Retratos do trabalho por turnos

"O burnout não é identificado, mas é generalizado". Entrevista a Sandra Antunes, trabalhadora num centro de operações de socorro

28 de fevereiro 2025 - 15:53

Sandra tem um trabalho de alta pressão psicológica, em turnos de 12 horas. Com mais de 20 anos a trabalhar por turnos, sente agora na pele as consequências de ter horários desregulados e fala sobre o impacto que isso tem no seu ambiente de trabalho e na sua vida familiar.

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Layout de Esquerda.net

Para além de turnos de 12 horas, Sandra Antunes tem um trabalho onde a pressão é elevada. Trabalha para um Comando Distrital de Operações de Socorro, onde faz a ponte entre as chamadas de emergência para o 117 e os bombeiros.

Além disso, é bombeira voluntária e mãe. Tem de conjugar na sua vida as diferentes exigências da vida familiar e da vida profissional, tendo arranjado maneiras de lidar com isso, mas reconhecendo um burnout generalizado entre os colegas.

Em 2024, o Bloco de Esquerda lançou uma petição para garantir direitos aos trabalhadores por turnos, inclusivamente a obrigatoriedade do serviço por turnos, as 24 horas de descanso na mudança de horário por turno, limite de 35 horas semanais para trabalho por turnos e a antecipação da idade da reforma. A petição procurou também recolher testemunhos de trabalhadores por turnos. Sandra é uma dessas trabalhadoras. 


Fez o bacharelato em Comunicação Social, mas depois foi trabalhar para o hospital da Guarda, onde começou a trabalhar por turnos. Como é que chegou a essa decisão?

Tirei Comunicação Social em Viseu e arranjei emprego no Diário Regional de Viseu. Comecei como delegada comercial e passei a diretora comercial, só que na altura havia muita pressão da minha mãe para voltar para casa, porque eu sou da Guarda. Ela acabou por me conseguir arranjar emprego no hospital e eu cedi e vim. Era aquela ideia de ter um trabalho no Estado, que é mais seguro. Vim e fui colocada na secretaria da urgência. Aí comecei a fazer turnos, desde que comecei nunca mais tive um trabalho com horário normal, de segunda a sexta.

Começou a trabalhar por turnos ainda com 25 anos, como é que na altura lidou com a situação?

Na altura gostava muito. Não quer dizer que agora desgoste, só que já me sinto muito cansada e tenho uma vida familiar que na altura no tinha. Gostava porque tinha muito tempo livre, dá para dormir até tarde, dava para sair à noite muitas vezes, porque depois muitos dias a seguir só entrava à tarde ou à noite. Naquela altura, se eu fosse fazer noite, deitava-me toda a tarde a dormir, às seis ou sete da tarde saía para fazer noite, chegava a casa, tomava o pequeno-almoço e dormia toda a tarde. E apesar do sono não ser igual, naquela altura como dormia tanto ia acabando por repor e por compensar. E naquela altura me sentia que não me afetava nada.

Depois foi trabalhar para o Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS), onde também ficou a trabalhar por turnos.

Estive no hospital dois anos e pouco com muitos contratos. Ainda estive lá alguns períodos como voluntária porque não havia contratos. No final fiquei quase 2 meses como voluntária, sem receber nada, porque eu queria lá ficar. Só que a minha chefe disse que era impossível, porque não sabia se ia haver algum contrato e não queria que eu continuasse assim. Entretanto já tinha entrado para os bombeiros voluntários da Guarda como voluntário, e passado um mês ou dois, foi-me sugerido pelo comandante fazer um programa ocupacional pelo centro de emprego no gabinete de comando. Aceitei, nessa altura trabalhava das 9h às 17h com escala de bombeira voluntária, e passado quase um ano, surgiu a oportunidade de ir para a Autoridade Nacional de Proteção Civil, inicialmente a fazer reforço no Verão, e depois em Outubro chamaram-me para trabalhar.

E que funções tem no CDOS?

As funções são de gestão de emergência. No nosso local de trabalho é onde está a linha de emergência do 117, que hoje em dia já não se fala muito, mas continua a existir. Era a linha de emergência para incêndios florestais e continua a existir. Agora estamos no nível sub-regional, haveremos de passar outra vez para o distrital. Somos nós que fazemos a gestão de todas as ocorrências para todos os corpos de bombeiros, 

Como é que articula o trabalho por turnos com o trabalho de bombeira voluntária?

Sempre articulei bem, até porque já trabalhei em simultâneo aqui na Autoridade Nacional de Proteção Civil e no INEM, numa ambulância. E continuei a ser bombeira, só que na altura não tinha namorado, não tinha filhos. Não tinha satisfações a dar a ninguém. Claro que na altura andava mais cansada, como é óbvio. Era praticamente sair de um sítio para o outro e tudo era por turnos. E turnos de 12 horas nos dois sítios. Se não fossem turnos de 12 horas, não conseguia conciliar. Isto até à altura em que comecei a ter os meus filhos.

A partir do momento em que tem o primeiro filho, como é que se começa a gerar esse cansaço e esse desgaste de que falou?

A partir do momento que a minha filha nasceu, despedi-me do INEM e fiquei só no comando sub-regional da proteção civil. E continuo a ser bombeira. Eu e o meu marido passámos um ano e tal de noites mal dormidas com a minha filha. É a partir daí que depois tudo se começa a sentir. Os barulhos, ter mais noites sem dormir e acordar abruptamente com o choro de um bebé. Eu na altura ainda não tinha bem a perceção, mas hoje em dia percebo claramente que o facto de me incomodarem muitos barulhos, gritos, o choro das crianças tem tudo a ver com essa destabilização. E sinto claramente que é devido ao trabalho por turnos e ao cansaço. Cansaço e esquecimento. Quando saio de fazer noite, nunca sei muito bem às quantas ando. Até porque hoje em dia já não consigo dormir da mesma forma como dormia antigamente. Ainda hoje ao pequeno-almoço perguntava ao meu marido que dia era.

Houve um agravamento da desregulação dos seus horários, portanto. Como é que isso a afetou?

Já fiz 50 anos, e sinto cada vez mais esse agravamento. Principalmente mental e psicológico. E tive de perceber por mim própria, porque a minha organização também não fomenta nada desse tipo de coisas, da saúde mental e dos riscos. E nós não é só o trabalhar por turnos. O nosso trabalho é um trabalho que vai ao limite. Nós temos muita pressão psicológica, muita pressão comportamental. Estamos a trabalhar muitas vezes com a vida das outras pessoas, porque tudo está em perigo e elas ligam para nós a pedir-nos ajuda e muitas vezes é fácil nós sermos capazes de lidar com isso e fazer esta gestão. Sair do trabalho e ficar bem a seguir. Às vezes também não é fácil, mas isso qualquer trabalhadora se sente assim, até por toda a conjuntura que estamos a viver: a valorização salarial, os nossos chefes que não querem saber de nós. Fomos integrados há três anos na função pública, como assistentes técnicos e não temos nada. Não havia carreira para nós e pronto, é mais uma desvalorização àquilo que nós fazemos.

Falou de um stress que é muito específico ao seu trabalho. Acha que isso agrava ainda mais o desgaste do trabalho por turnos?

Claro que sim. Tudo isso desgasta. Na altura que está a acontecer aquela ocorrência ou aquelas ocorrências, não é fácil uma pessoa manter o discernimento e o foco. É de estar concentrado só naquilo e de conseguir ser o melhor possível para as pessoas e mesmo para os bombeiros que nos estão a pedir meios. E tudo o que pode imaginar. E depois, quando voltamos para casa, desligarmos daquilo e esquecermos aquilo que aconteceu, esquecermos aqueles gritos que ouvimos, aquelas horas que tivemos constantemente ao telefone. O telefone nunca parou de tocar com pedidos de ajuda e às vezes não é fácil dar a volta a isso.

Acha que esse sentimento de burnout é generalizado aos seus colegas profissionais?

Eu acho que não é identificado por grande parte das pessoas, mas é generalizado. Só está diagnosticada uma pessoa, que andou de baixa muito tempo, mas é uma constante. Nota-se pelo desinteresse. Mas a grande parte das pessoas não identifica isso e não consegue arranjar estratégias para lidar com isso da melhor forma. Nós cansamo-nos fisicamente quando estamos 12 horas no mesmo local de trabalho. São 12 horas sentado. Uma das minhas estratégias foi fazer uma caminhada ou fazer uma meditação, e frequentemente tento-me levantar e fazer algo para movimentar o meu corpo.

Ainda em relação à família, como é que se lida com o facto de não ter fim-de-semana ou trabalhar de noite?

Não é fácil, principalmente psicologicamente e mentalmente. Eu lembro-me perfeitamente, de a minha filha depois de eu ter começado a trabalhar, ficava sempre a chorar em casa. E eu saía a chorar. Ao fim-de-semana, grande parte das vezes o meu marido está em casa. Eventualmente se o meu marido também estiver de serviço vão para a casa da minha mãe. Mas lá está, estou num momento da minha vida que estou muito saturada dos turnos, por isso mesmo, porque quando os meus filhos estão em casa, muitas vezes é quando eu cá não estou. Mas pior ainda é a noite de consoada, a Páscoa, o Carnval. Isso é muito mais complicado ainda. Eu por mim, se pudesse, nunca fazia nenhum desses dias. Porque depois todos os pais estão em casa com os filhos, só eu é que nunca estou em casa.

Em termos de condições laborais, acha que justificam o trabalho por turnos?

Não me sinto valorizada. Se houvesse uma boa liderança, que se preocupasse connosco, se calhar era melhor. E o dinheiro é muito importante. Nós temos de estar sempre a tentar fazer outras coisas. Quer eu, quer o meu marido, porque senão só com o nosso ordenado não conseguíamos. Só pagávamos contas. E por isso temos sempre de tentar complementar com outras coisas que vamos fazendo. Mas como eu estava a dizer, se houvesse uma preocupação connosco, se contratassem talvez uns gabinetes de psicologia. A entidade devia preocupar-se com esta questão, porque esta é a questão mais importante. É a saúde mental de quem ali trabalha 365 dias por ano.

Acha que com mais gente a trabalhar, os turnos poderiam ser reduzidos?

Falta gente em todos os sítios da função pública, não é? Poderia aliviar se houvesse mais pessoas e que aí fosse possível, mas depois as 8 horas têm outras desvantagens, que é entrar à meia-noite e sair à meia-noite.

A valorização salarial faria diferença para si?

Sem dúvida alguma que faria toda a diferença, não é? Infelizmente ninguém se junta para tentarmos também reivindicar melhores condições laborais, quer em termos de trabalho, quer em termos de horários, que quer em termos de salários. Ninguém nos dá valor, ninguém dá valor àquilo que nós fazemos