Gerry Adams libertado sem qualquer acusação

04 de maio 2014 - 23:48

O histórico líder do Sinn Féin foi libertado este domingo em Belfast sem qualquer acusação. Em conferência de imprensa, denunciou o que diz ser uma “campanha sustentada, maliciosa e incerta”, que tem com o objetivo prejudicar os resultados e aspirações eleitorais locais e europeias dos republicanos neste mês de maio.

PARTILHAR
Nelson Mandela e Gerry Adams.

A Polícia da Irlanda do Norte (PSNI) libertou este domingo, sem qualquer acusação, o Presidente do Sinn Féin, Gerry Adams, detido desde a passada quarta-feira no âmbito de uma investigação ao assassinato de uma mulher católica em 1972 pelo Exército Republicano Irlandês (IRA).

A quarta e última jornada consecutiva de interrogatório decorreu numa esquadra em Antrim, a norte de Belfast, onde Adams se tinha apresentado voluntariamente há cinco dias para colaborar com a PSNI.

A BBC, citando pessoas próximas de Adams, adiantou que os interrogatórios duraram até 17 horas diárias. Segundo a Lei de Terrorismo de 2000, ao abrigo da qual esteve sob custódia, pode manter-se um suspeito para interrogatório sem formalizar acusação até 28 dias, sendo necessário justificar a detenção a um juiz a cada 48 horas.

No dia da sua detenção, Gerry Adams divulgou um comunicado onde manifestou o seu repúdio pelos factos que resultaram na morte de McConville, e reafirmou a sua “total inocência” no caso. Acusações de que foi membro do IRA acompanharam toda a sua carreira política, mesmo antes de se tornar o presidente do partido, em 1983. Mas em vários processos judiciais, Adams foi ilibado de qualquer associação pessoal ao IRA.

“Estas alegações maliciosas duram há décadas. O caso assenta em boatos e recortes de jornais”, desvalorizou Martin McGuiness, o vice primeiro-ministro da Irlanda do Norte, eleito pelo Sinn Féin (que integra o governo de coligação com os Democratas Unionistas). O político republicano não deixou de estranhar que a polícia quis manter Adams detido na reta final de uma intensa campanha eleitoral: várias figuras do Sinn Féin denunciaram as “motivações políticas” da investigação, e uma manifestação contra a detenção reuniu centenas de pessoas em Belfast, onde foi inaugurado um novo mural com o retrato de Gerry Adams.

No momento da sua libertação, o líder republicado, reiterou a sua inocência. Posteriormente, numa conferência de imprensa num hotel central em Belfast, Adams sublinhou que nunca esteve envolvido numa “conspiração” para “sequestrar e assassinar” Jean McConville e tampouco pertenceu ao inativo IRA.

McConville, viúva de 27 anos e mãe de dez filhos, foi assassinada pelo IRA por alegadamente ser uma espia britânica. O seu corpo só foi encontrado em 2003, quatro anos depois da inativa organização militar ter reconhecido a sua autoria e ter facultado a localização do seu paradeiro.

Ainda que não tenha apresentado qualquer queixa ou acusação, a polícia remeteu ao Ministério Público um relatório para deixar em suas mãos a decisão de imputar a Adams qualquer ligação ao crime, algo improvável, segundo o Presidente do Sinn Féin, que assegurou “não existirem provas” contra ele. 

Adams repetiu as acusações, que altos dirigentes republicanos lançaram após a sua detenção, de que o PSNI atuou no sentido de prejudicar as aspirações e resultados eleitorais locais e europeias do partido neste mês de maio.

“Não tinham razões para o fazer em plena campanha”, assinalou Adams, que recordou que se apresentou voluntariamente na esquadra, como tinha anunciado já em março à polícia. O líder do Sinn Féin explicou que decidiu ir à polícia para acabar com a “avalanche de especulações nos meios de comunicação social,” que são parte, acrescentou de uma “campanha sustentada, maliciosa e incerta” para o vincular a este caso.

Não havendo presos, nas últimas semanas, sete pessoas, entre elas Adams, foram interrogadas pelo crime - após a PSNI ter obtido novos depoimentos de antigos membros do IRA -, mas até agora somente o ex-dirigente paramilitar Ivor Bell foi acusado.  Alguns ex-combatentes deram entrevistas a investigadores de uma universidade americana de Boston a respeito do conflito armado na Irlanda do Norte, com a condição de que as suas declarações só fossem reveladas postumamente, mas um tribunal norte-americano ordenou, no ano passado, ceder algumas gravações à PSNI.  Neste sentido, Adams questionou a validade das “gravações de Boston”, em que ex-companheiros o acusam de ter dado a ordem de assassinato.