Não ignorem os fantasmas da Irlanda do Norte

05 de maio 2014 - 15:13

Na Irlanda do Norte, a linha da frente do conflito regressou às ruas de Belfast. As armas já não são espingardas ArmaLite nem carros armadilhados, e já não há combates entre soldados e paramilitares encapuçados. Em 2014, linha da frente é a própria história, e os campos de batalha são os estúdios televisivos, os jornais, as redes sociais e os tribunais.

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A verdade inconveniente é que o impacto daquilo a que chamamos paz na Irlanda do Norte tem sido, no que diz respeito às hostilidades de índole sectária entre protestantes pró britânicos e católicos pró irlandeses, mínimo ou nulo.

Os guerrilheiros deram lugar aos políticos, cujas palavras estão tão repletas de ódio como as balas que vieram substituir. O número de vítimas pode ser menor, mas a desconfiança e o jogo de culpas não deram lugar à esperança e à amizade.

Em Abril de 1998, quando o acordo de paz da Sexta-Feira Santa foi assinado, achou-se que o legado do conflito era uma questão demasiado fracturante, mas este assunto pendente acabou por envenenar ainda mais a relação entre as duas comunidades. Confrontá-lo é algo que não pode continuar a ser adiado.

A prisão, na quarta-feira [30 de Abril], de Gerry Adams, líder do Sinn Féin, partido pró unificação da Irlanda (que costumava ser descrito como a «ala política do Exército Republicano Irlandês»), é a escaramuça mais recente desta nova guerra. A detenção acontece depois de alguns antigos camaradas de Adams o terem acusado de envolvimento directo no rapto, assassinato e enterro de Jean McConville, uma viúva mãe de 10 filhos, há 42 anos. O depoimento que prestaram, para um arquivo na Boston College, era, supostamente, confidencial.

Quando a PSNI [o serviço de polícia da Irlanda do Norte] conseguiu acesso, por via judicial, nos tribunais americanos, aos testemunhos, Gerry Adams foi detido. O Sinn Féin acusou a polícia de manipulação política, por estarmos a três semanas de eleições autárquicas e europeias cruciais na parte sul da fronteira irlandesa, e as sondagens deixarem antever um bom resultado para o partido. No Norte, o líder do Democratic Unionist Party, partido pró britânico, Peter Robinson, insistiu que a não detenção de Gerry Adams é que teria sido um acto político.

Qualquer que seja o desenlace do caso [Adams foi libertado a 4 de Maio, sem qualquer acusação], a detenção de um dos arquitectos do processo de paz, e o louvor e escárnio com que foi recebida, demonstram o enorme abismo que continua a separar as duas comunidades na Irlanda do Norte, 20 depois do cessar-fogo do IRA.

Centenas de famílias, como a da Sr.ª McConville, continuam a tentar perceber porque é que os seus entes queridos foram mortos, e por quem. Campanhas mediáticas, lançadas por famílias dispostas a e capazes de fazer ouvir-se na praça pública, conseguiram apoio popular e político. Mas a dor de muitas outras permanece em surdina.

Além disso, os grupos que representam famílias unionistas pró-britânicas alegam, frequentemente, que só as vítimas que elas próprias definem como «inocentes» merecem ser alvo de novas investigações, ao passo que os grupos pró-nacionalistas instem que todas as famílias enlutadas têm o mesmo direito a saber a verdade.

No entanto, partilham todas um mesmo problema: a inexistência de um processo consistente, justo ou independente a que possam agarrar-se. Não lhes resta outra alternativa que não recorrer a vias legais ad hoc — processos cíveis, exigência de novos inquéritos governamentais, queixas ao provedor geral da polícia contra oficiais reformados, ou apelos emocionais para investigações públicas.

Entretanto, Londres demonstra muito pouco entusiasmo. Se algum dia a verdade vier ao de cimo, incluirá, de certeza, alguns factos menos agradáveis sobre o próprio papel do estado britânico em operações secretas e dezenas de assassinatos em conluio com grupos lealistas. 

Ainda esta semana, o governo britânico disse a um grupo de famílias de Ballymurphy que, «em nome do interesse público», não apoiava uma investigação sobre as acções dos soldados britânicos responsáveis por 11 mortes em 1971. No mesmo dia, numa aparente tentativa, bastante tosca, de parecer imparcial, disse às famílias de 12 pessoas mortas pelo IRA em Fevereiro de 1978 que não haveria qualquer reabertura do caso, pois não «seriam produzidas novas provas.»

O processo de reconciliação na Irlanda do Norte precisa de tudo menos disto. Famílias que talvez consigam, eventualmente, compreender a dor que todas partilham estão a ser, ao invés, lançadas umas contra as outras na praça pública. Algumas querem processos criminais contra aqueles que lhes mataram os familiares; outras existem desculpas por parte do governo britânico; outras ainda desejam, pura e simplesmente, ter acesso a quaisquer pormenores que possam ainda vir a lume.

A verdade inconveniente é que o impacto daquilo a que chamamos paz na Irlanda do Norte tem sido, no que diz respeito às hostilidades de índole sectária entre protestantes pró britânicos e católicos pró irlandeses, mínimo ou nulo. 

Há menos de seis mesmos, este impasse perigoso parecia estar prestes a resolver-se, quando dois americanos, convidados pelos líderes da Irlanda do Norte — Richard N. Haass do Council on Foreign Relations, e Meghan O’Sullivan, de Harvard —, se propuseram a trabalhar o legado do passado violento da Irlanda do Norte, através de uma Unidade de Investigações Históricas, que poderia abrir a porta para processos judiciais, se fossem encontradas novas provas suficientes.

Em paralelo, seria criada uma Comissão Independente para a Obtenção de Informação, que permitiria às famílias requerer informações em privado, garantindo imunidade limitada para quem apresentasse novos dados voluntariamente.

O objectivo consistia em encorajar os envolvidos no conflito, oriundos de todos os sectors, a assumir responsabilidade pelos seus actos e expressar arrependimento, deixando às investigações a tarefa de abordar os assuntos mais amplos, como o conluio das forças britânicas com os grupos armados lealistas, e o papel do estado irlandês no armamento do IRA.

Porém, os dois principais partidos unionistas pró-britânicos rejeitaram ambas as propostas, alegando que se estava a a atribuir demasiado relevo à má conduta do estado, e insuficiente à culpa dos paramilitares.

Entretanto, testemunhas, perpetradores, as mães e os pais dos mortos estão todos a envelhecer e a falecer. E a verdade está, aos poucos, a desaparecer.

Se a preocupação com as famílias das vítimas é mais do que mera retórica, tanto o governo britânico como o irlandês devem apoiar a criação de uma comissão independente e de uma unidade de investigação histórica.


Anne Cadwallader, trabalha com o Centro para os Direitos Humanos e Mudança Social Pat Finucane e é a autora de Lethal Allies: Bristish Collusion in Ireland. [Aliados Letais: o Conluio Britânico na Irlanda]

Tradução de Mariana Avelãs para esquerda.net

Artigo publicado no blogue de Anne Cadwallader no New York Times