Matias frisou que a sua candidatura “é a que melhor representa aquilo que têm sido lutas essenciais desta geração e para o futuro, como as lutas dos jovens em relação ao ambiente, em relação à proteção dos direitos dos animais, em relação ao clima e alterações climáticas, as lutas feministas, pela igualdade, anti-racistas”.

A prática mostra que Marisa Matias não é só uma candidata para a luta institucional, mas também para o reforço da participação e da mobilização social. A sua batalha na defesa dos cuidadores e cuidadoras informais é um exemplo do que se pode esperar da sua ação.

Política europeia de governação económica que permite sanções a países

Marisa Matias tem salientado as diferenças em relação à política da governação económica da União Europeia. E acrescentou que Ana Gomes apoiou o acordo que permitiu o processo de sanções contra Portugal por “défice excessivo”. Marisa Matias não escondeu que Ana Gomes criticou o processo de sanções, mas sublinhou que ele só aconteceu por estar previsto nos mecanismos de governação económica aprovados pelo grupo socialista no Parlamento Europeu.

Diferenças na resposta à crise

As candidatas divergem sobre a avaliação da resposta do governo aos efeitos da pandemia na economia e na sociedade, bem como na capacitação do SNS. Para Ana Gomes, o Orçamento de Estado aprovado pelo Parlamento dá meios suficientes para os desafios enormes que o país tem pela frente. Marisa contrapôs, no debate eleitoral, que, apesar de ainda não terem passado dois meses sobre a sua aprovação, os motivos de crítica reforçam-se significativamente. Em relação ao Serviço Nacional de Saúde, vê-se diariamente a necessidade do seu reforço e constata-se a inexistência de estímulos que permitam fixar e atrair profissionais ao SNS. Desde janeiro, o SNS perdeu quase mil médicos, entre entradas e saídas.

Sobre o mundo do trabalho, ambas as candidatas criticam o bloqueio da reversão das alterações à legislação laboral feitas sob a troika - desde logo, no corte das indemnizações por despedimento. Porém, Ana Gomes critica o Bloco por não se ter conformado com a tenaz recusa de António Costa sobre este ponto essencial das negociações do Orçamento. Esta alteração é ainda mais necessária no momento que o país vive, quando o desemprego vai continuar a crescer significativamente. Em cada uma destas questões, Ana Gomes critica a prática governamental. No entanto, como compreender que critique a firmeza do Bloco na negociação do orçamento? Essa subordinação face ao PS desvaloriza as críticas de Ana Gomes.

Pelo seu lado, Marisa Matias aponta que “não precisamos de um Presidente que mantenha os bloqueios que já vêm do Governo em relação à resposta à crise”.

No debate entre as duas candidatas, Marisa Matias lembrou que, nas eleições presidenciais de 2016, Ana Gomes não a apoiou e no debate interno do seu partido começou por sugerir a candidatura de Maria de Belém, tendo no final apoiado Sampaio da Nóvoa. Ana Gomes negou o facto, entretanto confirmado pela imprensa.

Recorde-se que Maria de Belém é uma destacada defensora do setor privado da saúde, ao qual está ligada profissionalmente e que se opôs à Lei de Bases da Saúde, proposta por António Arnaut e João Semedo.


Notas:

1 O debate entre Ana Gomes e Marisa Matias, que teve lugar na SIC-Notícias a 4 de janeiro de 2021, está disponível em https://sicnoticias.pt/especiais/eleicoes-presidenciais/2021-01-04-Marisa-Matias-vs.-Ana-Gomes-extrema-direita-e-o-inimigo-comum-mas-ha-temas-que-as-separam

2 Ana Gomes pertenceu sempre ao grupo socialista no parlamento Europeu (Aliança progressista dos socialistas e democratas) e Marisa Matias faz parte do grupo Esquerda unitária europeia/ Esquerda nórdica verda(GUE/NGL).

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