A 28 de março, Myanmar foi atingido por um terramoto de magnitude 7,7, desencadeando uma catástrofe de grandes proporções. O epicentro localizou-se na região de Sagain, um dos bastiões da resistência democrática à junta militar no poder.
Os sismos continentais de magnitude 7,7 são bastante excecionais. Ocorreu numa falha com mais de mil quilómetros de comprimento que atravessa o país de norte a sul, onde as placas tectónicas indiana e euro-asiática entram em contacto. A região de Sagain foi devastada e, na planície sedimentar do rio Irrawaddy, o solo por baixo dos edifícios “liquefez-se”, tendo muitos deles desmoronado. Ainda é difícil estimar as perdas de vidas humanas, que deverão ultrapassar as 10.000. O tremor foi sentido tão longe como em Banguecoque, na Tailândia. Num país já afetado por múltiplas catástrofes naturais e humanas, Trump impôs uma taxa de tarifas de 44%, talvez por ter ordenado aos seus conselheiros que atingissem duramente o Sudeste Asiático, sem saber nada sobre o assunto. Ubu Roi em todo o seu absurdo.
Ajuda humanitária: arma de guerra
Como organizar os esforços de socorro num país em plena guerra civil há mais de quatro anos? A junta militar tenta controlar a informação. Apesar dos seus compromissos, continua a bombardear zonas dissidentes. A China e a Rússia, apoiantes próximos dos militares, são as principais potências no terreno. Nestas condições, a ajuda torna-se uma arma de guerra em grande medida. Mas até que ponto as organizações internacionais poderão ajudar as vítimas do terramoto e evitar a ameaça de crise sanitária? A população atingida está a auto-organizar-se com o apoio de redes de resistência armada, mas muitas vezes com meios irrisórios e sem poder proteger-se eficazmente dos ataques da força aérea governamental.
A sociedade civil deve encarregar-se da ajuda
No seu apelo à solidariedade internacional, a Women's Peace Network (de Myanmar) sublinha a importância de, face à “crise multidimensional” que atravessa o país, a ajuda ser distribuída "por intermédio da sociedade civil, das organizações comunitárias, das organizações étnicas revolucionárias e dos conselhos consultivos, bem como de outros atores locais em Myanmar, e não através de Nay Pyi Taw [a capital], do exército ou dos seus supletivos. Associar-se à junta nesta questão apenas encorajará a corrupção e a manipulação da ajuda. As agências de ajuda humanitária devem colaborar com o Governo de Unidade Nacional, que anunciou uma suspensão de duas semanas das ofensivas militares, a sua cooperação com a ONU e as organizações não governamentais e a implicação do Movimento de Desobediência Civil nas operações de salvamento e de ajuda humanitária". Acrescente-se o reforço do embargo às armas destinadas à junta e o reconhecimento do direito de asilo dos refugiados pelos países vizinhos.
Pierre Rousset é fundador do International Institute for Research and Education de Amesterdão e da associação Europe Solidaire et Sans Frontières. É especialista na política do sul da Ásia sobre a qual escreveu vários livros.
Texto publicado originalmente no L’Anticapitaliste.