Nasceu o Observatório de Estudos da Palestina, o primeiro nas universidades da UE

05 de novembro 2025 - 14:14

Num anfiteatro cheio do edifício 4 do ISCTE decorreu no final da tarde de terça-feira a apresentação do Observatório de Estudos da Palestina, uma iniciativa académica inédita na União Europeia e que pretende estender-se à sociedade civil.

porPedro Caldeira Rodrigues

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Sala cheia no ISCTE para o lançamento do OPal
Sala cheia no ISCTE para o lançamento do OPal.

O Observatório de Estudos da Palestina (OPal) surge num momento crucial e quando a sobrevivência deste povo está em risco crescente, como alertou Raji Sourani, natural de Gaza, advogado e diretor do Centro Palestiniano para os Direitos Humanos, a quem coube uma intervenção final por videoconferência. na sessão de lançamento da iniciativa no ISCTE, em Lisboa.

“Receia-se uma nova ronda de genocídio, de limpeza étnica, mais brutal, mais destrutiva, para expulsar o povo palestiniano da Palestina”, alertou na intervenção, após criticar o “plano Trump” para Gaza e o frágil cessar-fogo nele incluído.

Uma intervenção longa, onde sublinhou “ser estúpido” dizer que o conflito começou com o 7 de outubro de 2023, recordando as muitas décadas de expulsão, de ocupação, de discriminação, a “judaização de Jerusalém leste”, ocupada desde 1967, da Cisjordânia também ocupada desde essa data, da expansão dos colonatos, ou a mortandade que ocorreu durante a Grande Marcha do Regresso junto às vedações de Gaza, um protesto pacífico que decorreu entre 2018 e 2019 e onde foram mortos 223 palestinianos pelas forças israelitas, incluindo 43 crianças.

Com formação em advocacia, Raji Sourani também assinalou as “ferramentas legais” que podem ser utilizadas “face a este complexo conflito”, em particular a iniciativa do Governo da África do Sul junto do Tribunal Internacional de Justiça, acusando Israel da prática de genocídio. “Vergonha!”, contrastou o diretor do Centro Palestiniano para os Direitos Humanos, ao referir-se à posição dos Estados Unidos e da Europa face ao genocídio em Gaza.

Previamente, e na apresentação do projeto, destacaram-se Giulia Daniele, diretora do OPal e professora auxiliar do Centro de Estudos Internacionais (CEI/ISCTE) e Sara Roy, professora na Universidade de Harvard e responsável pelo Centro de Estudos do Médio Oriente, para além de uma intervenção, também por videoconferência, de Francesa Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinianos ocupados, que saudou a iniciativa.

Na perspetiva da sua diretora, de origem italiana, o OPal tem como principal objetivo garantir uma visão interdisciplinar sobre a questão palestiniana do ponto de vista histórico, político, social e económico.

Para tal, foram garantidas parcerias com universidades no estrangeiro que abordam o tema e onde existem centros de investigação sobre a Palestina. Em particular duas instituições académicas inglesas (incluindo a SOAS de Londres) e duas norte-americanas (a Brown University e a Columbia University, onde está sediado um Centro de estudos sobre a Palestina).

Integrar esta rede internacional em termos de publicações, projetos de investigação e garantir uma divulgação para o público em geral serão outras prioridades, com o objetivo de manter um “diálogo constante entre o mundo académico e a sociedade civil” e “tentar contrariar a desinformação”.

A organização de eventos regulares, ou “a produção de publicações académicas, também dirigidas à sociedade civil, garantindo uma divulgação consistente”, constituem para Giulia Daniele outras opções decisivas.

O OPal também já estabeleceu contactos com outras universidades onde existe investigação em torno deste tema, com o ISCTE determinado em fornecer um “apoio académico fundamental” para garantir conhecimento e produção científica e “continuar a abordar a Palestina de uma forma séria, detalhada e consciente sobre o que está a acontecer”.

Ainda essencial, para a diretora do OPal, será manter a ligação entre a parte mais teórica mas também a parte empírica, de trabalho de campo, e que já integra um número crescente de estudantes de mestrado, de doutoramento, de jovens investigadores, portugueses e estrangeiros.

Pedro Caldeira Rodrigues
Sobre o/a autor(a)

Pedro Caldeira Rodrigues

Jornalista