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O Facebook é uma ameaça social

O gigante da tecnologia espia para qualquer um que tenha dinheiro para comprar os seus segredos. Artigo de Eric Alterman.
Foto Maurizio Pesce/Flickr

Em 2011, o antigo programa de TV The Onion tinha um sketch no qual o então diretor da CIA, Leon Panneta, agraciava com a “medalha de louvor por serviços de informações” ao “Suserano”, Mark Zuckerberg, por ter inventado “a ferramenta mais poderosa de controlo da população” que a agência jamais tinha tido. Agora, o Facebook está a cumprir as profecias dos humoristas mais distópicos; a única coisa em que The Onion se enganou foi quanto à competência da CIA. Segundo uma investigação arrasadora publicada em dezembro pelo New York Times, o Facebook tem a funcionar uma verdadeira agência de espionagem — não para o governo dos EUA, mas para quem esteja disposto a comprar os seus dados.

Vejamos as revelações recentes: o Facebook vende os nomes dos “amigos” dos seus utilizadores sem consentimento e permite a algumas empresas ler e apagar mensagens privadas. Também vende os nomes e informações de contacto dos utilizadores e a seguir mente sobre isso; permite às empresas que compram os seus dados esconderem esse facto; e permite a essas mesmas empresas ignorarem as preferências das pessoas que desativam a partilha nas suas configurações.

Entretanto, outra investigação, desta vez da Privacy International, descobriu que o Facebook “costuma seguir os utilizadores, não-utilizadores e utilizadores não logados fora da sua plataforma através do Facebook Business Tools”. Por outras palavras, o Facebook espia as pessoas que nem sequer usam o Facebook.

O jornalista da NBC Dylan Byers publicou recentemente através de uma fonte anónima a queixa de que os administradores do Facebook “estão fartos do New York Times ao fim de semanas daquilo que creem ser uma cobertura abertamente antagonista que revela um preconceito anti-Facebook”. Mas Byers não só não aponta qualquer imprecisão nas reportagens do Times, como nem sequer consegue ter uma única resposta de alguém da empresa que dê a cara.

Talvez os executivos do Facebook tenham ficado envergonhados por serem tantas vezes apanhados a mentir. Nos primeiros anos da empresa, Zuckerberg explicava que o seu credo era “tipo, fazer as coisas acontecerem e depois, tipo, pedir desculpas no fim”. Embora seja verdade que o Facebook pede frequentemente desculpas pelos seus passos em falso, às vezes limita-se a mentir. Por exemplo, depois do Times ter noticiado que o Facebook tinha pago a uma empresa para investigar adversários, a Definers, no sentido de desenterrar informação negativa sobre o financeiro e filantropo liberal George Soros, a diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, anunciou que “não sabia que os tínhamos contratado nem que trabalho estavam a fazer”. Mais tarde, soube-se que foi a própria Sandberg que deu a ordem para essa investigação.

Noutras ocasiões, a empresa promete — promete a sério, desta vez é que é — não voltar a fazer o mesmo. Na verdade, o Facebook parece exercer muito pouco controlo sobre o seu site, tirando talvez a proibição da nudez. De que outra forma podemos explicar que após o massacre na sinagoga de Pittsburgh, os anunciantes podiam dirigir os seus anúncios aos utilizadores com interesse em “teoria da conspiração sobre o genocídio branco”?

Não é só aos fãs de Trump que o Facebook faz as vontades. Segundo a jornalista Maria Ressa, pessoas associadas ao homem-forte filipino Rodrigo Duterte usam o site para enviar mensagens ameaçadoras, incluindo uma dirigida a si dizendo “Quero que Maria Ressa seja violada repetidamente até à morte”. E na Turquia, “o Facebook apaga toda e qualquer coisa da sua rede social quando as autoridades turcas lhe dizem para o fazer”, segundo Yaman Akdeniz, um professor de Direito na Universidade Bilgi de Istambul.

É difícil imaginar um juiz mais simpático para os conservadores trabalharem do que Zuckerberg e o Facebook. Infelizmente, nunca existiram meios mais eficazes — ou um momento político mais assustador — para espalhar má informação, desinformação e incitamentos à violência.

O Facebook já cometeu outros inúmeros pecados. Quem se preocupa com o colapso do modelo de negócio do jornalismo defensor da democracia não ficou surpreso ao saber que o Facebook enganou os órgãos de comunicação acerca do número de visualizações dos vídeos que publicavam. Lembram-se quando os jornais e revistas estavam a “mudar para o vídeo”? Essa mudança caríssima defenestrou muitas publicações — mas os indicadores que levaram a essas decisões eram absurdos.

Por fim (pelo menos por agora), o Wall Street Journal noticiou que os esforços da direita para manipular os árbitros foram tão eficazes que o Facebook nomeou Joel Kaplan, o antigo conselheiro de George W. Bush que organizou uma festa para Brett Kavanaugh comemorar a sua nomeação para o Supremo Tribunal, como o seu comissário de ideologia conservadora. Kaplan deu recentemente a machadada final num projeto chamado Common Ground, que serviria para promover discussões civilizadas entre utilizadores com opiniões políticas diferentes — isto porque, diz o Journal, ele temia que “pudesse levantar queixas de parcialidade contra os conservadores”. Com o apoio de Zuckerberg, Kaplan também quis associar-se ao pasquim de propaganda The Daily Caller para o frágil sistema de verificação de factos do Facebook. (Já tinha reparado que o newsfeed da empresa está cheio de programação mentirosa da Fox News). Felizmente, Kaplan perdeu essa batalha quando o Poynter Institute, uma organização jornalística sem fins lucrativos, suspendeu a sua certificação à operação de verificação de factos do Daily Caller.

Kaplan também protege figuras como Trump ou Breitbart de qualquer interferência no site, independentemente de quantas mentiras dizem ou quantos insultos gritam. Funcionários do Facebook disseram ao Journal que uma iniciativa chamada Cross Check “ia contra os esforços do Facebook para limitar o alastramento de má informação e discurso de ódio porque os posts assinalados daquelas páginas muitas vezes não iam para baixo”.

De acordo com Josh Bolten, antigo chefe de gabinete de Bush, a tarefa de Kaplan na empresa é “mostrar às pessoas que o Facebook está a ser justo”, uma vez que “muita gente na direita está desconfiado da maioria dos órgãos de comunicação e plataformas de redes sociais”. Reparem na lógica circular: a mera suspeita de parcialidade anti-direita é usada para assegurar mais programação de direita, e cada nova vitória da direita reforça as suas exigências cada vez maiores. É difícil imaginar um juiz mais simpático para os conservadores trabalharem do que Zuckerberg e o Facebook. Infelizmente, nunca existiram meios mais eficazes — ou um momento político mais assustador — para espalhar má informação, desinformação e incitamentos à violência.


Eric Alterman é colunista na revista The Nation, que publicou este artigo. Tradução de Luís Branco para o esquerda.net.

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