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"A nossa esperança está hoje na força da geração que se levanta pelo clima"

No segundo comício da campanha presidencial, Marisa Matias abordou os desafios climáticos e anunciou o compromisso “com uma presidência de emergência climática" e a não promulgar "qualquer legislação que aumente as emissões de gases com efeito de estufa”.
“Os governos fingem reconhecer a ciência, mas preferem fazer habilidades com números. Não nos devemos enganar, cortar 50% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030 implica uma revolução sem precedentes na história da Humanidade”.
“Os governos fingem reconhecer a ciência, mas preferem fazer habilidades com números. Não nos devemos enganar, cortar 50% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030 implica uma revolução sem precedentes na história da Humanidade”. Foto de António Cotrim, Lusa.

“Dediquei muitos anos da minha vida de ativista e também a minha vida científica às questões ambientais”, lembrou Marisa Matias no comício desta segunda-feira com transmissão online a partir da Estufa Fria, em Lisboa. “E sempre na perspetiva de associar a justiça ambiental à justiça social, porque uma e outra são parte integrante do mesmo problema”.

Marisa abordou o que considera ser o tema que “permite um encontro de gerações: gerações de pessoas que não desistiram toda a sua vida de lutar pela justiça social, e que alertaram a devido pela emergência climática”, por um lado, e por outro “os jovens e as jovens que têm ocupado o espaço público, e às quais temos de dar atenção porque esta é a luta das nossas vidas”.

“Nos últimos anos, os jovens de Portugal participaram numa autêntica revolução pelos direitos das pessoas: mobilizaram-se na absoluta rejeição do racismo, afirmaram nas ruas uma onda feminista, sa bandeira da igualdade entre mulheres e homens, a bandeira da luta contra as discriminações por motivo de orientação sexual e de identidade de género”, afirmou.

“Julgo que os jovens têm de ser fonte de inspiração para quem quer a mudança na sociedade, e vejo-os serem pouco escutados”, prosseguiu. “Mas o tema em que esta revolução pelos direitos é mais inspiradora é, precisamente, a luta pelo direito ao futuro na denúncia da injustiça climática”.

“Tenho conhecido muitas e muitos ativistas motivados pelo apelo contra as alterações climáticas. Alguns ainda não têm idade para votar, mas assumem as causas do seu futuro que são as causas do futuro de todos e todas nós. E isso é uma força inabalável”.

“É por isso que estranho tanto uma certa sobranceria dos representantes políticos sobre as gerações mais jovens. Se eu fosse presidente da República, teria ido ao encontro dos milhares de jovens pelo clima que responderam ao apelo de Greta Thumberg. É um alerta de sobrevivência que deve ser reconhecido e valorizado. E para isso, era preciso ter estado lá”.

A queda de Trump abre novos caminhos

“Esse movimento por justiça climática como vimos recentemente, foi, nos próprios Estados Unidos, a par do movimento Black Lives Matter, um interveniente essencial para o derrube de Donald Trump através do voto. E, na queda de Trump, foram derrotados também todos aqueles que, ainda hoje, continuam a querer negar as provas das alterações climáticas. Também os temos por cá e, também nestas eleições, e continuam a afirmar o seu delírio”.

“A ciência pode discordar quanto à previsão exata do “quanto” e do “quando” deste fenómeno, mas negar hoje as alterações climáticas é absolutamente ridículo”, alerta. 

“Com a queda de Trump, a disputa deixa finalmente de estar entre os negacionistas e os outros, mas situa-se claramente entre as diferentes visões da estratégia a seguir”.

“O regresso dos Estados Unidos da América ao Acordo de Paris é, sem dúvida, uma boa notícia. Mas diz-nos muito pouco sobre o futuro. Porquê? Porque os paladinos do acordo de Paris, como os governos europeus, continuam a fazer de conta que o Paris é suficiente. E não é. Esses objetivos do Acordo de Paris são aqueles que a Europa quer cumprir. E não chegam”. 

“É por isso que a nossa esperança está hoje na força da geração que se levanta pelo clima e pelo direito ao futuro. Porque sabemos que o que está escrito no papel já não é suficiente para responder a esta exigência”, continuou por dizer.  

“No preâmbulo do Acordo de Paris, estava fixado o objectivo de manter o aumento de temperatura até 2100 abaixo dos 2ºC, de preferência 1,5ºC. Ora, na sequência do Acordo, foi publicado em 2018 o relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas. Este relatório esclareceu o que significam os objetivos de Paris: é preciso cortar 50% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030”.

A União Europeia “anunciou um corte de 55%. Está tudo bem, então? Não. É preciso lermos as letras miudinhas do acordo que foi avançado pela propaganda europeia: o corte anunciado compara com a década de noventa e não com a década de 2010, como faz o Painel Intergovernamental”, denuncia Marisa.

“Quando a Dinamarca anuncia que não vai atribuir mais contratos de petróleo e gás, isso significa que admite explorar petróleo e gás no Mar do Norte durante mais 30 anos”.

“Em 2030 a União Europeia deve poder emitir perto de 900 MT de dióxido de carbono equivalente, mas a proposta de Van der Leyden é emitir 2500 MT, um erro de 170%. Com a atmosfera não se pode negociar. Resultado: os cortes europeus estão muito abaixo do necessário para cumprir sequer os objetivos de Paris”.

“Os governos fingem reconhecer a ciência, mas preferem fazer habilidades com números. Não nos devemos enganar, cortar 50% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030 implica uma revolução sem precedentes na história da Humanidade”.

O "capitalismo verde" não é a resposta

“Há quem ache que o sistema económico atual será capaz de lidar com o problema. Há quem acredite no “capitalismo verde” como aposta na alteração individual dos comportamentos sem colocar em causa os modos de produção e de consumo, sem afetar os mercados que especulam sobre recursos naturais ou os lucros das empresas que continuam a explorar recursos fósseis ou utilizam energias poluentes”, apontou a candidata.

“Esta visão, que dominou até hoje, foi bem sucedida a criar novas áreas de negócio mas falhou na proteção do planeta. Em tempos de emergência climática, a função do presidente da República é essencial para determinar os impactos climáticos positivos de todas as medidas de política pública. A transição energética é parte essencial da resposta à crise. E não falo da crise climática, mas sim da crise económica e social”, prosseguiu Marisa antes de deixar um compromisso "com uma presidência de emergência climática e a não promulgar qualquer legislação que aumente as emissões de gases com efeito de estufa, nomeadamente se admitir novos projectos de combustíveis fósseis, expansão das infraestruturas poluentes ou subsídios a estas indústrias”.

Para Marisa. a transição energética não pode ser temida como uma ameaça ao emprego. A candidata apontou baterias à "demagogia do governo no caso do encerramento da refinaria de Matosinhos: em vez de fazer da transição energética uma política de emprego para salvar o clima e a economia, o governo usa a transição energética para branquear as decisões da Galp para aumentar lucros e despedir trabalhadores”.

“Pelo contrário, prevenir a catástrofe e defender as pessoas é desenvolver e eletrificar o transporte público, ferroviário e rodoviário; é adaptar o território e a produção, com uma nova política agrícola e florestal, é proteger os recursos hídricos, é eliminar os plásticos descartáveis e de uso único, acelerar a transição para as energias renováveis, com foco na produção solar fotovoltaica descentralizada”, contrapôs.

Para Marisa Matias, "essa transição energética só é possível se for participada e concebida como uma oportunidade para a reconversão e criação de emprego, emprego de qualidade em setores com futuro e que contribuam para tornar sustentáveis a produção e o transporte, o nosso consumo, a nossa mobilidade. É esta mesmo a questão da nossa sobrevivência”, concluiu.

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