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“O Governo errou na mensagem para as pessoas com diabetes”

Em entrevista ao esquerda.net, José Manuel Boavida, médico e presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP), fala sobre o desconfinamento e os cuidados a ter com a covid-19, salientando que “o mais importante para qualquer pessoa enquanto não houver tratamento é não ser infetada”.
“As pessoas com diabetes têm em primeiro lugar que não se deixar infetar”, destaca José Manuel Boavida, presidente da APDP - foto de mydiabetes.pt
“As pessoas com diabetes têm em primeiro lugar que não se deixar infetar”, destaca José Manuel Boavida, presidente da APDP - foto de mydiabetes.pt

Que recomendações para as pessoas com diabetes no desconfinamento?

O Governo errou na mensagem para as pessoas com diabetes. O mais importante para qualquer pessoa enquanto não houver tratamento é não ser infetada. Fazer depender de critérios de risco, onde se excluem as pessoas com mais idade e as com diabetes e hipertensão, não ajuda a traçar o único caminho para o desconfinamento: saber viver num mundo em que o vírus anda à solta. Isso obriga a que as pessoas saibam proteger-se e saibam quais são as que têm maior risco de infeção: quem anda em transportes públicos, quem trabalha ou habita em locais com muitos contactos pessoais, ou seja, quem tem que se expor mais no seu dia-a-dia. Só depois aparece a questão das doenças. E aqui não é o risco de se vir a infetar, é o risco de estar infetado. E as doenças que têm maior risco estão em todos as orientações, estudos, etc.., de todo o mundo. Só não vê quem está vendado por outras questões! Portanto ,as pessoas com diabetes têm em primeiro lugar que não se deixar infetar*. Em segundo lugar, manter um bom controlo metabólico para que no caso de terem essa infelicidade o risco ser muito menor.

Quais os cuidados particulares a ter nesta fase?

A diabetes é um fator de risco para um pior prognóstico. As boas notícias é que podemos atenuar esse risco com a diabetes bem compensada

As evidências da literatura científica sobre a relação entre a diabetes e o vírus SARS-CoV-2 mostram que a diabetes é um fator de risco para um pior prognóstico, quer em relação a internamentos mais complicados, quer em relação ao aumento da mortalidade. As boas notícias é que podemos atenuar esse risco com a diabetes bem compensada, pois os estudos também já comprovaram que um bom controlo glicémico traduz-se em melhores resultados em caso de covid-19. Assim, as pessoas devem agora, mais do que nunca, fazer um esforço adicional para terem a sua diabetes bem controlada. Isto significa, não interromper a sua medicação, vigiar a glicemia e mantê-la dentro dos seus objetivos (embora estes objetivos sejam sempre individuais, considera-se ideal estarem entre 80-180 mg/dl), evitar a desidratação, manter uma alimentação adequada e praticar atividade física ligeira a moderada, sempre que possível.

Saber o que fazer em caso de infeção é também fundamental. As pessoas com diabetes sabem que têm que saber muito porque são elas que se tratam no dia-a-dia. A APDP tem no seu site, www.apdp.pt, um manual muito completo e o telefone 213816161 estará sempre disponível para ajudar e aconselhar.

Deve ser dada prioridade ao teletrabalho, caso seja possível?

Não deverá haver regras que tirem a liberdade de ir trabalhar ou que imponham condições que as exponham a riscos mais elevados de infeção

Nos casos em que haja essa possibilidade, o teletrabalho deve ser sempre equacionado. Mas as condições de transporte e de segurança e higiene no local de trabalho também devem ser contextualizados. Não devemos colocar as pessoas numa posição que as fragilize no trabalho e leve à sua discriminação. Não é por acaso que tantas pessoas “escondem” a sua doença, esta ou outras. As condições de segurança e higiene devem ser a prioridade. Só depois as pessoas poderão analisar os prós e contras do teletrabalho. Não deverá haver regras que tirem a liberdade de ir trabalhar ou que imponham condições que as exponham a riscos mais elevados de infeção.

A APDP tem orientações específicas para esta fase?

Neste momento, o grande problema é a infeção. Numa primeira instância é importante a prevenção. Caso esta ocorra, é essencial o acompanhamento.

O manual para ajudar as pessoas com diabetes e seus cuidadores a lidarem com um diagnóstico positivo de covid-19, que referi acima, tem os cuidados específicos necessários para cada tipo de tratamento, medicação oral ou insulina, e serve de complemento à linha de apoio da APDP onde todas as pessoas com diabetes e seus familiares encontram aconselhamento especializado.

A APDP, e tu próprio, criticaram fortemente a decisão da retirada da diabetes do regime excecional de proteção. Porquê?

A nova redação do decreto-lei 20/2020 que retira a diabetes e a hipertensão do regime excecional de proteção, é discriminatória e incompreensível. Consideramos que as justificações apresentadas pelo Secretário de Estado da Saúde não têm qualquer fundamento científico que as suporte. Até porque tal não existe. Vão, até, contra a doutrina do próprio Ministério da Saúde e de organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde e o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças americano (CDC), assim com as orientações de todos os governos com sistemas de saúde mais robustos: Canadá, Austrália, Alemanha, Inglaterra (NHS), etc...

A proteção das pessoas mais vulneráveis é demasiado séria para poder ser ignorada em função de putativas necessidades ditas económicas

Depois de várias semanas em que todo o país ouviu falar do risco acrescido que as pessoas com diabetes representam perante a covid-19, de repente inverte-se a mensagem. Pede-se idoneidade e auto cuidados, advoga-se que cada pessoa deve ser um agente de saúde pública e retiram-se direitos de proteção a uma população de alto risco. Fala-se de um dever e tiram um direito para que o mesmo fosse cumprido.

Ainda na passada quinta-feira saiu um artigo no jornal The Guardian que refere que uma em cada 4 mortes por covid-19, ocorridas nos hospitais ingleses, foi de uma pessoa com diabetes. A diabetes foi a doença mais recorrente na identificação das condições pré-existentes das mortes por covid-19, no Reino Unido. Tal como em Portugal: a comorbilidade mais frequente a seguir à hipertensão, é a diabetes

A proteção das pessoas mais vulneráveis é demasiado séria para poder ser ignorada em função de putativas necessidades ditas económicas. Um dia numa unidade de cuidados intensivos pagará mais de 6 meses de salário da maioria da população portuguesa.

Como compreender essa mudança feita pelo Governo, quatro dias após a publicação do decreto-lei 20/2020? É possível que esta situação seja alterada? Como?

O desafio que lançamos é que cada caso deve ser avaliado pelo médico assistente que determinará a necessidade ou não da dispensa do trabalho

A APDP não compreende e não aceitou esta mudança. A situação pode ser alterada retificando o retificado e incluindo todas as doenças crónicas. O desafio que lançamos é que cada caso deve ser avaliado pelo médico assistente que determinará a necessidade ou não da dispensa do trabalho. Só o médico assistente que acompanha e conhece o seu utente, saberá identificar se existe um bom controlo e se a pessoa precisa de estar em confinamento, tendo em conta as suas funções e o seu local de trabalho. E isto deveria ser para todas as doenças referidas no decreto-lei. Não só para a diabetes e a hipertensão.

Reunimos com os Grupos Parlamentares, apelando à discussão deste tema em plenário da Assembleia da República. O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português já chamaram o decreto para apreciação na Assembleia. O PSD prometeu fazer uma resolução. A grande questão é que o vírus não pára e os tempos do Parlamento não podem ser os da burocracia. Têm que ser o das necessidades das pessoas.

Como devem proceder as pessoas com diabetes para justificarem uma falta?

O decreto-lei 20/2020 não exclui determinantemente as pessoas com diabetes. Só as censurou. Ao falar em “designadamente” todas as pessoas podem ser incluídas por declaração médica. Ou seja, pessoas com diabetes, como qualquer outra pessoa, podem justificar a falta ao trabalho mediante uma declaração do seu médico assistente. O médico não deve sequer declarar qual é a situação ou doença que está em causa. Só atesta ou não a situação de risco para aquela pessoa. É óbvio que as clássicas “baixas” não desaparecem. Em caso de doença aguda com incapacidade para o trabalho é à baixa que devem recorrer. Muitos estudos em todo o mundo mostram que as pessoas com diabetes ou outras doenças crónicas faltam menos que as outras. Nunca se querem sentir discriminados pela doença ou que esta as possa diminuir. Querem controlar a doença e viver e trabalhar como se não fossem doentes! (Viver e trabalhar como se não fossem doentes é uma frase de um cartaz da APDP dos anos 30 do século passado! Tão atual!)


* No geral, as recomendações para a pessoa com diabetes não diferem muito daquelas para toda a população. A pessoa deve fazer-se acompanhar de um frasco com gel com álcool, com mais de 60%, para complementar a lavagem das mãos e, antes de sair de casa, colocar uma máscara que tape o nariz e a boca e, se possível, levar outra para o caso da primeira se danificar. Respeitar sempre as orientações da Direção Geral da Saúde, de distanciamento social, etiqueta respiratória, lavagem frequente das mãos, entre outras medidas já amplamente divulgadas.

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