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"As políticas de bem-estar animal estão intimamente relacionadas com a sociedade que queremos"

Em entrevista, Marisa Matias diz que a luta pelo bem-estar animal "está enraizada nos princípios de empatia e solidariedade em que me revejo". E defende que "a voz da maioria dos portugueses tem de ser ouvida" para pôr fim a "uma tradição tão violenta como a das touradas".

O respeito pelos animais é uma das tuas causas, lado a lado com tantas outras como o combate às alterações climáticas, à xenofobia e racismo, ou aos direitos LGBT. Para ti, qual é a importância deste tema?

O respeito pelos animais é uma luta que se tornou referência de mobilização social. O movimento que a exprime tem mostrado vitalidade, persistência e também capacidade de estabelecer pontes de solidariedade com outras lutas. Essa luta junta vozes que rejeitam as relações de dominação, violência e desprezo ainda tão presentes na nossa sociedade. É uma luta que está enraizada nos princípios de empatia e solidariedade em que me revejo.

O que deve uma Presidente da República fazer pela proteção e bem-estar animal?

Só quando acontecem episódios trágicos e mediáticos como os de Santo Tirso ou da Torre Bela é que se vislumbra abertura para uma mudança legislativa em Portugal. Sabemos também que, passado algum tempo, fica afinal tudo na mesma ou quase.

Como presidente quero trazer estas causas para cima da mesa.

Precisamos de avançar em políticas públicas que garantam que os animais são cada vez mais entendidos como seres sencientes e não como objetos. A violência contra os animais é intolerável e deve ser condenada. As políticas de bem-estar animal estão intimamente relacionadas com a sociedade que queremos, com a forma como nos relacionamos entre nós e como protegemos os ecossistemas e a biodiversidade, como combatemos a crise climática ou como garantimos por exemplo a saúde pública.

Na pecuária, por exemplo, é necessário privilegiar um modelo de produção extensiva que garanta uma visão integrada da paisagem, do território e uma produção assente na sustentabilidade e no bem-estar animal.

E qual é a tua posição sobre as touradas?

Não se compreende que no século XXI, depois de tantos debates, protestos, de tanta evidência científica sobre o sofrimento animal, o nosso país ainda mantenha uma tradição tão violenta como a das touradas. Por isso, a voz da maioria dos portugueses tem de ser ouvida e tem de ter consequências.

No Parlamento Europeu integras a comissão de inquérito sobre transporte de animais vivos. Como está a decorrer esse trabalho, e é possível antecipares já alguma conclusão?

A comissão de inquérito já começou as audições com diversas entidades responsáveis e especialistas na área. É já possível identificar alguns dos maiores problemas, como o transporte de longo curso e o transporte por via marítima. Espera-se que o resultado desta comissão possa ser um contributo importante para uma revisão do regulamento, mas é demasiado cedo para antecipar qualquer conclusão.

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