Feminismo

“Novas Cartas Feministas” juntaram ativistas e académicas em Braga

28 de março 2026 - 20:06

Organizadas pelo Bloco de Esquerda e The Left, as jornadas femininas deste sábado em Braga foram um espaço de encontro, reflexão e diálogo sobre os desafios contemporâneos das lutas feministas.

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Joana Neiva

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Catarina Martins nas jornadas "Novas Cartas Feministas"
Catarina Martins nas jornadas "Novas Cartas Feministas". Foto de João Azevedo

A primeira edição das Novas Cartas Portuguesas foi recolhida e destruída pela censura apenas três dias após o seu lançamento. Sob a ditadura de Marcello Caetano, foi instaurado um processo judicial contra as três autoras, acusadas de escrever um livro de “conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”.

Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa foram interrogadas pela PIDE/DGS. Separadamente. E recusaram-se – sempre – a dizer quem tinha escrito o quê. O julgamento iniciou-se a 25 de outubro de 1973 e só não terminou porque foi interrompido pela Revolução de 25 de Abril.

Contudo, esta história não começa no tribunal. Começa antes. Começa com palavras. E começa, também, com violência. Maria Teresa Horta foi agredida na rua por escrever. Atirada ao chão. Espancada. Com uma frase que ficou: “Isto é para aprenderes a não escreveres como escreves.” E, ainda assim, escreveram. Escreveram juntas. Escreveram em cumplicidade. Escreveram recusando a autoria individual, afirmando o coletivo. Anos mais tarde, já em democracia, Maria Teresa Horta dizia: “Sabíamos das consequências que ia ter, mas nunca nos arrependemos, nenhuma de nós. (…) Foi uma coisa maravilhosa.”

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Talvez porque, no meio da violência, havia também outra coisa: amizade, cumplicidade, irreverência. Mulheres a escrever juntas. A fazer aquilo que lhes diziam que não podiam fazer. Talvez seja isso que hoje retomamos aqui. Porque as Novas Cartas Feministas afirmaram-se, ao longo do dia, como aquilo que profundamente são: um espaço de encontro, de reflexão e de diálogo sobre os desafios contemporâneos das lutas feministas. Um espaço onde ativistas, académicas e profissionais se cruzam – não apenas para falar, mas para escutar, tensionar, construir.

Ao longo do dia, percorremos temas que não são abstratos – são urgentes, concretos e profundamente políticos. Falámos de políticas feministas e justiça social, lembrando-nos que não há igualdade sem transformação estrutural. Refletimos sobre saúde pública e direitos fundamentais, reconhecendo que o acesso à dignidade continua a ser desigual. Trouxemos para o centro o trabalho, a precariedade e as dinâmicas de poder, nomeando as formas como os corpos, sobretudo os corpos não masculinos, continuam a ser explorados e controlados. E olhámos para a qualidade de vida, para as desigualdades e para a saúde mental, lembrando que o sofrimento não é individual quando as suas raízes são coletivas.

Essa é uma das ideias mais fortes que levamos das Novas Cartas Feministas: não há libertação individual sem libertação coletiva. Num mundo que insiste em isolar, em fragmentar, em individualizar a responsabilidade, espaços como este tornam-se não apenas importantes – tornam-se necessários. Porque é no diálogo, no debate e até no desconforto que criamos possibilidades de mudança.

Mais, se este evento foi espaço de reflexão, ele convoca-nos também para a ação. Que significa, na prática, construir um feminismo que não deixa ninguém para trás? Que alianças estamos dispostas a criar – e quais precisamos de repensar? Que sistemas estamos verdadeiramente disponíveis para desafiar?

As vozes das mulheres palestinianas lembram-nos que o feminismo que queremos construir não pode ser neutro, nem confortável, nem desligado das lutas pela descolonização. A solidariedade não é um gesto simbólico, é um posicionamento político.

Para terminar, é importante voltarmos às palavras que deram origem a tudo isto. O primeiro texto das Novas Cartas Portuguesas, datado de 1 de março de 1971, termina assim: “Procuramos o que não nos faria recuar, o que não nos faria destruir (…). Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento (…). Só de vinganças faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?”

Talvez seja essa a pergunta que levamos connosco após o evento. E de nós, o que faremos?

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