Entrevista

Vaiapraia: “A liberdade da arte sobrevive precisamente por não estar ao serviço de nada”

13 de novembro 2025 - 16:39

Em entrevista ao Esquerda.net, o artista e fundador da banda conta-nos sobre o percurso do grupo, o seu último álbum, e reflete acerca da intersecção entre arte e política.

por

Diogo Machado e Jorge Tabuada

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Rodrigo Vaiapraia
Rodrigo Vaiapraia. Foto de Carolina dos Santos.

Vaiapraia é uma jovem, mas já consagrada, banda punk portuguesa que este ano lançou o seu terceiro álbum Alegria Terminal, seguindo-se ao 100% Carisma (2020) e ao 1755 (2016). Ninguém fica indiferente ao estilo único de Vaiapraia, à sua energia e humor tão característicos, nem aos seus concertos vibrantes.

O Esquerda.net entrevistou Rodrigo Vaiapraia, vocalista, teclista e compositor do grupo Vaiapraia, composto também por Ana Farinha (bateria), April Marmara (baixo) e chica (guitarra). Rodrigo fala sobre a história de Vaiapraia, do seu processo de trabalho, do último álbum, mas também da forma como a banda e o seu estilo evoluíram ao longo do tempo. Discute também temas mais alargados, desde as condições de trabalho no meio artístico, os impactos na indústria das plataformas digitais e das grandes editoras, à função do choque na música para quebrar tabus sociais e à relação entre a arte e a política.


Como é que surgiu Vaiapraia? Conta-nos um pouco sobre a história deste projeto.

Começou como um projeto a solo em 2013. Ainda morava na casa dos meus pais, em Setúbal, e estava a acabar a escola, a começar a universidade, num final de adolescência um bocado conturbado. Tive duas bandas durante o tempo da escola e tinha um teclado que era da minha irmã. Comecei a fazer as minhas primeiras canções nessa altura, que eram bastante despidas e não soavam àquilo que eu queria que soasse. No final de 2014, comecei a tocar com duas amigas com mais experiência (Helena Fagundes e Shelley Barradas). Na altura, o projeto chamava-se Vaiapraia e as Rainhas do Baile e depois, quando deixei de tocar com elas, passou a ser só Vaiapraia. O mais importante é que foi um processo que me ajudou a encontrar socialmente, eu no mundo. Algo que às vezes não é tão falado sobre estar numa banda é que a percentagem maior de estar numa banda tem a ver com relações interpessoais, questões administrativas e decisões coletivas. Estar numa banda obriga a desenvolver capacidades de compromisso e negociação e ao mesmo tempo respeitar as características de cada pessoa, os limites e as fronteiras. E também exige uma fase inicial apenas para cometer erros e aprender coisas, uma espécie de estágio não remunerado. E isto só foi possível porque eu estava a estudar e não precisava de trabalhar, tinha tempo. Foi a minha classe média que me permitiu ser músico, e o caso é o mesmo com a maior parte das bandas em Portugal. Eu fazia música enquanto fã e não enquanto músico. Ao início tudo o que acontecia na minha vida espelhava-se nas canções. O nosso primeiro disco é como um diário e o primeiro EP ainda mais. Hoje em dia já não é assim.

Neste momento, há elementos da banda que estão sediados em Portugal e tu estás em Londres. Como é que funciona esta forma de trabalho “híbrida”?

Eu deixei de morar em Portugal em setembro de 2020, e a minha banda já mudou ligeiramente. É como aprender a ter uma relação à distância. Ao início foi super difícil e muitas vezes eu questionei-me na exequibilidade de o fazer. As quatro pessoas atualmente funcionam bem, e isso é metade do caminho andado. Nós somos pessoas super diferentes, mas conseguimos ver quando estamos cansadas, a precisar de espaço. Este último disco foi muito feito entre cá e lá e nós íamos organizando a rotina e ao mesmo tempo, os outros trabalhos e outras coisas que nós fazemos. Quando eu estou com elas, nós estamos a 100%. No último ano, os ensaios que tivemos contam-se pelos dedos de duas mãos, porque nós encontramos e fazemos acontecer. Para eu chegar à sala de ensaios delas eu tenho que apanhar um voo, mas isso também me obrigou a tornar-me mais autónomo enquanto músico. Durante a pandemia, dado que eu precisava de continuar a fazer música, comprei um baixo acústico, continuei a tocar em casa, e fui até Vilar Seco fazer um EP com a Júlia Reis das Pega Monstro. Cá em Londres eu toco a solo com esse baixo e isso obriga-me a continuar as coisas com ou sem pessoas.

Alegria Terminal é o terceiro álbum de Vaiapraia, frequentemente descrito como um álbum mais maduro que combina o punk de 1755 com a vibe mais pop do 100% Carisma. Podes falar-nos um pouco do processo de criação deste disco e como navegaram ao longo entre estilos ao longo do vosso percurso?

Não faço música a pensar muito em estilos. Este disco é só uma continuidade do trabalho. Pela primeira vez tive algumas preocupações novas com a produção, daí que o disco é produzido pela própria banda. Mas fui eu que tomei as decisões executivas, isso também me deu mais alguma responsabilidade. Outra coisa que é bastante distinta dos outros discos é que as vozes delas existem muito mais neste disco. Foi a coisa que eu mais gostei de fazer no disco. Há bocado estava a falar do primeiro disco como sendo uma coisa quase diarística. A maneira como eu vejo este disco é diferente: é como se fosse um arquivo, onde fazemos uma colagem com vários momentos diferentes e observações da minha vida. A maior parte delas são observações sobre outras vidas, coisas que eu assisto mais do que eu vivencio, porque às vezes sinto-me aborrecido comigo próprio (risos), acho que as coisas mais interessantes estão à minha volta. Tentámos minimizar os recursos, não só por uma questão de necessidade, mas também para manter as coisas em casa. Gravámos o disco no estúdio onde costumamos ensaiar com o Bernardo Ramos, que faz o som dos nossos concertos. Quisemos olhar para dentro.

Vaiapraia em concerto
Vaiapraia em concerto. Foto de Mário Negrão

Nas vossas músicas, falam de questões de sexualidade, amor, desencanto e política, com o humor e energia punk que vos são característicos. De onde vem a inspiração e o processo criativo para esta variedade temática?

Desde que comecei a fazer música, sei que tenho de falar sobre o que sei e também sobre o que imagino. Com a experiência, a minha maneira de fazer as canções tornou-se cada vez mais intuitiva, e sinto que a minha intuição me leva a sítios que eu de outra maneira não iria chegar. A minha inspiração tem a ver com uma ideia de desaceleração em relação às coisas que estão a acontecer. É como pegar numa datas de coisas e descontextualizá-las, isso é a canção. A vida não tem temas, a vida é o tema. Há uma música que se chama ‘Tupperware Furado’, que fala não só de ter saudades de uma pessoa com quem tiveste uma relação, mas ao mesmo tempo de alguém que não está a ouvir-te e dos incêndios que estão a acontecer à tua volta. Não há divisórias, nós é que fazemos essas divisórias porque o nosso cérebro não aguenta processar tudo ao mesmo tempo. Eu sinto que as músicas estão a respeitar a verdade que o mundo é incrivelmente deslumbrante e nojento ao mesmo tempo. E isso é uma coisa que é difícil de assimilar. Para mim as músicas são uma coisa que acontece paralelamente, residualmente, em excesso e um bocado no meio de tudo o resto. E a concretização delas só acontece quando eu me sinto preparado e por isso é que se calhar eu não sou o artista mais prolífico de sempre, porque as coisas acontecem ao ritmo do resto e a minha música não está no centro. Mas ao mesmo tempo está, porque eu estou sempre a pensar nisso. Não há esse sítio em que as coisas acontecem, então todos os sítios são esse sítio.

Numa entrevista recente ao Playback, conduzida pelo Miguel Rocha, disseste que te interessa vocalizar coisas que sentes que não são normalmente faladas em esferas públicas. O que é que sentes que não é falado na esfera pública e porque é que interessa dar-lhe voz?

Quando eu estava a começar a fazer música, enquanto pessoa gay e queer não tinha nenhuma representação à minha volta. Por muito que a representação seja uma coisa falível, não havia pessoas a falar ou a cantar em português sobre aquilo que era vivido. Quanto mais eu ia a concertos e descobria pessoas que também eram gays ou queer e que tentavam esconder isso na sua música, ainda me dava mais vontade de contrariar isso. Hoje, isso é a última coisa de que eu quero falar. Não é que eu queira esconder alguma coisa, mas para mim isso não é um assunto. Para mim, há sempre uma curiosidade um bocado mórbida quando estou a fazer música de procurar ser constrangedor. Eu acho que o choque é interessante porque te põe a pensar, “porque é que isto me dá arrepios e me faz sentir desconfortável”? Não me interessa chocar por chocar, tem que haver ali algo que te faça parar um bocado. Expõe o que é um estigma, o que é um problema e o que é o esperado, o que é escondido, o que é que as pessoas querem deixar em casa, o que é o espaço doméstico e o espaço público. Hoje em dia as coisas mais constrangedoras têm a ver com dinheiro. Muitas vezes o sexo e o dinheiro são coisas que não são discutidas abertamente. E então, a partir do momento que pões numa canção, já se torna uma coisa pública, e eu acho que há um gozo nisso, é um alívio e uma vingança.

Já compuseste música e escreveste para peças de teatro e curtas-metragens. Gostas de ver o teu trabalho na arte como interseccional?

Sim, eu acho que para mim há sempre um desafio em colaborar no trabalho de outra pessoa e muitas vezes passa por sair da minha cabeça. É um alívio muito grande poder estar a trabalhar a partir de outro ponto de vista que não é o meu. As coisas mais relevantes que eu fiz no palco sem ser concertos foi com a Plataforma285e com o Teatro Cão Solteiro. Foram convites que aconteceram de forma espontânea, porque ambas companhias tinham conhecimento da minha música, convidaram-me e a partir daí estabeleceu-se uma relação. No cinema, tenho colaborado mais com a Paula Tomás Marques. A Paula e eu somos amigos desde há muitos anos e o nosso trabalho acontece lado a lado. Ela tem uma curta-metragem que se chama “Sem Armas” e no ano seguinte eu fiz uma canção chamada “Sem Armas”, meio por acaso. Nós temos um pensar partilhado e então para nós colaborar é natural. A cena mais incrível de criar e fazer coisas é conhecer pessoas que te fazem querer fazer mais coisas e que te inspiram. A maior recompensa é essa camaradagem que existe nas pessoas em quem tu confias, sem querer estar a romantizar. Claro que o conflito existe e o conflito às vezes é uma coisa boa. Mas poder sentir que há um conjunto de pessoas que vai estar lá e que vai ver, receber, criticar e pensar sobre aquilo que estás a fazer é a razão pela qual eu ainda faço coisas, porque se isso não existisse, eu provavelmente tinha feito outra coisa e a minha vida não era igual. Somos nós que estamos no palco a tocar e não ouso dizer que é uma coisa interativa, porque não é, mas são duas presenças que se reconhecem uma à outra.

A estética é uma parte muito forte do teu trabalho. Como construíste esse universo visual e qual o papel da performance no teu trabalho?

A minha abordagem com a música vem de um ponto de vista sempre visual, acho que devido à maneira como a minha cabeça funciona e aos meus estudos nessa área. Eu ao ouvir a música parece que a vejo, e acho que isso passa bastante para as minhas letras. A maior parte das pessoas à minha volta também estão relacionadas com artes visuais e não tanto com música, e eu acho que também vivo um bocado desse cruzamento e de colaborações com outros artistas.

Vaiapraia
Vaiapraia. Foto de Diana Matias

Como é que vês o estado atual da música alternativa em Portugal e, já agora, a evolução das condições de trabalho (ou falta delas) no setor?

O panorama é péssimo, como sabemos. Todos os meses há notícias de uma sala que fecha, uma rádio que fecha, de uma associação que fecha, de um coletivo que fecha. Há bandas que se calhar estão a receber menos do que antes recebiam. Há bandas que não estão a tocar de todo, há menos concertos. Os concertos são menos bem pagos. Há uma polaridade entre os festivais em relação aos concertos em salas médias e pequenas. Há muitas pessoas fora do nosso meio que supõem que nós ganhamos mais do que nós ganhamos, e às vezes também acontece o inverso. Talvez fosse interessante se, por exemplo, uma data de nós (músicos) partilhássemos publicamente quanto é que ganhámos em cada concerto nos últimos 2 anos. Há uma grande disparidade, e além da oferta ou falta dela, depende de opções e decisões do artista. Pessoalmente, considero sempre de quem vem o convite.

Num mundo em que estamos cada vez mais insensíveis à visibilidade da violência e da corrupção, a vocalização do que é justo torna-se cada vez mais pertinente. Mesmo assim, tenho algumas dificuldades com o termo ‘artivismo’, porque acho que as duas coisas devem acontecer, sem uma depender da outra. Claro que uma pessoa deve usar o seu palco/plataforma e expor injustiças, mas que se continue a lutar por uma causa, mesmo sem um público a aplaudir.Acho que o mundo está cada vez mais americanizado na sua maneira de consumo. A indústria da música sempre foi uma indústria precária. Nos anos 90, pelo que os meus colegas mais velhos me contam, houve uma afluência enorme. Os cachês eram enormes e nunca voltaram a ser assim. Também havia muito menos gente a tocar, muito menos acesso à música. Há coisas positivas, o acesso aos meios de produção é muito mais facilitado hoje e, pessoas consideradas menorizadas conseguem hoje fazer mais coisas que não podiam fazer antes. Mas no geral, o trabalho é cada vez mais desvalorizado. Há um paradoxo interessante, a música gravada nunca valeu tanto como vale hoje, no entanto, o lucro não é para os artistas. É para para quem distribui e para as 3 grandes editoras do planeta Terra. Eu recomendo a toda a gente a ler o Mood Machine da Liz Pelly, que faz uma análise profunda e séria sobre o consumo da música digital.

És um dos mentores e coordenadores do festival comunitário feminista queer, Rama em Flor. Que mudanças tens observado no mundo queer artístico durante o teu percurso?

Estamos num momento em que existe muito mais expressão, pluralidade e espaço do que quando eu comecei a fazer música. Não havia metade dos projetos que existem hoje, ou pelo menos não ocupavam o espaço que hoje ocupam. Há uma data de artistas atualmente que representam partes e pessoas de Portugal que antes não estavam a ser ocupadas, portanto isso é uma coisa positiva, mas não é uma coisa que foi dada. É o resultado de uma luta coletiva.

No concerto que deram em setembro na inauguração da Casa Capitão em Lisboa, trouxeste uma bandeira da Palestina. Também em Belas Artes, este ano, apelaste à mobilização contra os despejos no Talude. Qual é a importância de artistas como tu assumirem estas posições e tomarem estes gestos?

Eu acho que é importante uma pessoa falar daquilo que lhe compele e daquilo que é verdade para ela. Isso são coisas que eu assisto, eu não estou na Palestina, nem estou no Talude, mas eu consigo ter solidariedade e empatizar pelo que se passa e perceber que o que se passa lá podia se passar comigo enquanto humano. Em termos materiais, eu ter ou não falado disso, não muda rigorosamente nada, mas pode haver um diálogo ou uma conversa sobre isso. Eu faço isso porque me faz sentido e acredito nas coisas que acredito. Eu não tenho esperança na democracia, mas acredito em causas, acredito em pessoas, acredito na solidariedade e acredito na ação direta.

Atualmente, como é que vês o papel da arte como catalisador de transformação social?

A arte é uma coisa que acontece no mundo, logo vai ter um impacto nele. Apesar da arte precisar do mundo, o mundo não precisa da arte. O mundo acontece à mesma. A arte tem um papel livre e o que eu acho interessante na arte é que muitas vezes o desejo e a política fazem um braço de ferro gigante. Essas dificuldades são inspiradoras porque mostram também o poder do desejo, enquanto uma coisa errante, que te puxa para sítios que tu não irias de outra maneira. Precisamente pela arte precisar de ser livre, não pode ter uma agenda e eu, enquanto pessoa que acredita na mobilização coletiva e na organização, sei que tem que haver uma agenda, tem que haver uma organização. Por isso é que eu acredito que são coisas diferentes. Há determinadas músicas, versos ou palavras de ordem que inspiram movimentos, organizações, sindicatos e grupos ativistas, mas muitas vezes essas coisas surgiram num contexto totalmente diferente. As coisas são consumidas de uma maneira que a pessoa que fez essa arte não controla, é uma reciclagem infinita de ideias. Eu acho que a arte pode ser um catalisador de mudança, mas não tem nem o deve ser. Eu acho que quando é, é uma coisa que acontece num momento, numa conjunção de fatores, com as pessoas que estão a ouvir essa música ou fazem parte desse movimento. Mas a partir do momento em que a arte está escrava de uma ideologia ou de um partido ou de um grupo, a arte não está a fazer o seu papel. A liberdade da arte sobrevive precisamente por não estar ao serviço de nada.

Para terminar, como será o futuro de Vaiapraia?

O próximo concerto é dia 5 de dezembro no Barreiro Rocks. É a terceira vez que tocamos lá, é um festival que esteve parado durante alguns anos e voltou. Para o ano que vem, regressamos ao festival Tremor, em Ponta Delgada, e vamos ao Primavera Sound Porto. Vamos ter mais coisas a anunciar em breve que não posso contar ainda, mas não estamos parados, estão coisas a acontecer.

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