Para além de alguma circulação clandestina no período da ditadura, os textos do dirigente comunista italiano Antonio Gramsci tinham conhecido uma primeira vaga de publicação no período pós-revolução dos cravos. Várias seleções dos seus escritos, tanto os pré-prisão como os de prisão, se sucederam então. Estes últimos, foram introduzidos no país a partir da edição de Felice Platone, supervisionada pelo próprio Palmiro Togliatti, então dirigente do Partido Comunista Italiano, marcada por cortes e edições políticas e pela ausência de um robusto aparato crítico.
Contudo, a partir dos anos 1980 o ímpeto foi desaparecendo e o período posterior foi marcado pela ausência de publicações. Enquanto em 1975 se estabelecia a primeira grande edição de referência, organizada por Valentino Gerratana, a que se começaram a seguir traduções e seleções noutras línguas, em Portugal tal não aconteceu. Ao mesmo tempo, enquanto noutras latitudes os temas e conceitos gramscianos se imiscuíam em múltiplos debates políticos e académicos, no nosso país persistia uma memória gramsciana e sentiam-se os ecos desses debates mas a sua divulgação acabava por permanecer muito restrita.
De repente, nos últimos anos, uma enxurrada de publicações alterou o panorama. Seleções sobre os intelectuais e a cultura e uma edição das Cartas da Prisão são disso exemplo. Neste início de 2026, uma edição em dois volumes dos Cadernos do Cárcere, dando uma imagem mais abrangente do trabalho de Gramsci, acaba também de ser publicada nas Edições 70.
A coincidência destas publicações acabou por ser o pretexto que juntou vários interessados no pensamento de Gramsci. Nasceu assim a International Gramsci Society – Portugal, um grupo de estudos e de divulgação do pensamento deste autor.
A sua primeira atividade ocorreu este sábado em Lisboa. Tratou-se da apresentação da edição portuguesa dos Cadernos do Cárcere, na Livraria Almedina do Saldanha, com intervenções do organizador desta edição, Carlos Carujo, do investigador Roberto Della Santa e de Rita Ciotta Neves, professora e responsável pela publicação recente de alguns dos livros de Gramsci no país.
Para além do debate à volta do pensamento de Gramsci e da sua receção em Portugal, o encontro foi também momento de convite para que mais pessoas interessadas se juntem à IGS Portugal. Esta pode ser encontrada a partir das suas páginas no Facebook e no Instagram. Avançou-se ainda a possibilidade de marcar mais sessões de apresentação dos Cadernos do Cárcere noutros pontos do país.