No dia 8 de setembro de 2025, cinco ativistas participaram numa ação direta na fábrica da Elbit Systems em Ulm, Alemanha, com vista a interromper o fluxo de armas para Israel e travar o genocídio em Gaza. O foco da ação nesta empresa deve-se ao facto desta ser o maior fabricante de armas de Israel – responsável por cerca de 85% do equipamento militar e tecnologia de vigilância das IOF (Forças de Ocupação de Israel), como documentado por relatórios das Nações Unidas. Nos últimos meses, ações semelhantes têm-se multiplicado em vários países, também impulsionadas pela campanha Shut Elbit Down, que denuncia o papel central da Elbit Systems na maquinaria de guerra israelita.
Desde então, o grupo – que ficou conhecido como os “Ulm 5” – foi espalhado por diferentes prisões e mantido em prisão preventiva na Alemanha, ultrapassando já os limites legais previstos para o tempo de detenção. Numa conferência de imprensa organizada pela CAGE International esta semana, advogados de defesa (Nina Öner e Matthias Schuster), juntamente com as mães dos ativistas, denunciaram as condições brutais da detenção: confinamento solitário até 23 horas por dia, visitas e chamadas telefónicas altamente restringidas e monitorizadas, acesso a cuidados médicos negados, atrasos na receção de cartas, mas também interferências no acesso à defesa legal (incluindo não poderem conversar entre si ou com os advogados uns dos outros).
As acusações contra os Ulm 5 incluem trespasse e danos à propriedade privada, mas não se ficam por aí. Alarmantemente, a acusação invoca também o artigo 129 do Código Penal, que acusa o grupo de “participação numa organização criminosa” – um instrumento jurídico altamente criticado pelo seu uso histórico contra dissidência política. Soma-se ainda o artigo 86, relativo à “utilização de símbolos de organizações inconstitucionais e terroristas”, com base na acusação de os ativistas terem dito “from the river to the sea, Palestine will be free” num vídeo a explicar a ação. As autoridades de Baden-Württemberg e outros estados alemães insistem em classificar esta expressão como um símbolo do Hamas, uma interpretação contestada por especialistas e que está em disputa em vários tribunais do país. Caso sejam condenados, os ativistas enfrentam penas que podem atingir os cinco anos de prisão.
Apesar de não possuírem quaisquer antecedentes criminais e de esta ter sido uma ação não-violenta, todos os pedidos de fiança foram recusados até agora. O julgamento, marcado para abril, decorrerá numa prisão de alta segurança em Estugarda. O Tribunal Regional Superior alemão pronunciou-se de forma antecipada sobre o desfecho, sugerindo que os ativistas dificilmente receberão penas leves ou suspensas – isto antes do início do julgamento, levantando suspeitas sobre a presunção de inocência e a imparcialidade do processo judicial. Tudo indica que o estado alemão está decidido a aplicar todo o seu poder institucional para pintar os arguidos como uma ameaça criminal séria e fazer do grupo um exemplo num "julgamento-espetáculo", que “pode ser uma antevisão do que podemos esperar no futuro em relação a atores politicamente indesejáveis em geral, e à solidariedade com a Palestina em particular”, denunciado pela advogada Nina Öner.
Também presente na conferência de imprensa esteve o investigador Andrew Feinstein, da Shadow World Investigations, que sublinhou o papel direto da Elbit Systems na manutenção material do genocídio em Gaza, expondo a cumplicidade da indústria militar. É nesse sentido que a defesa vai construir o seu argumento: ao tentar intervir nas cadeias globais de produção de armamento que sustentam a violência contra o povo palestiniano, os Ulm 5 agiram em defesa de terceiros e em nome do direito internacional. “Quem deveria estar no banco dos réus são as empresas que facilitam este genocídio, não estes cinco ativistas”, afirmou Feinstein, apelando à sua libertação imediata.
Num comunicado dos Ulm 5 pode ler-se: “Alemanha, deixaste a tua posição clara: o direito internacional, os direitos humanos e a decência não te dizem respeito, desde que consigas garantir os teus interesses geopolíticos e económicos. Não hesitarás em apoiar a violência militar bárbara e a violência semântica para justificar o injustificável – o genocídio.”
A motivação política, e não jurídica, que sustenta o caso contra os Ulm 5 – que necessita de toda a atenção mediática e solidariedade internacional possível – está longe de ser a exceção na Alemanha. O estado e os media têm intensificado o seu braço de ferro com o movimento pró-Palestina, desde proibições de manifestações, violência policial, detenções em massa, suspensões académicas, encerramento de contas bancárias, ordens de deportação, mas também vigilância e censura, efetivando uma complexa arquitetura de criminalização da solidariedade. Este caso sublinha a dupla tarefa que se impõe à esquerda: por um lado, a urgência de travar o genocídio contra o povo palestiniano; e por outro, enfrentar a crescente violência e repressão estatal contra quem o ousa denunciar nos seus respetivos contextos. Em ambos, a ação direta e o boicote são ferramentas de intervenção legítimas, sem pedir licença ou desculpa.