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Nancy Fraser: “Feminismo é a força mais visível, crescente e radical" nos dias de hoje

Em entrevista ao El Pais, a professora de filosofia fala do recém-lançado livro “Feminismo para 99%” e dos desafios que o movimento enfrenta.
Nancy Fraser numa entrevista à Fundação Rosa Luxemburgo.

A ativista feminista Nancy Fraser esteve no fim de semana passado em Madrid e falou ao El Pais do seu livro escrito em co-autoria com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya, “Feminismo para 99%”. Ali procura traçar o novo caminho do movimento feminista, que passa por “superar o feminismo corporativo de elite, substituindo-o por um que fala pela esmagadora maioria das mulheres, captando as preocupações dos pobres, da classe trabalhadora, das mulheres racializadas, das queer, trans, lésbicas, profissionais do sexo, donas de casa, mulheres com empregos precários”.

Hoje em dia, o feminismo “é a força mais visível, crescente e radical que vemos. Mas tem que se aliar às correntes anti-sistema de outros movimentos sociais e aos partidos de esquerda que estão em cena e abertos para expandir sua ideia da luta da classe trabalhadora, rejeitar o dogmatismo sectário e colocar as mulheres no centro”, apontou Nancy Fraser nesta entrevista.

A esse caminho podemos chamar-lhe um “feminismo das classes trabalhadoras, desde que entendamos essa ideia de uma maneira muito mais ampla”, avisa a professora de filosofia que se tornou uma das principais críticas ao chamado “feminismo liberal” que abandonou as causas da justiça social.  

“Quando falamos da reprodução social, a partir do “Feminismo para 99%”, estamos a desenvolver um quadro mais amplo do que significa fazer parte da classe trabalhadora”, prossegue Fraser, sublinhando a importância da reprodução social para o sistema capitalista. “O capital é baseado na reprodução social do trabalho não assalariado, algo que as mulheres fazem: criar filhos, criar laços e vínculos sociais e afetivos, a criação, educar meninos e meninas que sustentam a força do trabalho. Assim, as relações de classe não são constituídas apenas na fábrica, elas formam-se nos e através dos espaços desse trabalho social reprodutivo”, defende Nancy Fraser.

“Acredito que o Feminismo para 99% deve confrontar as atuais desigualdades produzidas pelo neoliberalismo e a atual forma de capitalismo financeirizado. Isso só se dá mediante um processo de aprendizagem através da experiência das novas lutas feministas”, prossegue a autora, por entre críticas ao fracasso dos partidos e da narrativa política dominante em tempo de crise do capitalismo neoliberal.

“O momento de crise que tornou possível o nosso próprio crescimento e a nossa própria radicalização é o mesmo que tornou possível o crescimento e a radicalização da direita. Estamos a oferecer o nosso movimento como alternativa”, sublinha a autora, identificando um vácuo de liderança política: “Os principais partidos estão em colapso, as pessoas procuram uma mudança, há muitos atores que entram nesse vácuo e oferecem propostas diferentes. Precisamos estar aí, oferecendo as nossas alternativas”.

Para recuperar partes importantes das classes trabalhadoras atraídas por figuras como Trump ou outros líderes da direita, a autora defende que devem fazer parte de “uma massa antissistema, um movimento anticapitalista que inclua o feminismo para 99%, os movimentos operários, ambientalistas, anti-racistas, em defesa dos migrantes, reprodução social e as classes trabalhadoras”.

“Se não tivermos uma alternativa, é claro que parte desses grupos sociais caminhará politicamente à direita. Mas a pergunta é: por que devemos à direita o monopólio das grandes ideias de mudança?”, questiona Fraser.

Sobre o movimento MeToo, Nancy Fraser diz que apesar dos media apontarem os holofotes para “as atrizes glamourosas de Hollywood”, “as pessoas esquecem que o MeToo é, na verdade, um movimento de classe, uma luta por um local de trabalho livre de assédio, agressão sexual, livre de coerção dos superiores sobre os subordinados”.

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