Depois de mais um fim de semana de bombardeamentos e ataques terrestres por parte das tropas israelitas, a Al Jazeera dá conta de 28 mortes na manhã de segunda-feira. A cidade de Khan Younis, no sul de Gaza, foi o principal alvo, com os bombardeamentos a atingirem também um armazém de material medico do Hospital Nasser, para onde se dirigiam muitos dos feridos pelas bombas. No norte de Gaza, o último hospital público, o Hospital Indonésio, foi obrigado a fechar portas no domingo ao ser alvo de ataques dos helicópteros israelitas. As entidades de defesa civil dizem que três quartos das ambulâncias estão paradas por falta de combustível, refere o diário francês Liberation.
Solidariedade
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Nas redes sociais, o primeiro-ministro israelita reconheceu ter sido pressionado pelos países seus aliados a propósito das imagens de fome em Gaza que estão a correr mundo, que lhe terão dito que “assim, não iremos continuar a apoiar-lhe”. Em resposta, deixou a promessa de irá deixar entrar um “mínimo” de ajuda, sem dizer quando, mas também que irá controlar toda a Faixa de Gaza, desta vez com a justificação de prevenir o “saque” dessa ajuda pelo Hamas. Esta segund-feira, o governo israelita autorizou a entrada de nove camiões de ajuda humanitária num território onde a ONU diz que meio milhão de pessoas, um em cada cinco habitantes, estão a passar fome.
Segundo a Al Jazeera, o plano de Netanyahu passa por entregar o controlo da distribuição à Gaza Humanitarian Foundation, uma organização sediada na Suíça e financiada pelos EUA e Israel, liderada por um ex-marine estadunidense. A organização diz estar pronta a entrar no terreno até ao fim do mês com quatro unidades de distribuição controladas por empresas de segurança privada e vigiadas pelo exército. As Nações Unidas recusam-se a trabalhar com esta organização por entenderem que o seu plano não é imparcial e independente.
“Àqueles que propõem um plano alternativo para a distribuição de ajuda, [respondemos que] não percamos tempo. Nós já temos o plano. Temos as pessoas. Temos as redes de distribuição. Temos a confiança das comunidades no terreno. E temos a ajuda em si - 160 mil paletes de ajuda - prontas a entrar. Agora”, afirmou Tom Fletcher, o responsável da ajuda da ONU, na passada sexta-feira.
Genocídio
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O responsável pelas operações da Oxfam em Gaza diz que a organização não conhece os detalhes deste plano com que os israelitas pretendem contornar as redes de ajuda que estão no terreno, mas garante que a organização não irá ser parte de um sistema que ponha em causa os direitos das pessoas que “neste momento não estão apenas com fome, estão traumatizadas, doentes e deslocadas”. E teme que entre a ajuda limitada que possa entrar não se incluam kits de higiene, combustível e material essencial para os hospitais ainda em funcionamento.
“Vemos a fome nos olhos deles”, disse à Al Jazeera o coordenador de segurança alimentar da Oxfam, Mahmoud al-Saqqa, que tal como a maior parte das outras organizações, distribuiu os últimos lotes de comida há algumas semanas.
Em Israel, o anúncio de Netanyahu também foi recebido com críticas. Dentro do executivo, os mais extremistas alinhados com o ministro Ben-Gvir dizem que é “uma tragédia” e que deixar entrar ajuda humanitária prejudica os esforços militares e é um obstáculo à libertação de reféns. Mesmo dentro do partido Likud, muitas vozes se opõem à entrada da ajuda humanitária. O jornal Times of Israel lembra que o ministro das Finanças Bezalel Smotrich tinha prometido sair do governo “se um único grão de ajuda humanitária entrasse [em Gaza] e chegasse ao Hamas”. Já o líder da oposição Yair Lapid voltou a defender que o Egito tome conta da administração do território de Gaza. “Se o governo de Israel tiver uma ideia melhor, ficaremos contentes por ouvi-la”, acrescentou Lapid, responsabilizando o executivo de Netanyahu por não apresentar uma estratégia para o futuro de Gaza.