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A "Noite Sangrenta"

A “Noite Sangrenta”, episódio ocorrido entre o dia 19 e a madrugada de 20 outubro de 1921, encheu de horror a opinião pública nacional e internacional e marcou o futuro da I República de forma irreversível. Por Luís Farinha.

O sangue correu pela inconsciência da turba — a fera que todos nós, e eu, açulámos, que anda à solta, matando porque é preciso matar. Todos nós temos culpa! É esta maldita política que nos envergonha e me salpica de lama

(Cunha Leal, in Ilustração Portuguesa, nº 819, 29 de outubro de 1921)

Sob o céu das tempestades de aço, da chacina como produto industrial em grande escala, tinham restabelecido a individualidade levada ao limite, o culto heroico dos guerreiros antigos e aquele terror especial que só nos pode dar o esfaqueador que vai em pessoa à toca em que nos escondemos para nos matar com as próprias mãos

(Antonio Scurati, Mussolini O Filho do Século, Asa,2020, p. 24)

Na noite de 19 para 20 de outubro de 1921, uma “camioneta fantasma”, conduzida pelo cabo Abel Olímpio, o “dente de ouro”, e por praças do Exército, marinheiros, soldados da GNR e revolucionários civis circulou por Lisboa e procedeu ao assassínio de Machado Santos, o “herói da Rotunda” e de Carlos da Maia, também herói do “5 de Outubro” e ministro da Marinha de Sidónio Pais, alegadamente sob a instrução de uma “lista de limpeza” de 180 nomes de pessoal político e altos quadros da Administração Pública, bem como da elite financeira. Umas horas antes, marinheiros desmandados e revolucionários civis, com a ajuda de soldados da GNR, assassinavam no Arsenal do Alfeite António Granjo (Primeiro-Ministro demitido horas antes). Grupos da mesma natureza encarregaram-se ainda do assassinato de Freitas da Silva, oficial da Armada e chefe do gabinete do ministro da Marinha e de Botelho de Vasconcelos, coronel e colaborador de Sidónio Pais. Cunha Leal, um ministro da República que foi conduzido ao Arsenal da Marinha na companhia de António Granjo pelo guarda de marinha Benjamim Pereira, foi também ferido gravemente e salvo da morte, in extremis, pela ação decidida do tenente Agatão Lança. Integrando uma lista longa de nomes a abater, estavam igualmente outros ministros da República – António Maria da Silva, Álvaro de Castro ou José Domingues dos Santos, financeiros como Fausto de Figueiredo e industriais como Alfredo da Silva, que se salvou da morte, em Leiria, quando procurava “ausentar-se” do país. Grupos de menor impacto ficaram-se pela demanda de outras personalidades por lugares em redor de Lisboa: Seixal, Estoril, neste último local à procura do ex-sidonista Tamagnini Barbosa e do financeiro Fausto de Figueiredo, mas sem resultado. Os culpados materiais foram julgados e condenados em tribunal, de forma dura, tendo alguns deles só regressado à liberdade em 1946. Os responsáveis militares e políticos foram despronunciados ou absolvidos durante o mesmo processo, ocorrido em sede de Tribunal Militar Especial entre os anos de 1922 e 1923. O episódio foi utilizado posteriormente do ponto de vista político para catalogar de horrendo o “triénio trágico” da República (1918-1921) que se seguiu à participação na I Guerra Mundial, servindo igualmente de bitola para catalogar a I República de sanguinolenta e libertária.

Imagem icónica da Camioneta Fantasma

Nos limites da violência política

A “Noite Sangrenta”, episódio ocorrido entre o dia 19 e a madrugada de 20 outubro de 1921, encheu de horror a opinião pública nacional e internacional e marcou o futuro da I República de forma irreversível. Não porque a República não tivesse sido violenta desde o início — basta recordar a centena de mortos que resultou do confronto que opôs “democráticos” e “conservadores” durante a “Revolução de 14 de maio de 1915”. A razão do “escândalo” causado pelas seis mortes da “Noite Sangrenta” foi outra: o ato não tinha “responsáveis”. Uma espécie de fantasma negro e irreconhecível percorreu a cidade de Lisboa, sem uma voz de comando “séria”: não era o Estado e o seu aparelho repressivo o responsável, não era um partido ou um “comité revolucionário” e não era resultado de uma barreira defensiva contra um qualquer inimigo ou adversário. Era simplesmente o resultado da violência exercida por um bando de vingadores, munidos de armas e munições de forma incontrolada e transportados por uma “Camioneta Fantasma”, sem uma voz de comando reconhecível. A “rua”, que sempre tinha sido tratada com menosprezo, encarregava uns poucos dos seus, de assassinar os “inimigos”, sob a orientação da mais completa irracionalidade – ou da mais inexplicável racionalidade: como se poderia explicar que marinheiros tivessem participado no assassinato de Machado Santos, o tenente da marinha que conduziu a República à vitória na Rotunda? Seriam anti-republicanas estas forças desmandadas? Se não o eram, muitos motivos de queixa teriam contra ela porque, quando tiveram direito à fala, em processo judicial, os “assassinos” falam em regeneração da República, pela “limpeza” dos seus cancros.

Junta Revolucionária de 19 de Outubro de 1921

O que escandalizava é que parecia não haver uma “causa” racional, por mais razões que a imprensa e a opinião pública tentassem descortinar como motivos dos crimes: assassinava-se o liberal António Granjo no Arsenal da Marinha, ex-chefe do governo demitido há umas horas, só porque intentara contra a “linha revolucionária” e hegemónica do Partido democrático? Mas então por que razão se assassinava também no Largo do Intendente Machado Santos, o “herói da Rotunda”, um radical (controverso, sem dúvida), mas também anti-afonsista? Porque dera o seu contributo político ao consulado de Sidónio Pais? E que dizer do comandante Carlos da Maia, “herói” do 5 de outubro e ministro da Marinha demissionário de um dos governos de Sidónio Pais? E do coronel Botelho de Vasconcelos, igualmente um ex-colaborador de Sidónio Pais? Como descortinar a razão que levou ao assassínio do comandante Freitas da Silva, um chefe de gabinete do ministro da Marinha? O facto de alguns dos assassinados serem ex-sidonistas pode ajudar a compreender a razão dos crimes? Parece evidente à primeira vista, mas permanece a pergunta de saber quem mais seria assassinado se o desmando tivesse continuado.

Porque, se os ex-sidonistas aparecem como as primeiras vítimas, tal desiderato não explica todos os outros “encomendados” que parece terem estado de morte programada, principalmente nos casos daqueles que, como o “democrático” António Maria da Silva e o “reconstituinte” Álvaro de Castro se tiveram que recolher em segurança (ou mesmo fugir do país, como aconteceu no caso do primeiro). Para já não falar de José Domingues dos Santos, um homem da ala esquerda do PRP. Para complicar a equação, também capitalistas e financeiros como Fausto de Figueiredo e Alfredo da Silva estariam na “lista negra” — uma lista que, segundo a imprensa e as declarações posteriores dos implicados em tribunal, teria sido discutida em certos “clubes radicais” da cidade nos meses que antecederam o acontecimento. Alfredo da Silva foi, de resto, fortemente molestado em Leiria no dia 21, por amotinados que cercaram o comboio em que pretendia fugir do país. Com ausência de explicações credíveis e definitivas — apesar de todas as pistas fornecidas durante o julgamento pelo cabo Abel Olímpio, o “dente de ouro”, comandante da “camioneta fantasma”, e pela imprensa da época -, os circunstantes não tiveram dúvida na altura sobre a quem cabia a responsabilidade política. No funeral de António Granjo, o “popular” Cunha Leal explicava que “O sangue correu pela inconsciência da turba — a fera que todos nós, e eu, açulámos, que anda à solta, matando porque é preciso matar. Todos nós temos culpa! É esta maldita política que nos envergonha e me salpica de lama” (Ilustração Portuguesa, nº 819, 29 de outubro de 1921). Na mesma linha de explicações se encaixa a de Consiglieri Sá Pereira, um outro contemporâneo dos acontecimentos: “A noite sangrenta não é analisável em si, destacadamente. Quem o fizer encontrará apenas trevas. Ela marca o ponto extremo de uma colossal maré de ódios que cresce, ano por ano, desde velhos tempos” (PEREIRA, 1924, 11).

Quartel de Campolide com forças revolucionárias estacionadas

Será então assim tão importante saber quem foram (se é que os houve) os “mandantes” ocultos dos crimes — monárquicos, espanhóis, clericais, “democráticos”, franjas descontentes do Partido “democrático” ou outros? O facto em si e as suas consequências futuras para o devir da República são suficientemente importantes perdermos tempo com os “mandantes”. Antes de mais porque houve implicados diretos, e depois porque houve “culpados” indiretos, por absoluta omissão da ação de freio que deve incumbir aos responsáveis da ordem pública num Estado de Direito. Se os responsáveis políticos e militares tivessem assumido as suas responsabilidades, porventura teria sido diferente a ação da “rua” desmandada.

Na verdade, numa linha de ação que já vinha marcando o regime desde o assassinato de Sidónio Pais (dezembro de 1918), a governação republicana, atemorizada com a onda de violência que varreu o país no rescaldo da I Guerra Mundial, encomendou à GNR e ao Exército a repressão das greves e dos tumultos populares, sob a consigna de “Ordem e Trabalho!”, com consequente restrição de garantias e liberdades e com uma crescente descaracterização do “regime democrático” que, retoricamente, afirmava querer refundar. A “Noite Sangrenta” levou ao aprofundamento da deriva anti-democrática do regime republicano e ajudou decisivamente a fundamentar a necessidade de uma ditadura para defesa da ordem e da segurança..

Por isso, tanto quanto o acontecimento em si, interessa, muito especialmente, compreender de que modo se atingiu um tal grau de violência política e qual a natureza dessa violência: se política e social ou simplesmente terrorista e criminosa. E, sendo assim, que efeitos políticos teve, nos tempos imediatos e no longo prazo. Nos anos mais próximos, fica por saber a razão porque não foi reaberto o processo no momento em que houve declarações incriminatórias graves e contundentes em 1926, já durante a Ditadura Militar. E, numa outra vertente, as repercussões decorrentes da utilização política que foi dada aos acontecimentos ao longo do séc. XX, durante o Estado Novo.

Major José Cortês dos Santos, membro da Junta Revolucionária

“Factos desvairados” ou a banalização da violência — o “Triénio Trágico” (1918-1921)

Em Portugal, como de resto nos restantes países europeus, os povos viram as suas esperanças democráticas completamente defraudadas, apesar das grandes discussões sobre as condições da paz, da democracia e das fronteiras que envolveram os Aliados na Conferência de Versalhes e nos seus próprios parlamentos nacionais. O estabelecimento e a retificação das fronteiras das novas nacionalidades saídas dos ex-impérios austro-húngaro e turco, obrigaram milhões de nacionais húngaros e arménios a serem colocados sob o domínio estrangeiro ou a deslocarem-se para novos territórios, sob o efeito de ameaças ou de violência genocida. Na Alemanha, o sonho de uma revolução à russa, sob os efeitos da III Internacional de Moscovo terminaram num banho de sangue e os seus líderes, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, liquidados por tropas fiéis ao regime social-democrata de Friedrich Ebert, no início de 1919. Mas também a República alemã de Weimar, de orientação social-democrata, viria a sucumbir perante a ascensão do nazismo, em 1933. Como aliás aconteceria em Itália, com a criação dos fasci di combattimento (1919) que, conquistando 35 lugares no Parlamento (1921), colocaram Benito Mussolini, o seu líder, à frente do novo movimento fascista — um abalo político anti-democrático que recorreu ao desmantelamento do Estado liberal, com recurso à violência de milícias armadas.

Junta Revolucionária em ação de defesa

Por toda a Europa, ao armistício de 1918 seguiu-se, pois, uma guerra civil intermitente (TRAVERSO, 2007), (e nalguns casos violenta, como aconteceu na Rússia Soviética), o que leva autores como Immanuel Wallerstein a considerar o período de 1914 a 1945 (fim da II Guerra Mundial) como a “terceira guerra dos 30 anos” na Europa.

A sociedade europeia vivia um período de desvalorização da vida humana e de psicose da violência, como não havia memória, depois de um séc. XIX de relativo apaziguamento. Em Portugal, como igualmente em muitos outros países beligerantes, a participação na I Guerra Mundial tinha redundado numa enorme frustração coletiva, com milhares de mortes, feridos e gaseados ou mutilados. Tanto ou mais que noutros países invadidos onde a justificação “defensiva” podia fazer algum sentido, esta frustração foi ainda acrescida de uma enorme incompreensão quanto ao sentido e valor da intervenção, desencadeada fora de território nacional, a muitos quilómetros de distância e com fracos recursos materiais.

Movimentações das forças Outubristas no Rossio

A ordem pública, associada à questão das subsistências, e a resolução do “problema político”, que o sidonismo apenas veio complexificar, apresentavam-se como os dois magnos problemas da refundação da República democrática em Portugal. Os “anos loucos portugueses” não seriam muito diferentes daqueles que ocorreram pela Europa fora: da França à Hungria, da Alemanha à Itália, as aspirações democráticas dos povos esbarraram com uma crise económica e social profunda e duradoira. Neste quadro de disrupção social, muito propício às soluções revolucionárias (tanto sindicais como políticas), diminuiu o espaço para as soluções democráticas.

O governo do coronel Maria Coelho governou ainda durante duas semanas após o golpe

A resolução do “problema político” exigia, pois, mudanças em dois domínios: no da eficácia de gestão da coisa pública e no da reforma do sistema partidário e constitucional. Porém, isso não foi possível porque o Partido Democrático continuava a dominar a vida política nacional. Era um partido de notáveis, sustentado por uma forte rede de interesses locais, ao contrário das “direitas constitucionais” — de evolucionistas e de unionistas —, com fraca implantação nacional e sem o apoio das direitas tradicionais, católicas e monárquicas, que apostaram, especialmente desde o Sidonismo, na queda da República ou na sua subversão.

Marinheiros revoltosos no Terreiro do Paço.

A recomposição partidária haveria de ter que esperar pelo Outono de 1919 e pelo ano de 1920, depois da eleição para a Presidência da República de António José de Almeida (06/08/1919) e após uma clarificação dos campos ideológico-políticos de evolucionistas, unionistas e sidonistas, alguns deles muito comprometidos com a experiência sidonista que a “Nova República” veio substituir pela força. Com a nova Presidência (1919-1923) foi aberto, em 1919, o campo para a reforma do Parlamento — tendo sido atribuído o poder de dissolução ao Presidente da República —, e para a eclosão de diferentes forças políticas, umas por cisão, outras por unificação. Por cisão formou-se, em 1919, o Partido Popular (de Cunha Leal), em 1920 o Partido de Reconstituição Nacional, ou Reconstituinte (de Álvaro de Castro) e em 1926 a União Liberal Republicana (de Cunha Leal); por unificação formou-se em 1920 o Partido Liberal (de António Granjo) e em 1923 o Partido Nacional Republicano (de Ginestal Machado e Cunha Leal). Outras forças, como o Partido Radical (1923), não chegaram nunca a ter representação parlamentar, embora tivessem tido um papel ativo nas diferentes intentonas e revoltas — mais de uma dezena — entre 1918 e 1926.

Revolucionários civis

Em 1920, foi facilitado o caminho ao novo Partido Liberal que, tendo promovido eleições em 10 de julho de 1921, garantiu, pela primeira e única vez, uma maioria relativa da oposição no Parlamento. Apesar da aparente acalmia criada pela possibilidade de uma rotatividade entre “conservadores” e “reformadores”, este primeiro ciclo da “Nova República” não trouxe a desejada estabilidade, tendo encaminhado o país para uma extrema debilidade do Estado e das instituições e para o golpe de Estado de 19 de outubro de 1921, que terminou na trágica “Noite Sangrenta”. Daí em diante, as direitas democráticas nunca mais deixaram de conspirar e de lutar por uma “ditadura temporária e regeneradora”, agregando a si as direitas anti-democráticas e fascizantes, estas últimas empenhadas na subversão do regime. A partir de 1923 sucederam-se golpes militares contra a situação, com relevo para a “Revolta de 18 de Abril de 1925” e para o “Golpe Militar de 28 de Maio de 1926”, que pôs fim ao regime republicano.

Alguns dos assassinados

Por outro lado, o problema da “ordem pública”, decorrente de uma crise económica e financeira profunda, radicava em problemas sociais com grande impacto nacional. Calcula-se que os bens de primeira necessidade tenham aumentado, entre 1914 e 1920, em cerca de 565%; por seu turno, os salários não teriam crescido mais de 353%. E, bem sabemos como estes números são sempre e só aproximações à questão social.

Uma tal crise inflacionista teve implicações devastadoras na malha social urbana onde, no mesmo espaço, os “novos-ricos” conviviam paredes-meias com a mais ingente pobreza.

Casa de Machado Santos. Cerimónias fúnebres

Fustigado pela guerra, pela fome e pela miséria, o operariado preparou-se para recuperar da situação política asfixiante a que o conduzira a ditadura sidonista, com centenas de sindicalistas presos e deportados, depois da tentativa de greve geral de novembro de 1918. Animado pelo espírito revolucionário que crescia na Rússia, na Alemanha e na Hungria, esse operariado combatera pela República na Serra de Monsanto (1919) contra os monárquicos, embora tivesse consciência que esta não era a República dos trabalhadores.

Durante o biénio de 1919-1921, a sua luta multiplicou-se por centenas de greves, particularmente no setor dos transportes, algumas de uma dimensão ameaçadora para a estabilidade do regime republicano. A União Operária Nacional transformou-se, em 13 de setembro de 1919, na Confederação Geral do Trabalho, uma central sindical que chegou a representar mais de 120 mil trabalhadores, número considerável para a época.

Munida de poderosos meios policiais e militares, a governação republicana conduziu uma dura ação de repressão e de desmantelamento do movimento sindical livre. Pelo final deste biénio, estava desfeito o efémero compromisso histórico que tinha aliado taticamente o movimento republicano revolucionário e o movimento sindical na Revolução de 5 de Outubro de 1910.

Cunha Leal discursa no funeral de António Granjo

Esta deriva autoritária da República foi, para além de um resultado da sua fragilidade governativa, uma evidência da sua incapacidade para resolver o “problema político” e o “problema social”. As sucessivas revoltas militares e as monumentais greves gerais de carácter revolucionário mobilizaram um grau de violência política de tal ordem que debilitaram o Estado e as suas instituições políticas e judiciais, tornando-as frágeis e incapazes de reagir, num quadro democrático, aos ataques ferozes da Finança, das oligarquias dominantes e da desordem social. É neste quadro de relativa anarquia que se debilita o pensamento democrático e as elites nacionais cedem ao “síndrome ditatorial”. A sua fragilidade conduziu à mobilização de poderosas forças militares (desmobilizadas da frente de guerra) e ao armamento (com armas pesadas) da GNR (Guarda Nacional Republicana). Desde a vitória sobre a “Monarquia do Norte” (1919) e até à queda da República, os militares nunca mais abandonaram a política, ou por serem chamados pelos partidos, ou por se considerarem providenciais na resolução dos problemas do regime: dos 25 governos que conduziram o país entre 1919 e 1926, 10 foram chefiados por militares (sendo um deles chefe da GNR), para além de ter sido muito significativa a participação dos militares como ministros e como deputados ou senadores.

Aos atentados pessoais e numerosos atentados terroristas, ocorridos no decurso de greves ou isoladamente, respondia o governo com um brutal “terrorismo de Estado”. Em 1919, na sequência da greve ferroviária, a institucionalização do “vagon fantasma” é um bom exemplo desta violência que opunha “os de baixo” à violência irrestrita do Estado: sindicalistas acorrentados ao primeiro vagon dos comboios e guardados pelas forças da ordem, circulavam pelas linhas de ferro do país, garantindo com a sua presença a anulação de eventuais sabotagens ou descarrilamentos.

Fragilidade do regime democrático e incapacidade governativa — um binómio explosivo

Estabelecido o quadro político-económico em que se desenrolou a “Noite Sangrenta”, convirá agora compreender a natureza dos acontecimentos de modo a, com base no conceito estabelecido de “violência política” na era contemporânea, podermos perceber dois problemas fundamentais que apresentámos na introdução do trabalho. O primeiro e mais importante centra-se sobre o dilema de podermos (ou não) incluir os acontecimentos no domínio do que considera classificar-se como “violência política”; o segundo, reside na problematização do próprio conceito de “violência política” e na sua capacidade de integrar formas de violência que, pelos seus contornos, se aproximam da violência comum, tanto nos objetivos e efeitos como na forma como foram tratados pela justiça dos diferentes regimes políticos — ditaduras ou democracias.

Lisboa era uma cidade vigiada pelas potências estrangeiras

Embora muitos cientistas sociais apontem dificuldades na definição do conceito de “violência política” — especialmente quando aplicado a um tempo longo e a regimes políticos diferentes —, uma ampla maioria concordará com a definição genérica que Tarquinio, (2011) sintetizou a partir de autores como Hibbs, (1973), Chesnais (1981), Tilly (1986) ou Gurr (2000). Na sua perspetiva, violência política seria toda a forma de perturbação, de destruição ou de violação (em forma de tumulto, de assassinato, de golpe ou de ato revolucionário) que utilizasse intencional e abusivamente o uso da força com a finalidade de alterar o stato quo político vigente.

A análise de Tilly (2003), não ignorando a complexidade e a imprevisibilidade dos atos violentos na política — a sua componente histórica e irrepetível —, enfatiza a coordenação dos atores em presença, os efeitos perversos sentidos do dois lados da barricada e, principalmente, aprofunda um conjunto de hipóteses teóricas (acompanhadas do suporte de numerosas fontes empíricas) que permitem concluir que, apesar de diversa, a “violência política” tem causas, natureza e efeitos semelhantes em diferentes conjunturas históricas.

Por isso, para estes autores, o problema principal está antes em perceber quando se reúnem as condições que desencadeiam a violência política, por que razão a violência se propaga por ondas (que podem prolongar-se no tempo) ou ainda que razões levam regimes tão diversos (democráticos ou autoritários) a conviver com níveis tão elevados de violência.

A interdependência (na realidade e no estudo/análise) entre a violência dos de cima (Estado, membros do governo, polícias) e a violência dos de baixo (trabalhadores, desempregados, marginalizados) parece ser inquestionável. Autores como Gurr (2000) recorrem à ideia de uma frustração social crescente para explicar os “estados de explosão”, tanto sociais como político-revolucionários.

Já Tilly (2003) é antes movido pela pesquisa dos mecanismos que permitam compreender as suas variações de ocorrência e amplitude, pela identificação dos processos que mais recorrentemente provocam essas variações, enfatizando assim a possibilidade de se poderem construir hipóteses teóricas definitivas sobre um campo de tão grande imprevisibilidade.

Partindo do princípio de que todos os governos utilizam a força — ditatoriais ou democráticos —, a Tilly só a violência lhe parece ilegítima, porque extravasa as liberdades e garantias universalizadas pelo moderno Estado de Direito, tendencialmente democrático, existente desde há cerca de dois séculos. Se assim é, por que razão, questiona-se o autor, os estados democráticos utilizam igualmente a violência política (particularmente a coletiva)? A resposta está, segundo Tilly, no facto de não poder confundir-se o grau de democratização com “capacidade governativa”. Com base nestas duas variáveis, constrói um diagrama que lhe permite arrumar, em quatro estádios diferenciados, graus variáveis de tirania e de cidadania. A “violência política” tenderá a manifestar-se nos estados com grande capacidade governativa e baixo grau de democratização (ditaduras ou regimes de transição revolucionária) e também em situações de baixa capacidade governativa e grande ingovernabilidade. Pelo contrário, tenderá a ser escassa em regimes democráticos com alta capacidade governativa e em regimes democráticos, embora com índice de governabilidade baixa.

Arrumadas as situações na base deste quadro teórico de Tilly, estaremos muito longe de poder classificar o nosso caso de forma simplificada, com base nas categorias de “democratização” e de “governabilidade”. Quando passamos à análise da realidade concreta, surgem outras categorias de análise que nos parecem tão ou mais relevantes que as duas mencionadas, a saber, a “quantidade”, a “magnitude”, a “intensidade”, o “grau de virulência” e até a forma como o facto foi aceite pela opinião pública e administrado pelas polícias e pelos tribunais.

No entanto, numa aproximação à Noite Sangrenta, não parece causar dúvida que, na “Noite Sangrenta”, estamos perante um dos casos que Tilly tipifica como potencialmente mais violento: politicamente, detetamos um baixo grau de democraticidade, embora potenciado pela violência típica de uma transição de regime, com características revolucionárias. Não nos esqueçamos que é no quadro político de um confronto entre “revolucionários” e “conservadores” que o episódio da “Noite Sangrenta” se inscreve. Os radicais que promoveram o golpe de estado de 19 de outubro de 1921 — e aos quais esta violência direta ou indiretamente ficou associada —, são eles próprios defensores do uso da violência, que proclamam no seu “manifesto” como uma das formas de interrupção justificada do curso constitucional normal, em nome do retorno à pureza revolucionária do “5 de Outubro de 1910”. A este quadro político-constitucional podemos juntar o baixo grau de governabilidade do regime: o governo liberal de António Granjo tinha sido demitido e o presidente da República recusara-se a nomear um novo governo, criando um grave vazio de poder que foi utilizado por franjas do poder revolucionário envolvidas no golpe, designadamente unidades da Marinha e da GNR. Este baixo grau de governabilidade foi ainda acentuado pelo facto de a “mudança de turno”, ocorrida uns meses antes, em julho de 1921, com a chegada dos “liberais” ao poder por eleições, ter constituído um fator de grande instabilidade. As reformas económicas e financeiras pretendiam introduzir um forte grau de rotura no curso normal da governação, mesmo sem existirem condições políticas para a sua exequibilidade.

Estavam, pois, criadas as condições básicas para o desencadear de episódios de violência. A quantidade de mortos provocados pelos condutores da “Camioneta Fantasma” não foi tão significativa como em muitos outros momentos da República. Porém, o grau de virulência e a magnitude adquiriram níveis inusitados: os mortos foram assassinados a sangue frio, com declaração expressa da intencionalidade dos crimes pelos assassinos e a escolha das vítimas recaiu sobre personalidades com responsabilidades políticas, de modo a criar alarme e repulsa pública, ou seja, a implantar uma situação de terror.

E foi justamente na forma como o episódio foi interpretado (ou obnubilado) na altura e nas décadas seguintes que ele deve ser interpretado como um episódio de “violência política”, e não apenas como um crime comum ou um episódio de pura vendetta. Tivesse ou não existido “lista negra” com intenção de assassinar adversários políticos, o que é um facto é que os assassinados são, quase maioritariamente, políticos com responsabilidade na condução do regime republicano e alguns são (ou foram) heróis da revolução e da “rua” republicana, como Machado Santos. Nos dias seguintes aos acontecimentos, a governação “outubrista” encarregou-se de desresponsabilizar os golpistas de 19 de outubro, como seria de esperar, não só porque assumiu a condução do “poder revolucionário” mas também porque alguns dos manobradores do golpe militar estiveram direta ou indiretamente ligados ao clima que favoreceu os atos violentos. Posteriormente, alguns dos radicais “outubristas”, como o próprio chefe do governo, coronel Manuel Maria Coelho, seriam presos e acusados de negligência no início de 1922.

Os acontecimentos atingiam de morte o coração da República. Um chefe do Governo, o coronel Liberato Pinto, estava a ser julgado em 1921, ao mesmo tempo que outros se preparavam para vir a sê-lo num futuro próximo. É, por isso, muito natural que os acontecimentos tivessem sido desvalorizados politicamente e que a causa se tivesse dirigido para a culpa dos assassinos diretos e assimilada a crimes comuns ou de pura vendetta. Na verdade, só o procurador — o general Óscar Carmona -, procurou contestar a absolvição dos responsáveis “outubristas”, em 1923, contrariando a manifesta falta de vontade do tribunal especial em condenar os responsáveis políticos dos acontecimentos (AHM, PROCESSO 5/22). Mas, também para o procurador — um homem cada vez mais comprometido com a direita parlamentar e extra-parlamentar —, o caso passava a interessar não para desvendar a “verdade” mas para denegrir o regime. Ao contrário do poder político instituído de liberais e democráticos, porque a estes convinha o silêncio — um silêncio que ajudasse a manter o regime sem grandes convulsões.

Crime e castigo. Todos saíram condenados

É oportuno relembrar a fala do “liberal” Cunha Leal no funeral de António Granjo: “Todos nós temos culpa!”. “É preciso matar” era uma palavra de ordem que saía de todos os campos políticos — dos monárquicos aos setores radicais. O “19 de Outubro” não precisava de mandantes específicos porque os havia de todos os campos políticos. Foi uma pequena “guerra civil”, em registo de ópera bufa — ou melhor, de moteto trágico —, comandada pelo exacerbamento da luta político-partidária (nos clubes, no Parlamento e nos jornais), pela ausência de poder político legitimado (ou mesmo nomeado), pela ocorrência continuada de atentados, intentonas e golpes políticos, pela prática terrorista generalizada (nos meios sindicais, carbonários e das polícias secretas) e pelo municiamento exagerado e incontrolado da GNR, da polícia e da Marinha.

A escolha das vítimas não obedeceu — como não tinha que obedecer — a um plano político racional mas antes a uma lógica irracional de vendetta e de decisão individual ou de pequeno grupo, embora seja incontestável a existência de “listas de limpeza” a orientar a ação e de, aparentemente, o facto de os seis assassinados terem tido, em graus diferenciados, ligações ao Sidonismo, indiciar uma vontade deliberada de atingir políticos ex-sidonistas. Na verdade, mata-se em nome da “purificação da República” e encontra-se, posteriormente, alibis ocasionais para justificar a escolha de cada um dos assassinados. Em tribunal, alguns marinheiros implicados referem a repressão existente na Marinha, com prisões e deportações de antigos colegas às ordens da República.

A única lógica que subjaz aos acontecimentos é a de uma “matança” de elementos da direita liberal — com destaque para António Granjo, o único chefe de Governo da direita liberal a chegar ao poder através do voto durante toda a I República —, e por isso apodado de “monárquico”, bem como de outros elementos que tinham servido o regime durante o consulado de Sidónio. Os rumores ouvidos na imprensa e na “rua” sobre apoios de monárquicos, de católicos e de estrangeiros aos operacionais da “Noite Sangrenta”, devem, porventura, ser interpretados como elementos adjuvantes de uma tese conspirativa de contornos imprecisos e difíceis de discernir. Se agiram, fizeram-no, porventura, numa lógica de oportunismo político.

A responsabilidade no desenrolar dos acontecimentos dos golpistas de “19 de Outubro” (coronel Manuel Maria Coelho, comandante Procópio de Freitas e Camilo de Oliveira) é por demais evidente. De facto, foram absolvidos no processo que lhes foi levantado em 1922-23, por negligência, mas sem razão. Apesar de terem repudiado qualquer ligação com os executantes, são, pelo menos, responsáveis políticos pelo vazio de poder que criaram com o derrube do governo legitimado pelo voto de António Granjo, sem que tomassem providências para evitar os desmandos da “Noite Sangrenta”. Neste “descuido” (ou desleixo) é muito natural que tivessem tido grande responsabilidade as chefias da GNR, profundamente implicadas no golpe radical e que se mostravam dispostas a recuperar a face do seu chefe, o coronel Liberato Pinto, afastado da chefia do Governo em março de 1921 e preso e julgado uns meses depois. Contudo, também estas chefias intermédias foram desresponsabilizadas por toda e qualquer omissão na prevenção dos acontecimentos. O tribunal conduziu o processo no sentido de culpabilizar os condutores da “camioneta fantasma”, principais executores dos crimes, entre eles o cabo Abel Olímpio, o “dente de ouro”, que permaneceria encarcerado até fevereiro de 1946, o mesmo acontecendo a uma parte dos seus acompanhantes. Tratado o processo desta forma, a decisão do tribunal dava ao caso os contornos de um crime comum, sem qualquer significado político. E mesmo quando, em 1926, novos dados que indiciavam a existência de “mandantes” políticos foram apresentados, com a finalidade de reabrir o processo, nada foi feito.

No entanto, a partir de 1926, uma das teses explicativas, formulada logo nos primeiros tempos após os acontecimentos pelos apoiantes do regime, foi a de que a “direita” (comprometida com a contra-revolução) pretendia incentivar os dissídios entre republicanos para mostrar a inviabilidade do regime. À “direita”, pelo contrário, os acontecimentos foram muitas vezes utilizados, depois do “Movimento militar de 28 de maio de 1926”, como forma de justificar a rotura ocorrida, sendo o golpe apresentado como forma de regenerar a República, consumida pela violência e pela incompetência governativa. A decomposição política da I República (minada pela violência e pela ingovernabilidade) justificaria a implantação de um “estado de exceção” — uma ditadura temporária regeneradora -, que só poderia ter sido imposta pela força militar.

Em 1945, o argumento voltou a ser apresentado durante a campanha eleitoral para a Assembleia Nacional, num período em que as famílias republicanas e socialistas tinham constituído o MUD (Movimento de Unidade Democrática) para concorrer contra a UN (União Nacional).

Na verdade, este aproveitamento político dos acontecimentos de 19 de outubro de 1921 não explica nem justifica os acontecimentos, que foram, muito diretamente, da responsabilidade de republicanos e da “rua” republicana desmandada. Apenas serviram — e muito eficazmente — o advento da Ditadura Militar. Durante décadas, os acontecimentos da “Noite Sangrenta” constituíram um forte antídoto contra o advento de uma república democrática.


Fontes e bibliografia

Arquivos

TRIBUNAL MILITAR MISTO OU DE MARINHA ou TRIBUNAL DE 19 DE OUTUBRO DE 1921. Processos judiciais, Arquivo Histórico Militar (AHM).

Fontes impressas

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Imprensa

Capital (A), Lisboa, outubro de 1921.

Diário de Lisboa, outubro de 1921.

Ilustração Portuguesa, nº 819, 19 de outubro de 1921. Século (O), Lisboa, outubro de 1921.

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NOTA DO AUTOR: Este texto corresponde a uma adaptação de um outro do autor publicado em

https://run.unl.pt/handle/10362/34353?mode=full

Sobre o/a autor(a)

Ex-Diretor do Museu do Aljube Resistência e Liberdade. Investigador no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Termos relacionados Esquerda com Memória, Política
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