O mundo dos anfíbios está a pedir socorro. É preciso agir antes que seja tarde demais

31 de dezembro 2023 - 16:13

Dois em cada cinco anfíbios estão ameaçados de extinção. Desmatamento, alterações climáticas e fungos são as principais causas. Os especialistas criaram um plano de ação global para a conservação de anfíbios. Por Iberê F. Machado.

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Perereca. Foto de Caio Moraes Zanon/Flickr.

Os anfíbios desempenham um papel crucial na medicina, no controlo de pragas e na manutenção do equilíbrio ambiental. Mas o mundo dos anfíbios está à beira de uma crise sem precedentes que tem como principal vilã a mudança climática. É o que diz um estudo publicado em outubro na prestigiada revista Nature, intitulado “Ongoing declines for the world’s amphibians in the face of emerging threats” que discute as principais ameaças aos anfíbios nas últimas décadas.

Os dados são baseados na segunda Avaliação Global dos Anfíbios (GAA2) que classificou o risco de extinção de mais de oito mil espécies em todo o mundo. Mais de mil especialistas contribuíram com os seus dados e conhecimentos trazendo resultados alarmantes: dois em cada cinco anfíbios estão ameaçados de extinção.

“À medida que os humanos provocam mudanças no clima e nos habitats, os anfíbios tornam-se reféns do clima por serem incapazes de se deslocar muito longe para escapar do aumento da frequência e da intensidade do calor extremo, dos incêndios florestais, da seca e dos furacões acarretados pelas alterações climáticas”, explica Jennifer Luedtke Swandby, especialista da Lista Vermelha Global de Anfíbios, um dos ramos do Grupo de Especialistas em Anfíbios (ASG) da Comissão de Sobrevivência das Espécies da União Internacional para a Conservação das Espécies da Natureza (SSC-IUCN), e gerido pela Re:wild.

Desmatamento, alterações climáticas e fungos: ameaças globais aos anfíbios

Desde a década de 80, o desmatamento de florestas tropicais tem sido o principal causador de declínios da fauna mundial. Os anfíbios, sapos, rãs e pererecas, cecílias e salamandras, são conhecidos por ter uma vida dupla, passando parte em ambiente aquático e parte em terra. Uma percentagem destas espécies são ainda mais sensíveis e precisam de ambientes com qualidades específicas, como por exemplo as florestas preservadas da Amazónia ou as nuvens orográficas dos topos das montanhas de Madagascar.

Além do desmatamento – uma ameaça já conhecida –, as descobertas mais chocantes deste novo estudo apontam para as alterações climáticas. Entre 2004 e 2022, mais de 300 anfíbios se aproximaram da extinção e, assustadoramente, 39% dessas ameaças são devido às alterações climáticas.

O estudo também descobriu que três em cada cinco espécies de salamandras estão ameaçadas de extinção, principalmente como resultado da destruição do habitat e das alterações climáticas, tornando as salamandras o grupo de anfíbios mais ameaçado do mundo. Além disso, para agravar a situação, há a disseminação global do fungo Batrachochytrium salamandrivorans (Bsal) oriundo das regiões da Ásia e Europa. Esse fungo representa uma ameaça particularmente séria para as salamandras. A América do Norte abriga uma grande diversidade de espécies de salamandras, incluindo um grupo especializado nas Montanhas Apalaches, onde a introdução do fungo poderia ter repercussões catastróficas.

“É fundamental que continuemos a implementar ações proativas de conservação para evitar a propagação do Bsal nos Estados Unidos, incluindo práticas eficazes de biossegurança para anfíbios selvagens e em cativeiro, e medidas rápidas de detecção e resposta”, afirma Dede Olson, ecologista investigador do Serviço Florestal do USDA, membro do Grupo de Especialistas em Anfíbios da IUCN-SSC e coautor do artigo. A Força-Tarefa Bsal da América do Norte inclui um plano estratégico multifacetado que inclui: uma rede continental de vigilância e monitoramento; estudos de investigação que identificam geografias e espécies de alto risco; e parcerias colaborativas entre os setores público, privado e governamental.

A participação do Brasil no estudo

Já o Brasil possui a maior diversidade de anfíbios do mundo, com cerca de 1.200 espécies, e, até 2022, quase um terço dessas espécies ainda não tinha sido avaliada globalmente. Como presidente do Instituto Boitatá, da Lista Vermelha do Brasil e membro do Amphibian Specialist Group, também fui coautor do artigo, como coordenador de avaliação de anfíbios no país. A avaliação durou cerca de dois anos e contou com a participação de 86 especialistas de universidades, instituições de pesquisa e ONGs.

O conhecimento e experiência dos investigadores e investigadoras foi fundamental neste processo. A compreensão sobre o contexto regional em que uma espécie está inserida pode indicar se uma alteração de habitat, por exemplo, pode ser uma ameaça àquela espécie. Entre 2004 e 2022, a quantidade de anfíbios ameaçados passou de 37 espécies para 189 espécies em risco crítico, perigo ou vulnerabilidade. Para muitas espécies, já é tarde demais: 26 delas foram possivelmente extintas desde a década de 1980.

Este estudo oferece uma visão importante sobre o desenrolar da crise dos anfíbios e estabelece uma base sólida para a conservação. Com quase 41% das espécies de anfíbios em perigo, é fundamental implementar o plano de ação global para a conservação de anfíbios (ACAP), buscar recursos e influenciar políticas que possam reverter essa tendência. Para isso, a ASG-Brasil já está a estabelecer Planos Estratégicos de Conservação de Anfíbios (PECAn), como os para a Nyctimantis pomba e Pithecopus rusticus, mas isso é conversa para outro artigo.

Proteger estas espécies é investir no futuro do nosso planeta.


Iberê F. Machado é especialista da Autoridade da Lista Vermelha do Brasil e presidente do Instituto Boitatá.

Texto publicado originalmente no The Conversation. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.