O mito do “ódio branco” da classe trabalhadora

12 de agosto 2023 - 12:44

Ruy Braga refuta algumas das teorias sociais em voga contrapondo que os assalariados não são culpados pelo avanço da ultra-direita nos EUA: não culpam o “outro” pela crise, nem levaram Trump à vitória. Os trabalhadores brancos pobres e trabalhadores racializados convergem nos mesmos anseios.

PARTILHAR
Cena do filme Nomadland.
Cena do filme Nomadland.

A ascensão de líderes nacionalistas autoritários como Donald Trump, Viktor Orbán, Marine Le Pen, Matteo Salvini e Andrzej Duda, para não mencionar Jair Bolsonaro, em diferentes contextos políticos nacionais, parece ter revitalizado a empoeirada tese do autoritarismo operário popularizada por Seymour Martin Lipset no início dos anos 1960. Tanto na academia quanto na imprensa, nunca o mito do “ódio branco” da classe trabalhadora foi tão popular como suposto eixo estruturador da ofensiva da extrema-direita à escala global.

Tal ódio adviria da combinação entre o ressentimento relacionado com os avanços dos direitos de grupos sociais oprimidos, como negros, mulheres, latinos, LGBTQIA+, etc., e o desaparecimento dos bons empregos da era fordista que ajudavam a proteger os privilégios da branquitude e do patriarcado. Arlie Russell Hochschild sintetizou a lógica por trás desse ódio numa metáfora conhecida: nos Estados Unidos, os trabalhadores brancos sentir-se-iam como pessoas diligentes pacientemente à espera na fila para entrar no sonho americano. No entanto, a partir de certo momento, mulheres, negros, latinos e indivíduos LGBTQIA+ começaram a furar a fila, gerando um ressentimento que foi logo explorado por políticos populistas.

Algumas análises procuraram problematizar este viés interpretativo observando, como Paolo Gerbaudo, que aos sucessos da extrema-direita trumpista em atrair os trabalhadores brancos, a esquerda social-democrata estaria a conseguir responder através de uma aproximação igualmente bem-sucedida do precariado feminino e racializado do setor de serviços. À esquerda socialista caberia elaborar um projeto hegemónico capaz de aproximar a classe operária fabril e rural do precariado dos serviços a fim de assegurar uma “nova coligação social” capaz de recolocar a democracia liberal nos trilhos.

Apesar das diferenças, Hochschild e Gerbaudo concordam num ponto: pelo menos eleitoralmente, a classe trabalhadora “branca” teria sido seduzida pelo “populismo direitista” que culpa os “outros”, isto é, os imigrantes, os trabalhadores racializados e os grupos sociais oprimidos, pelos efeitos deletérios da crise da globalização neoliberal iniciada em 2008. A solução preconizada pelos líderes autoritários seria o retorno ao passado fordista quando os empregos eram bons e a ameaça da globalização económica não existia. Em suma, uma saída reacionária supostamente capaz de proteger a fração nacional, branca, adulta e masculina, da instabilidade ocupacional decorrente da mercantilização do trabalho.

Usualmente, estas análises apreendem os grupos formados por trabalhadores brancos como unidades ocupacionalmente industriais e politicamente nostálgicas do passado fordista. Isto serve também para caracterizar boa parte da literatura que se tem empenhado em interpretar o Brexit e a aproximação de antigas regiões operárias localizadas na Alemanha, na França e na Itália à extrema-direita nacionalista.

No entanto, quando observamos mais de perto esses trabalhadores, percebemos que a narrativa do ódio branco é pouco convincente. Em primeiro lugar, é preciso observar que parte significativa destes trabalhadores já são parte do precariado do setor de serviços. As trabalhadoras femininas, por exemplo, concentram-se em atividades de cuidados, limpeza, alimentação e hospedagem, enquanto os trabalhadores masculinos dedicam-se a reparações em prédios, à renovação de telhados e ao transporte de cargas.

Mesmo após o ciclo de desindustrialização que castigou inúmeras comunidades de trabalhadores brancos nos Estados Unidos, ainda é possível encontrar operários contratados em fábricas, porém, sob condições salariais bastante inferiores e submetidos a altas taxas de rotatividade resultantes da difusão da estratégia de terceirização empresarial nas fábricas. Ou seja, estes grupos operários já foram absorvidos pelo precariado, não havendo nada em termos ocupacionais que os diferencie significativamente dos trabalhadores racializados que trabalham, por exemplo, nos armazéns da Amazon. Finalmente, quando olhamos para as comunidades onde vivem os trabalhadores brancos é fácil perceber que a distinção entre operários industriais e precariado do setor de serviços simplesmente não faz sentido, pois os dois grupos vivem nas mesmas famílias.

Assim, restaria à narrativa do “ódio branco” a nostalgia dos bons e velhos tempos. Trata-se de um aspeto central da explicação da suposta natureza reacionária desses trabalhadores. Aqui é importante compreender que mesmo no auge da era fordista a sindicalização no setor privado da economia norte-americano nunca ultrapassou os 33% da força de trabalho. Historicamente, a maior parte da classe trabalhadora do setor privado jamais conheceu a proteção sindical.

Além disso, considerando que a maioria desses trabalhadores vive ainda hoje em pequenas cidades rurais com menos de 25 mil habitantes onde os “bons empregos” sempre foram mais uma promessa do que uma realidade, percebemos que o apelo aos bons tempos fordistas não passa de um ardil para justificar o nacionalismo autoritário, com pouca ressonância na memória dos operários.

Na verdade, a nostalgia verificada entre eles remete para o colapso do seu modo de vida rural, isto é, aos laços de intimidade e de cumplicidade outrora existentes nas suas comunidades rurais e que asseguravam uma reprodução social estável. As causas deste declínio são múltiplas, mas concentram-se, principalmente, em quatro fatores: a epidemia de substâncias ilícitas que atingiu as comunidades rurais desde o início dos anos 2000, os efeitos económicos da crise de 2008, sobretudo, em termos do encerramento de pequenos negócios, a terceirização empresarial e a pandemia do novo coronavírus.

Na realidade, a nostalgia advém da impossibilidade de exercer aquilo que essas comunidades tradicionalmente valorizam, isto é, o sentido de autodeterminação assegurado pelo sistema de solidariedades práticas que garantia a sua subsistência. No lugar da solidariedade, estes trabalhadores experimentam a alienação. Não por acaso, a afluência às urnas nas pequenas comunidades de trabalhadores brancos é significativamente menor do que as médias nacional e dos maiores centros urbanos do país.

Finalmente, o “ódio branco” é uma narrativa assente na exclusão violenta de um “outro” racializado. Para tanto, os trabalhadores brancos devem sentir-se ameaçados pela competição com os trabalhadores racializados. De facto, a composição racial da América rural tem-se alterado ao longo dos anos. Porém, a um ritmo muito lento. Em muitos casos, os trabalhadores latinos são valorizados pelos donos de quintas por aceitarem empregos que os brancos recusam, como limpar o confinamento do gado, por exemplo. Os negros são raros em áreas rurais, preferindo ficar nas regiões metropolitanas.

Em suma, se é possível identificar atitudes individuais preconceituosas entre os trabalhadores brancos, não há uma base social realmente sólida capaz de transformar o racismo num factor politicamente mobilizador. Enganam-se aqueles que imaginam que promessas de recuperação de empregos industriais à base da construção de muros contra imigrantes será capaz de assegurar o apoio eleitoral para posições extremistas de direita nessas comunidades.

Na verdade, os trabalhadores brancos pobres e os trabalhadores racializados convergem nos seus anseios: querem manter a sua autodeterminação, assegurar reconhecimento para as suas tradições culturais, conquistar igualdade de tratamento perante os governos, garantir boas escolas para os seus filhos, receber algum apoio para os seus pequenos negócios em momentos de crise e ampliar os investimentos na infraestrutura das suas comunidades. Desejam prosperar nas cidades onde nasceram, sem precisar se transformar em trabalhadores nómadas, procurando empregos em lugares cada dia mais distantes. Não são eles os responsáveis pelo fortalecimento de posições extremistas de direita. Porém, sem eles, não há como superar a crise da democracia liberal.


Ruy Braga é professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Pela Boitempo, publicou A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista (2012) e A rebeldia do precariado: trabalho e neoliberalismo no Sul global (2017).

Texto publicado originalmente no blogue da Boitempo. Republicado no Outras Palavras. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.