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O Magreb levanta-se contra os ditadores

“Este início de 2011 ficará marcado pelo movimento de revoltas populares que varrem presentemente o Magreb” - Foto de confrontos entre jovens e a polícia na Argélia

Este início do ano 2011 ficará marcado pelo movimento de revoltas populares que varrem presentemente o Magreb. Revoltas da fome, dizem alguns, mas seguramente pela justiça e pelo fim das ditaduras e outros regimes mafiosos, que governam estes países pela força e pela repressão. Enquanto que na Tunísia as revoltas prosseguem há várias semanas, na Argélia, desde quarta feira, os bairros populares da capital e das grandes cidades incendeiam-se com a explosão da cólera dos jovens, alimentada por um quotidiano dos mais absurdos, num país que se desmorona sob os petrodólares, abertamente sequestrados pelos déspotas no poder desde há décadas.

A juventude argelina está calculada em mais de 70% da população, mas nada nas políticas oficiais oferece abertura ou apoio sério a estes milhões de jovens abandonados a si próprios sem a menor esperança no horizonte. Eles estão encurralados num desemprego endémico, na toxicodependência e na prostituição, na hogra (injustiça de todas as espécies) e no harraguisme[tentativa desesperada de emigração clandestina – NT], muitas vezes suicidário, assim como na indigência, no vazio cultural e político sideral num país abandonado pelo bom senso e o sal da vida, porque sufocado sob as leis do estado de emergência, estragado pela corrupção dos governantes e submetido à ignorância e ao seu avatar mais fiel: a intolerância.

Saindo às ruas para se manifestar violentamente contra os seus opressores, os jovens magrebinos tomam assim o mundo como testemunha do seu desespero, mas marcam igualmente o seu ressentimento para com as suas elites e outros líderes da oposição. Isto é tão mais verdade quanto os jovens se sentem deixados à sua sorte e abandonados pelas gerações precedentes, a da Revolução que fez a glória do país e a da independência, que nunca soube assumir o seu papel, ou seja realizar o Estado de direito, objectivo último da Revolução argelina.

Desde a violação da constituição pelo presidente Bouteflika para conseguir um terceiro mandato, enquanto que o balanço dos 2 precedentes era mais que deplorável, tanto para o país abandonado aos incondicionais do 'negocismo' local e internacional frequentemente sem escrúpulos, como para o povo submetido a condições de vida pavorosas, debatendo-se como um diabo para assegurar a sua sobrevivência, sendo agredido pelo luxo indecente que exibem abertamente os detentores do poder. Há anos que a situação se ia agravando, mas é forçoso constatar que continuando a humilhar e desprezar o povo, a reprimir a liberdade de expressão, a interditar a abertura do campo político e mediático, a assegurar a impunidade aos grandes ladrões e corruptos conhecidos da opinião e presos por múltiplas infracções e traições, o regime de Bouteflika é já responsável de toda a tragédia que ameaça a Argélia.

O presidente falhou a todas as suas promessas eleitorais, mentiu aos argelinos, pior, inovou no mau governo rodeando-se de 13 ou 14 ministros da sua própria aldeia, usando o poder clânico em vez de moralizar por pouco que fosse os costumes políticos iniciando e balizando uma boa governação, prelúdio do estado de direito que ele tinha prometido. O único assunto que parece preocupar o presidente, para além da megalomania e da vaidade que caracterizam os dirigentes árabes, assunto que ele executou bem desde a sua chegada ao poder, foi bombear mais petróleo para que o pecúlio a partilhar entre o seu clã e os militares seja sempre mais imponente e garanta uma clientela totalmente fiel à sua presidência. Uma clientela que escolheu viver longe da miséria ambiente, em opulentas fortalezas, cidadelas inacessíveis com extensas áreas verdejantes e praias públicas privatizadas “por decreto”, para as subtrair ao património público. Com o dinheiro do povo, eles edificaram pequenos paraísos e tornaram-se os mais afortunados dos bilionários, pois que contrariamente aos ocidentais que frequentemente se esfalfaram para edificar as suas fortunas, os ditadores, como os dirigentes argelinos, apenas sacam do tesouro público para saciar o menor dos seus desejos. Uma situação que o povo argelino já não quer suportar. Ele reivindica a dignidade humana que o poder totalitário lhe confiscou, privando-o do mínimo decente para viver: uma distribuição equitativa dos recursos nacionais, o direito a um trabalho correctamente remunerado, o direito a uma habitação para constituir família e, certamente, a liberdade de pensar e evoluir serenamente. Reivindicações que não se encaixam numa ditadura, mas exigem a instauração de um Estado de direito.

Será o início do fim das ditaduras no Magreb? A bola está no campo das elites e políticos integrados destes países que devem não só apoiar as reivindicações dos seus povos, mas também fazê-las ouvir tanto nas tribunas locais como na arena internacional. Uma forma de confrontar com as suas responsabilidades, as grandes potências que sustentam as ditaduras em prejuízo de tantos povos no planeta. De futuro, a negação dos direitos humanos não pode continuar nem no Magreb, nem em África, nem na América Latina. Os governantes concertaram-se para promover e mesmo impor a mundialização dos mercados, hoje, em 2011, os povos lançam-se à mundialização da democracia.

Artigo de Zehira Houfani Berfas1 publicado em Le Quotidien d' Algérie, traduzido por Carlos Santos para esquerda.net


1 Jornalista, escritora e consultora em comunicações. Nasceu em 1952 numa pequena aldeia da Cabília e vive desde 1994 no Canadá.

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