Nacionalizar o Facebook não responde à questão da centralização absoluta

08 de dezembro 2018 - 16:07

Maria Manuel Rola entrevistou Ricardo Lafuente, o designer, hacker e arquiteto de dados que apresentou no Fórum Socialismo 2018 o painel “As redes sociais e o Socialismo”.

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Ricardo Lafuente, designer, hacker e arquiteto de dados, foi um dos convidados do Fórum Socialismo 2018.

Gostava que falasses um pouco da perspetiva da utilização destes meios de comunicação das redes sociais. Sabemos que não poderemos voltar atrás na sua existência, nem me parece que essa seja aquilo que se almeja, mas mais de que forma é que estas redes podem servir o socialismo.

Acho que é esse o debate mais interessante, já chegámos todos à conclusão de que as redes sociais, nomeadamente o Facebook, são aparatos do capital, com tudo o que isso implica. Mas, em termos de discussão e de debate, se calhar é mais produtivo pensarmos como é que enquadramos isto numa perspetiva socialista e como é que este instrumento podia encaixar-se. E aí chegamos a um ponto em que percebemos que o Facebook nos dá jeito, e é por isso que o usamos, a maior parte de nós ainda usa, para estar em contacto, para organizar coisas. Tem esse uso possível e é extremamente conveniente isso. Aliás, esse é o maior problema, é tão conveniente que estamos dispostos a abdicar de alguns dos nossos princípios.

Houve várias movimentações que tiveram por base mensagens disseminadas nas redes sociais e que até deram a ideia de que a internet poderia dar lugar a um outro espaço social, e a uma outra participação social. Mas rapidamente se percebeu que foi uma ideia gorada…

É 100% verdade, e isso é um dos problemas agora, é darmos um bocado com o nariz na parede… Estivemos no início da década com aquele entusiasmo do Anonymous, do WikiLeaks, da Primavera Árabe em que uma internet parecia ter um potencial emancipador por natureza. Acreditámos que a internet, por natureza, nos ia libertar. E agora chegámos a casos como o GamerGate, que é quase uma perversão absoluta da multidão online, ou também estes casos das eleições e das interferências, da informação falsa que está a ser propagada, os casos tanto no Brasil, na Índia, em Myanmar…

Não existe nenhum potencial intrinsecamente emancipatório, revolucionário na internet, e se não o enquadramos e se não temos esse cuidado agora, corremos o risco de ser completamente ultrapassados e de perder mesmo o comboio da reflexão sobre o que são estes instrumentos e o que podemos fazer de bem com eles.

Não existe nenhum potencial intrinsecamente emancipatório, revolucionário na internet, e se não o enquadramos e se não temos esse cuidado agora, corremos o risco de ser completamente ultrapassados e de perder mesmo o comboio da reflexão sobre o que são estes instrumentos e o que podemos fazer de bem com eles.

Mas tu achas que o capital se apropria tardiamente destes instrumentos, ou que já teria essa ideia, deixou essa esperança, digamos assim, essa capacidade de alguma emancipação, para depois a cortar?

Houve ali um espaço em que não havia tanto controlo, não havia a questão da recolha dos dados, isso é uma questão, um artefacto do pós-11 de Setembro e do Patriot Act, em que as empresas foram obrigadas a guardar dados e depois é que perceberam: “espera lá, temos aqui uma data de coisas…”.

Antes era completamente tabu, a ideia de que podias sequer olhar para aquela informação, quanto mais vendê-la, ou operar com ela. Acho que passa por uma intervenção casa vez maior do capital no que é a internet e no que são as redes.

Ricardo Lafuente e Maria Manuel Rola

Mascarado de segurança, não é?

E de conforto e de conveniência, é aí uma das grandes armas do capital e da sociedade de consumo: é a conveniência. O facto de nos permitir um maior à vontade, contactar com as pessoas que estão longe, dá-nos isso. Mas a conveniência também é a maior inimiga dos princípios, e aí também abdicamos. Com cada interação que damos ao Facebook, a cada informação que lhes possibilitamos, perdemos um pouco de terreno. Acho possível um uso tático das redes, não acho que seja necessário um purismo absoluto. Mas temos de estar conscientes de que está completamente colonizado e nós fazemos parte da dança.

Como é que poderíamos fazer essa transição de forma a continuarmos a utilizar as redes e as formas de comunicação para uma proposta emancipatória?

O grande problema do FaceBook, além de ser um aparato do capital, é também ser extremamente centralizador, centralizador de tudo e normalizador. Tenta capturar partes cada vez maiores e cada vez mais íntimas da nossa existência, não só social, política, mas também pessoal e íntima. Acho que ajuda bastante perceber que existe essa dimensão. E que é algo que, num ideal socialista, respeitador da diversidade, da individualidade, temos de repensar.

Com cada interação que damos ao Facebook, a cada informação que lhes possibilitamos, perdemos um pouco de terreno. Acho possível um uso tático das redes, não acho que seja necessário um purismo absoluto. Mas temos de estar conscientes de que está completamente colonizado e nós fazemos parte da dança.

Por isso é que, quando falamos de alternativas, existem várias correntes, existe uma que defende criar bancos públicos de dados pessoais, para que as pessoas possam ter também controlo e vender os seus dados. É o anarco-capital no seu lado mais feio, porque só trata a ideia de que os dados vão ser recolhidos e então nós que ganhemos algum. Temos de ser mais exigentes. Existe também a proposta da nacionalização do Facebook, que é interessante, mas também sofre do mesmo problema, porque presume que temos de ficar com o Facebook e que a única forma é apropriarmo-nos, e não responde à questão da centralização absoluta.

Ainda não temos todas as respostas e a esquerda tem bastante terreno para andar, passa por ver onde é que temos de voltar atrás. Obviamente, acabar com a recolha de dados. Não é preciso estarmos a mapear o que as pessoas fazem. Questionar pormenores, por exemplo, como o FaceBook impõe a identidade real de uma pessoa. Isso também é uma coisa um bocado inédita na internet, é dos últimos 10 anos. Antes usávamos pseudónimos, usávamos contas múltiplas, identidades múltiplas, e era uma coisa muito bonita que ainda vamos a tempo de resgatar, porque ainda está muito presente, se olharmos para fora do Facebook. Isso da identidade espelha a necessidade que temos de não ficar numa identidade só, numa rede só, deve haver várias redes, com várias regras, várias formas de se auto moderarem.

Ricardo Lafuente

É outro dos grandes problemas do Facebook agora, como é que se modera o discurso lá dentro? É absolutamente impossível, se tentas criar uma rede à escala mundial. Só é possível com redes locais, de escala definida, que não tentem abarcar tudo por uma necessidade permanente de crescimento, como o capital exige. Pensar as redes sociais para o socialismo passa necessariamente por aí, por esses pormenores. Mas insisto que é possível fazer um uso tático das redes hoje. Ou seja, como é que nós, socialistas, vemos as redes e como é que tornamos as redes socialistas? As duas questões estão absolutamente ligadas.

Sim, se calhar focar mais na questão da comunicação, mas com intuito e com intenção, e não tanto focar na questão da recolha dos dados, para monitorizar os consumos das pessoas.

É que a pior parte é mesmo essa, tudo está a ser recolhido, toda essa informação existe agora numa base de dados e tu não sabes o que vai ser feita com ela amanhã, tu não sabes quem vai estar atrás de ti amanhã. Embora aqui na Europa ainda estejamos um bocado longe da realidade da perseguição de ativistas, mas ela existe. O Facebook, na altura do Occupy, antes da manifestação nacional, fechou 50 grupos do Occupy para impedir completamente a organização. Por isso também não podemos ser ingénuos e achar que podemos operar no Facebook, porque o Facebook ainda nos deixa. Ao mesmo tempo, também não dá para ficarmos de fora, precisamos de encontrar um uso tático. O que é esse uso tático? Até onde é que vamos e onde é que paramos?

No outro dia, usaram um bom termo, que é encarar o Facebook como sendo um comício permanente, em que a nossa exposição existe e é total, por isso temos de ter cuidado com o que dizemos. E não só no sentido de partidarismo, mas mesmo no sentido de existência pessoal, temos de ter muito cuidado, medir as palavras, termos cuidado com as discussões e perceber que a conversa de café é uma coisa e que o Facebook, por mais que o FaceBook nos tente fazer parecer, e todo o interface é desenhado para que possa parecer que estás numa enorme conversa de café com os teus amigos, não é isso. E, quanto mais rapidamente conseguirmos ser táticos no seu uso e, sobretudo, com consciência do que queremos e achamos que estas plataformas devem ser, acho que mais eficazmente vamos conseguir usá-las sem sermos completamente absorvidos pela sua lógica.

Neste momento, e na forma como o FaceBook, o Twitter, o Instagram se relacionam com as pessoas, há uma geração que tem sido trabalhada, que está completamente à vontade com esta forma de comunicação e que a tem naturalizada. Percebes que existe a possibilidade de se alterar essa lógica, ou seja, de a tornar mais local, menos voyeurista, menos de discussão trivial, que é sempre muito agressiva numa outra sociedade, ou têm estas redes trabalhado para  conformar uma sociedade, em que parece que existe uma capacidade de ação, mas que, ao mesmo tempo, não nos permite tanto e que acaba por criar um género de relações sociais também bastante diferentes.

Existem esses dois lados da questão. Acho que as novas gerações estão bastante conscientes do que têm perante elas. Fala-se muito que as novas gerações não compreendem, estão completamente imersos. Eu acho que ninguém compreende. Neste momento. E o maior erro que podemos fazer é projetar, como se nós percebêssemos. Nós não percebemos nada. São contratados os melhores profissionais de design de interface para nos direcionar sem perceber que estamos a ser direcionados. As novas gerações estão a ser empoderadas, têm noção disso, e que têm uma visão muito mais estratégica desses meios do que lhes é atribuído na vox populi.

No outro dia, usaram um bom termo, que é encarar o Facebook como sendo um comício permanente, em que a nossa exposição existe e é total, por isso temos de ter cuidado com o que dizemos. E não só no sentido de partidarismo, mas mesmo no sentido de existência pessoal.

Acho que boa parte do discurso sobre os jovens na internet é muito uma projeção dos adultos, das gerações que ainda estão a debater sobre o que são estas redes e que ainda estão a tentar perceber o que é isto. Ao mesmo tempo, claro que está a haver uma apropriação e estão a cercar através desses meios, da publicidade, do controlo dos conteúdos…

É óbvio que as novas gerações também estão a ser bombardeadas por um discurso cada vez mais de consumo. Não é muito diferente do que nós já tínhamos na televisão, no marketing. É mais rudimentar, mas feito a uma escala bastante mais invasiva e, lá está, que também se propagou a um círculo cada vez mis expansivo da nossa intimidade. Isso é que é o que nos falta perceber, discutir e conseguir evitar: isto chegou bem mais longe do que antes. A lógica é a mesma, simplesmente está muito mais presente. Como é que nós, como socialistas, conseguimos ainda ser táticos para resistir a esse aumento da esfera e conseguir lutar? Acho que passa por irmos reconquistando pequenas partes da nossa existência, em pequenas lutas e pequenos combates, passa sem dúvida por aí.

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