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O acordo de May para o Brexit vai sobreviver? A teoria dos jogos tem uma resposta

Theresa May tem de convencer pelo menos uma das duas fações dos conservadores críticos do acordo com a UE a aprová-lo. Colocá-los perante o “dilema do prisioneiro” poderá ajudá-la? Artigo de Nicos Georgiou.
Theresa May
Theresa May no Conselho Europeu em março de 2017. Foto União Europeia ©

A União Europeia pode ter aprovado o acordo de saída de Theresa May, mas conseguir que os seus próprios deputados também o aprovem parece impossível. E a sua abordagem é confusa. Por um lado, tem dito aos deputados pró-permanência na UE que têm de votar a sua proposta, caso contrário não haverá acordo nenhum. Por outro, vai avisando os eurocéticos de que podem vir a enfrentar um novo referendo, a menos que apoiem o seu acordo. Como já foi sublinhado, ambas as ameaças não podem ser verdadeiras em simultâneo; ou a primeira-ministra ficou maluca ou há uma razão para agir assim.

Partindo do princípio que é esta última hipótese, por que raios esta seria uma estratégia viável? Os matemáticos mostram-nos uma forma de entendermos a situação. Na teoria dos jogos, há uma coisa chamada o dilema do prisioneiro que pode ajudar a explicar o que está May a tentar fazer. Este jogo específico mostra que dois jogadores racionais — neste caso, os prisioneiros — irão escolher denunciar um ao outro, mesmo que pareça que seria do seu interesse cooperarem.

Eis como funciona: dois ladrões foram presos por um assalto a uma joalharia. São culpados, mas a polícia não consegue encontrar as jóias e não há provas conclusivas que os liguem ao crime. A polícia precisa por isso de uma confissão. Cada prisioneiro tem duas estratégias — culpar o parceiro ou ser-lhe leal. Se ambos apontarem o dedo um ao outro, serão os dois condenados a quatro anos de prisão. Se ambos ficarem calados, as provas circunstanciais irão levá-los à prisão durante um ano. Se um cooperar e o outro não, o que ficar calado apanha cinco anos de prisão e o denunciador sai em liberdade.

The Prisoner's Dilemma

Estas regras são do conhecimento dos ladrões e a polícia mantém-os em salas separadas. E agora o paradoxo revela-se. Cooperar e permanecer leal seria a melhor escolha para eles enquanto par, pois levaria ao mínimo de tempo de prisão (dois anos ao todo). Mas para o indivíduo, é mais complicado. Se confias no teu parceiro para cooperar, mantendo-se em silêncio, o melhor será denunciá-lo e saíres em liberdade. E se não confias no teu parceiro, então deves mesmo denunciá-lo.    No fim das contas, o preço de ficar calado é o mais elevado, com cinco anos na prisão. Por isso, os jogadores racionais irão sempre denunciar em vez de cooperar.

Embora contra-intuitivo, isso funciona porque os números estão manipulados. O dilema do prisioneiro não iria necessariamente levar os prisioneiros a denunciarem-se no caso em que se ambos confessassem, por exemplo, fossem para a prisão durante dez anos (em vez de quatro) e apanhassem um a cinco anos de prisão por estarem calados.

O dilema dos deputados conservadores

O dilema do prisioneiro pode servir de modelo a muitas situações políticas e sociais. Com a estratégia do Brexit, o papel dos prisioneiros está entregue às duas fações conservadoras, os Remainers e os Brexiteers. Cada grupo tem a escolha de votar a favor ou contra o acordo — cooperando ou não. O preço de cada decisão é um preço político.

Se ambas as fações votarem contra o acordo, haverá um preço político a pagar, já que o acordo será provavelmente chumbado. Mas não é nada claro o que vai acontecer em seguida. Isso pode desencadear uma eleição para a liderança, eleições gerais, um novo referendo ou acabar sem nenhum acordo. Todos os deputados gostam de pelo menos um destes desenlaces — então se todos acharem que há uma boa hipótese de terem o que realmente querem (o que é impossível), o preço político será entendido como baixo.

Se ambas as fações votarem a favor do acordo, há uma grande probabilidade de ser aprovado (há sempre uns deputados do Partido Trabalhista dispostos a votar contra a linha da direção). Cada um dos grupos conservadores pode lançar ao outro as culpas pelo “mau acordo” que foram “obrigados” a assinar, mas pode ser vista como uma estratégia mais cara, pois todos têm uma enorme aversão a uma parte do acordo. Então parece que a melhor aposta seria as duas fações cooperarem para votarem contra o acordo.

Mas a primeira-ministra pode colocar os seus deputados numa situação de dilema do prisioneiro para se assegurar que eles não cooperam para afundar o seu acordo. Pode fazê-lo convencendo ambas as fações de que votarem a favor do acordo será bom para uma e mau para a outra. Para o conseguir, teria de manipular o valor do preço a pagar, para que seja maior se votarem contra do que se votarem a favor — independentemente do que os seus opositores do outro grupo venham a decidir. Desta forma, se ambas as fações se comportarem da forma mais racional possível, iriam acabar por votar a favor, não apenas para pôr o outro grupo em sarilhos, mas também para salvar a sua face.

May já está a dizer aos deputados que se votarem com ela terão o que querem (ou melhor, não terão o que não querem). O outro grupo pode ser apontado como fanáticos ou inimigos do povo (dependendo da fação com quem ela está a falar). A modulação do preço envolve retirar da mesa a opção preferida de cada equipa — levando os Remainers a pensar que um segundo referendo é impossível e os Brexiteers a acreditar que a UE nunca irá melhorar os termos do acordo — o que é exatamente o que a primeira-ministra tem feito.

Para o dilema do prisioneiro, as premissas são simples: dois jogadores agem racionalmente de acordo com o seu interesse e só há duas estratégias possíveis em jogo. Se cada grupo acreditar no que May lhes anda a dizer — ou é o seu acordo ou não há acordo — então ela colocou o dilema do prisioneiro na perfeição. Os Remainers irão apoiar o acordo enquanto escolha com o menor preço político e o único que impedirá os Brexiteers de conseguirem um cenário de nenhum acordo. Os Brexiteers irão apoiá-la também, em parte para impedir os Remainers de conseguirem um segundo referendo.

Então se May for persuasiva, a teoria dos jogos sugere que o acordo vai passar. Claro que este é apenas um de vários modelos matemáticos. E há algumas premissas envolvidas que podem não apanhar por inteiro a complexidade da realidade. Os jogadores não são indivíduos, mas grupos. Cada deputado tem níveis diferentes de ambição e de dedicação ao país. E a maior questão de todas é se ela conseguirá garantir que as suas fações irão agir racionalmente. Afinal de contas, o Brexit é um assunto com enorme carga emocional.


Nicos Georgiou é professor de Matemática, Probabilidade e Estatística na Universidade do Sussex. Artigo publicado no portal The Conversation. Tradução de Luís Branco para o esquerda.net.

 

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