O governo de Israel não tem nada a oferecer senão vingança

11 de outubro 2023 - 21:16

Neste momento de profunda dor, agarro-me à única coisa que me resta: a crença absoluta de que este inferno não está predestinado. Nem para nós, nem para eles. Artigo de Orly Noy.

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Benjamin Netanyahu com militares
Benjamin Netanyahu com militares a 10 de outubro de 2023. Foto Gabinete do PM israelita/Flickr

Ainda é impossível digerir estes dias mais sombrios de todos, que começaram com as sirenes a acordarem-nos no sábado de manhã, um dia que parece interminável e que provavelmente não terminará durante muitos dias. A ideia dos raptados na Faixa de Gaza está a esmagar-me de dor. Cada pensamento sobre eles deixa uma camada de terror na pele. As imagens e os relatos de corpos espalhados por todos os cantos, de famílias mantidas reféns durante horas como escudos humanos nas suas próprias casas por militantes do Hamas, ainda assombram a mente, gelando o coração.

O choque absoluto provocado pelo ataque do Hamas às cidades do Sul assumiu várias formas com o passar das horas: medo, impotência, raiva e, acima de tudo, uma profunda sensação de caos. As falhas colossais do governo de Benjamin Netanyahu e do aparelho de segurança estão a convergir para uma sensação de colapso total. O sistema de informações, que vigia todos os aspetos da vida dos palestinianos em Gaza e na Cisjordânia, não tinha conhecimento prévio do ataque; os civis foram deixados indefesos durante muitas horas contra os militantes do Hamas, que os encurralaram nas suas casas e os massacraram sem intervenção militar - o mesmo exército encarregado de proteger todos os colonos da Cisjordânia em qualquer momento.

Estamos chocados com a falta de informações fiáveis durante as longas horas em que as pessoas procuraram desesperadamente por familiares e amigos desaparecidos, inundando as redes sociais com fotografias de entes queridos que tinham desaparecido. E agora assistimos à ausência de mantimentos e alimentos suficientes para as forças de reserva, convocadas à pressa, enviadas para a linha da frente contra o Hamas, deixando aos civis de cada cidade e vila a tarefa de organizar as coisas de que necessitam.

No domingo, Netanyahu declarou formalmente a guerra e agora, neste momento, Israel inteiro está em estado de guerra. Os mísseis que aterraram no coração de Telavive e o bombardeamento das cidades do norte transformaram todo o país num campo de batalha, pelo menos na perceção do público.

Aqui em Jerusalém, estamos a tentar agarrar-nos à esperança de que o Hamas não lance mísseis contra a cidade, devido à sua proximidade da mesquita de al-Aqsa, mas a ansiedade geral mantém-se. As escolas foram encerradas, assim como todas as empresas, e muito poucas pessoas estão nas ruas. Os que não têm de o fazer, não saem de casa. No sábado à noite, depois de horas a olhar ansiosamente para a televisão e para as redes sociais, a minha filha estava em pânico com o receio de que os militantes do Hamas, armados e ainda dentro do território israelita, pudessem chegar a Jerusalém e atacar-nos em nossa casa. Só depois de uma visita minuciosa aos abrigos públicos do bairro é que ela se acalmou um pouco e conseguiu adormecer.

No meio deste caos absoluto, Netanyahu dirigiu-se aos cidadãos no final do sábado: uma declaração vazia com slogans como "vamos ganhar", "vamos atacá-los", "vamos aniquilar o terrorismo". É um homem de muitos slogans. Promete que Israel vai "vingar-se com toda a força" e que "o inimigo vai pagar um preço sem precedentes", sofrendo "fogo de resposta de uma magnitude que o inimigo nunca conheceu".

Essa linguagem é intencional. Porque, embora um público israelita traumatizado ainda não esteja pronto para buscar o profundo ajuste de contas político e moral que esta catástrofe exige, a raiva já dirigida a Netanyahu é palpável. Um primeiro-ministro enredado em processos judiciais nomeou - para satisfazer as suas próprias necessidades políticas - pessoas que não só eram extremamente belicosas como também muito pouco profissionais, e colocou-as à frente da nossa segurança. Com razão, ele é agora visto como pessoalmente responsável. Procura salvar a sua própria pele política, mais uma vez, instando o Knesset a formar um governo de emergência nacional, muito semelhante ao que formou há três anos com o líder do partido Unidade Nacional, Benny Gantz, sob o pretexto de uma resposta ao coronavirus. Mas mesmo sem a formação desse governo de emergência nacional, a oposição judaica no Knesset apoia totalmente o ataque mortífero do governo a Gaza. E não estão sozinhos: muitos israelitas querem ver toda a Faixa de Gaza pagar um preço sem precedentes.

O desejo público de vingança é compreensível e aterrorizante, mas o apagamento de qualquer linha vermelha moral é sempre uma coisa assustadora.

É importante não minimizar ou tolerar os crimes hediondos cometidos pelo Hamas. Mas também é importante recordar que tudo o que o Hamas nos está a infligir agora, nós temos vindo a infligir aos palestinianos há anos. Disparos indiscriminados, incluindo contra crianças e idosos; invasão das suas casas; incendiar as suas casas; fazer reféns - não apenas combatentes, mas civis, crianças e idosos. Estou sempre a lembrar-me que ignorar este contexto é abdicar de uma parte da minha própria humanidade. Porque a violência desprovida de qualquer contexto conduz apenas a uma resposta possível: a vingança. E eu não quero vingar-me de ninguém. Porque a vingança é o oposto da segurança, é o oposto da paz, é também o oposto da justiça. Não passa de mais violência.

Continuo a defender que há crimes de abundância e há crimes de fome, e nós não só levámos Gaza à beira da fome, como a levámos a um estado de colapso. Sempre em nome da segurança. Que segurança é que obtivemos? Onde nos levará outra vaga de vingança?

Este sábado foram cometidos crimes terríveis contra israelitas, crimes que a mente não consegue compreender - e neste momento de dor profunda, agarro-me à única coisa que me resta: a minha humanidade. A crença absoluta de que este inferno não está predestinado. Nem para nós, nem para eles.


Orly Noy é editora do portal Mekomit, ativista política e tradutora de poesia e prosa farsi. É presidente do conselho executivo do B'Tselem e ativista do partido político Balad. Artigo publicado em +972 Magazine. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.