Novas gestões dos hospitais entregues a ex-autarcas do PSD

09 de janeiro 2025 - 17:52

A vaga de exonerações das direções das Unidades Locais de Saúde deu lugar à nomeação de militantes laranja para os mesmos cargos em mais de metade dos hospitais onde houve dança de cadeiras.

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António Gandra d'Almeirda e Ana Paula Martins
António Gandra d'Almeirda e Ana Paula Martins

São antigos vereadores, deputados municipais e militantes do PSD a chegar à administração em mais em mais de metade das nove direções das Unidades Locais de Saúde nomeadas desde o início do mandato da ministra Ana Paula Martins.

As contas foram feitas na investigação publicada esta quinta-feira na revista Sábado. Desde que deu posse a Gandra d’Almeida à frente da direção executiva do SNS, o antigo vogal do Conselho Sub-regional do Porto da Ordem dos Médicos tem exonerado e nomeado novas administrações de Unidades Locais de Saúde (ULS) a grande ritmo. E mais de metade das novas administrações têm em comum a presença de figuras que já estiveram ligadas ao poder local laranja e nalguns casos sem qualquer experiência prévia no setor da saúde.

A colocação de figuras ligadas ao partido do Governo nestes cargos de nomeação não é inédita. A ULS da Lezíria, que abrange os concelhos do distrito de Santarém, foi uma das três que viu o conselho de administração exonerado entre o Natal e o Ano Novo. E a administradora exonerada, ex-candidata do PS à Assembleia Municipal de Santarém deu agora lugar a um ex-vereador do PSD em Abrantes. Neste caso, o novo administrador vai beneficiar da experiência adquirida na ilha Terceira, onde presidiu à administração do Hospital do Santo Espírito. Também em Leiria, vários autarcas laranjas ocuparam a administração nomeada a poucos dias do final de 2024, incluindo um ex-deputado municipal na liderança e duas ex-vereadoras na sua equipa.

De norte a sul, o cenário repete-se: na Guarda a ULS passa a ser liderada por uma militante do PSD que foi chefe de recursos humanos nas autarquias laranjas da Guarda e Figueira de Castelo Rodrigo, passando para o gabinete jurídico da ULS que agora vai dirigir; em Almada/Seixal o nome escolhido para substituir o atual presidente é um médico da CUF militante do PSD em Almada; e em Faro, a ULS Algarve conta agora com o líder da bancada do PSD na Assembleia Municipal de Faro à frente da sua gestão.

Apesar das críticas feitas no Parlamento às “lideranças fracas” das administrações hospitalares, a ministra da Saúde não tem formalmente o poder para exonerar e nomear administradores. Ele cabe ao diretor executivo do SNS, um cargo criado pelo anterior Governo que também serviu para blindar o poder político das críticas sobre a colocação de “boys” nestes cargos. Mas no caso de Ana Paula Martins, esse efeito fica enfraquecido pelas suas ligações e do seu núcleo próximo ao grupo que dirige a secção regional do Norte da Ordem dos Médicos, em cujas listas fizeram parte o diretor executivo do SNS que nomeou e agora nomeia os dirigentes da ULS (Gandra d’Almeida), a sua secretária de Estado da Saúde (Ana Povo), o próprio líder da secção regional do Norte da Ordem dos Médicos, por si escolhido para elaborar o plano de emergência do Governo para o SNS (Eurico Castro Alves) e o médico que nomeou para presidir à nova Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente (Alberto Caldas Afonso).