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Mulheres de Abril: Testemunho de Luiza Sarsfield Cabral

Quando aceitei a proposta do Nuno [Teotónio Pereira], tive logo a imagem da prisão, falámos disso, sabia que era uma coisa que podia suceder. A maior angústia dos interrogatórios era o pânico de implicar outras pessoas com as respostas dadas. Por Luiza Sarsfield Cabral.
Nuno Teotónio Pereira e Luiza Sarsfield Cabral, em Marvão.

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


Nasci no Porto, na freguesia de Miragaia, em Dezembro de 1941. Sou a segunda filha. Tive uma infância feliz, completamente despreocupada, sem me aperceber da realidade do país. O meu pai não era uma pessoa com dinheiro. Gerente numa fábrica de alumínio, fazia o possível para que não nos faltasse nada, nem nos déssemos conta das dificuldades em que, por vezes, se encontrava. A minha mãe era doméstica e geria muito bem a economia da casa. Tínhamos uma vida muito semelhante à dos meus primos e conhecidos, muitos deles, mais abastados.

Era, assim, uma família do Porto complemente normal, burguesa e conservadora. Acontece que, exactamente porque os meus pais não viviam “à larga”, enquanto que os meus primos e amigos andavam em colégios, os meus irmãos e eu frequentámos o ensino público. Lembro-me de ter sido essa uma decisão difícil para os meus pais e que terá tido uma certa influência em mim. No liceu, conheci outro tipo de pessoas. Tinha colegas com situações familiares muito diferentes, o que me fez sentir que pertencia a um mundo privilegiado, em certa medida.

Durante sete anos, frequentei o Liceu Carolina Michaelis, que era só feminino. O meu irmão Francisco andava no D. Manuel, ali muito perto. O Carolina Michaelis era um liceu bastante “à moda antiga”, duro. Agora fala-se no bom ensino daquela época, mas, olhando para trás, a verdade é que não era. Tive professoras muito fracas, que ensinavam muito pouco. O caso, por ex., de uma professora de História que, durante três anos, repetiu a mesma frase em todas as aulas, não explicava mais nada, deixando as alunas numa triste ignorância... É certo que, em algumas, mas poucas, disciplinas, tive boas professoras e, então, ficávamos bem preparadas, mas não era a regra. É um mito que se criou, dizer que o ensino daquela época era óptimo. Lembro-me que havia duas professoras de Ciências da Natureza, as irmãs Medina, julgo que tias-avós do actual Presidente da Câmara de Lisboa, que se dizia terem problemas no liceu, mas nós não percebíamos do assunto.

Pertenci, não muito profundamente, à JEC (Juventude Escolar Católica), que me acordou para determinado tipo de valores cristãos que, mais tarde, se vieram a conjugar com posições políticas. Ia a reuniões, campos de férias, onde se convivia bastante.

Conheci pessoas ligadas à JUC que me abriram outros horizontes

No final do sétimo ano, escolhi seguir Letras. Como não havia Faculdade de Letras no Porto, optei, entre Coimbra e Lisboa, por Lisboa. Ao meu pai custava-lhe muito que eu saísse de casa, tínhamos uma relação próxima, muito forte. Por isso, decidi fazer o primeiro ano da Faculdade como voluntária, vinha fazer as frequências e os exames a Lisboa, mas estudava no Porto.

Nessa época, em que andava cá e lá, conheci pessoas ligadas à JUC (Juventude Universitária Católica), que me abriram outros horizontes. Comecei a ter actividades sociais. Por exemplo, frequentava uma obra no Porto, em São Mamede de Infesta, que se chamava Mojaf. Era gerida pelo P. António, à volta do qual se formou um grupo constituído por pessoas como a Regina Brito, a minha irmã Teresa, o Manuel Vila Flor e outros. Era um movimento giríssimo. Fazia-se de tudo. Construíamos as casas, juntamente com as pessoas, dávamos apoio às crianças, construímos uma biblioteca para a população. Ainda trabalhei lá bastante tempo. O meu pai não gostava nada dessas actividades, porque dizia que aquilo lhe cheirava a “esquerdismo”, embora fosse mais social do que outra coisa, não tinha nenhum cariz político definido. No Porto, pertenci ainda à Cooperativa Confronto, onde estava o Mário Brochado Coelho, o Eugénio Furtado, o António e o Alberto Barbedo Magalhães e outros.


Maria Luiza Sarsfield Cabral na Praia Grande.

No segundo ano da Faculdade, já fiquei a viver em Lisboa. Participei nas greves universitárias de 1962.

Depois de me licenciar em germânicas, fiquei, de novo, algum tempo no Porto, basicamente em actividades sociais e, só depois, concorri para dar aulas em Lisboa. Comecei no liceu Pedro Nunes, estive um ano na escola Nuno Gonçalves, depois, na Paula Vicente (sede e secção) e, por fim, fiquei sempre na escola Francisco de Arruda.

O Nuno Teotónio Pereira e a Natália eram um caso exemplar

Um acontecimento que me marcou, do ponto de vista político, foi ter conhecido, nos tempos da Faculdade de Letras, o grupo a que pertenciam a Natália e o Nuno Teotónio Pereira. Eles eram um caso exemplar. As coisas que se passavam naquela casa, a generosidade dos dois, dedicados a imensas causas… O Nuno envolvia-se em tudo o que eram actividades antifascistas. A Natália também. Creio que foi através do Pedro Villas Boas, do Alberto Magalhães e do José Carlos Marques, que conheci o casal. Passei a fazer parte daquela casa.


Nuno e Natália Teotónio Pereira.

O Nuno e a Natália pertenciam à PRAGMA. Também cheguei a integrar esta cooperativa cultural, durante algum tempo. Fui com eles a Espanha várias vezes, tivemos reuniões com o grupo dos Cuadernos para El Dialogo, em Madrid. O Nuno conhecia muito bem os intelectuais de esquerda espanhóis.

Também fiz parte do grupo que fazia o boletim Direito à Informação e colaborei na distribuição dos Cadernos Gedoc.

A Natália e o Nuno ajudavam, frequentemente, a passagem para Espanha de rapazes que queriam fugir à tropa, à guerra colonial. Participei numa dessas acções, em que vários amigos, entre eles, o frei Bento Domingues, o José Manuel Galvão Teles e mulher, e outros, ficámos na casa do Nuno, em Marvão. A minha irmã Teresa também esteve nessa acção, pois um dos dois rapazes que ia fugir era seu amigo. O esquema passava por organizar um piquenique à beira-rio. A minha irmã e eu acompanhámos os dois rapazes, como se fôssemos namorados. Sabíamos o caminho, porque tínhamos estudado os mapas anteriormente. Lembro-me de, no final da caminhada, subirmos uma rampa até um muro que eles saltaram. Nós descemos sorrateiramente até ao rio, tentando escapar à vigilância dos “carabinieri” e nadámos até ao sítio do piquenique. Foi uma acção muito bem sucedida. A Natália e o Nuno faziam este trabalho com frequência, em Marvão e no norte do país.

Na casa do Nuno, partilhava-se muita informação. Havia católicos neste grupo, vários padres. A Natália era profundamente cristã, creio que, nestas acções, a sua motivação era humanista e cristã, num contexto de abertura política.

(Da esquerda para a direita) Frei Bento Domingues, Miguel Teotónio Pereira, Luiza Sarsfield Cabral, Nuno Teotónio Pereira e o entãoo padre jesuíta José Sousa Monteiro, numa das idas aos piqueniques de Marvão, para ajudar jovens a fugir ao serviço militar.

As missas no terceiro sábado e a distribuição de publicações

Participávamos nos terceiros sábados. Era uma ideia da Natália, que mostra um pouco da sua maneira de ser e das suas motivações. Nos terceiros sábados de cada mês, celebrava-se a eucaristia. Começou-se no Colégio das Dominicanas do Restelo e passou, depois, para o Campo Pequeno, para o Colégio das Franciscanas Missionárias de Maria. As freiras foram fantásticas. Informadas do que estava em causa, deixavam-nos utilizar, livremente, aquele espaço. Era um lugar de convergência de muitas pessoas e grupos, onde ia muita gente para alimentar a fé e a militância. Celebrava-se a eucaristia, passava-se informação, cada grupo tinha os seus contactos. Havia o cuidado de não deixar que a política partidária desvirtuasse o sentido cristão da celebração. A maior parte das vezes, era o frei Bento quem celebrava. Em duas ou três ocasiões, lembro-me de ter sido o P. José Sousa Monteiro. Tiveram todos conhecimento, numa dessas missas, dos problemas terríveis vividos por um padre angolano, de quem eu era muito amiga, Joaquim Pinto de Andrade. Passou por residência fixa e vigiada, em várias localidades do país e muitas vezes pela prisão. Era necessário visitá-lo e dar-lhe apoio. Fui visitá-lo várias vezes, com o Alberto Magalhães e o Pedro Villas-Boas.

As missas nos terceiros sábados nunca foram sinalizadas pela PIDE. É fantástico... Ainda duraram dois ou três anos. Alguns tinham de usar astúcias para não comprometer aquele espaço. Era o caso do frei Bento, que precisava de defender-se, pois tinha ao seu cuidado o ocultamento de militantes políticos clandestinos.


Participei noutras actividades, além das já referidas. Recordo-me, por exemplo, de uma ocupação de um bairro, o bairro do Bom Sucesso, em Odivelas. O Pedro Villas-Boas, a Margarida Sousa Lobo, na altura, mulher do Nuno Portas, e outros, trabalhámos lá cerca de um ano. Existe um livro sobre este caso. Basicamente, tentámos que as famílias pudessem permanecer nas casas ocupadas e que o bairro fosse legalizado. Era importante dar apoio aos moradores.

Também participei activamente no programa de alfabetização de adultos (método de Paulo Freire), promovido e orientado pela Manuela Silva e pelo Alfredo Bruto da Costa. A mim, coube-me o difícil Casal Ventoso.

Parte da minha casa transformou-se num arquivo

Um dia, o Nuno, que sabia que eu tinha alugado esta casa, onde ainda vivo, fez-me uma proposta. Ele tinha muita documentação e precisava de um sítio para a arquivar. Então, parte da minha casa transformou-se num arquivo. Ficava num espaço disponível no apartamento, quase um anexo, com uma porta para o exterior, independente, e outra porta de ligação ao resto da casa. Ninguém sabia, nem a família, nem os amigos. Eu só ia a esse lugar quando era seguro. Fazia apenas o trabalho de arquivo. Pela porta exterior, entravam o Nuno, o Luís Moita, o José Sousa Monteiro e o Manuel Brandão Alves.


Boletim Anticolonial - BAC

Daqui, saía o Boletim Anticolonial, o BAC, para ser distribuído por outro grupo. Era produzido noutro local, encaminhado para aqui e depois seguia o seu destino de distribuição. Dizem que era um esquema parecido com as células do PCP. Não sabia quem fazia o boletim, nem quem o distribuía. Claro que tinha restrições em ter gente em casa, por questões de segurança. E havia vários sinais combinados para avisar quando estava acompanhada, sei lá, falava alto no corredor, acendia certa luz... Havia uma combinação de segurança com o Nuno: aquele quarto estava alugado a um tal senhor Carlos, agora não me lembro do apelido, que era agente técnico. Estipulámos o preço do aluguer, como era paga a renda, a forma como o quarto tinha sido alugado, para, no caso de alguém ser apanhado, poder contar essa história à PIDE. O local acabou por ser descoberto.

Em Novembro de 73 fui presa

A 26 de Novembro de 73, prenderam-me. Estava na sala a preparar uma aula (nessa altura era professora na Paula Vicente, secção) e bateram à porta, pelas sete da tarde. Fui abrir nas calmas, não desconfiei de nada. Deparei-me com uns homens enormes. A porta do anexo já estava aberta. Não tive dúvidas de que era a PIDE. Consegui manter-me calma, fiz de conta que não sabia de nada e fui fiel à história combinada. Os Pides remexiam as prateleiras do anexo, que eram bastante precárias, suportadas por tijolos, saltavam em cima das mesas e atiravam para o alto fotografias, como as do massacre de Wiriamu, que tinham chegado há pouco tempo e estavam ainda por arquivar. Lá me levaram presa. Descemos as escadas e, quando chegámos à rua, puseram-se em fila e mandaram-me ir à frente. Não queriam chamar a atenção. Meteram-me no carro e levaram-me para Caxias. Na primeira noite, fui sujeita a um interrogatório muito extenso. Estava numa sala com muitos polícias. A certa altura do interrogatório, como eu repetia sempre a mesma história, mostraram-me um cassetete, mas não me bateram, nem eu acreditei que me iam bater. Estava na fase “brava” e com certa calma à mistura. Julgo que este estado de espírito passa pela convicção. Estava muito em paz com a justeza da luta e também muito mentalizada para que a cadeia poderia acontecer. Quando aceitei a proposta do Nuno, tive logo a imagem da prisão, falámos disso, sabia que era uma coisa que podia suceder. Mas não tínhamos instruções sobre o que fazer na cadeia, como no caso do PCP. Estava mentalizada para o que podia acontecer, mas não sabia o que era. Por outro lado, creio que o facto de os pides se darem conta de que eu não percebia nada de muitas questões que me punham talvez possa ter ajudado um pouco. A certa altura, mostraram-me uma fotografia do Nuno. Estava ainda molhada, ou seja, tinha sido acabada de tirar. Pensei: “Está preso”. Parei com os esforços para não falar. Também não imagino até quando resistiria.

Sei daquela mística do PCP de nunca se falar, mas creio que não se pode criticar alguém se falhar. A tortura é absolutamente desumana e ninguém sabe quais são os seus limites. Eu tive sorte, porque não fui espancada. Se aquilo continuava, não sei como seria. Nessa noite, mandaram-me para a cela e lá perguntaram-me se queria tomar um valium. Estupidamente, disse que sim, contente por poder esquecer tudo. À meia-noite, acordaram-me para interrogatório. Fiquei furiosa! Levaram-me para o reduto sul, onde se faziam os interrogatórios. Fiquei lá quatro dias e quatro noites, a ser interrogada, sujeita à tortura do sono. Sempre que me lembro dos interrogatórios, tenho a sensação de que estive em sítios diferentes, mas, na verdade, nunca saí da mesma sala. Tudo se passa como nos filmes: há o polícia bom e o polícia mau. O polícia bom garante que, se eu confessar, no dia seguinte estaria a gozar as delícias da liberdade. Entretanto, chega o polícia mau, que continua a interrogar, mas berra, ameaça e mete medo.

No feriado de 1 de Dezembro, fiquei praticamente sozinha, mas sempre sentada na mesma cadeira. Não havia ninguém, pensei que talvez estivessem a gozar feriado.

Entretanto, os polícias tinham permanecido vários dias na minha casa, consumindo a dispensa, comendo e bebendo as cervejas que havia. Nas suas buscas, encontraram um gravador que eu utilizava nas aulas. Como tinha textos em alemão, queriam saber o que significavam. Irritei-me e disse-lhes que já tinha explicado “lá em baixo” que aquilo era material das aulas. Ao dizer “lá em baixo”, perceberam que eu já estava a alucinar, pois nunca tinha saído do mesmo sítio. Mandaram-me dormir. Daí por diante, tive mais interrogatórios, mas já sem tortura do sono.

Foi muito importante para mim a ignorância propositada sobre acções e envolvimentos das outras pessoas do grupo. Ajudou a manter uma certa calma e, sobretudo, ao não ter conhecimento, é mesmo impossível informar alguma coisa. A maior angústia dos interrogatórios era o pânico de implicar outras pessoas com as respostas dadas. Tudo era engendrado para criar insegurança. Ao fugir de uma provocação, arriscava-se a entrar por um caminho perigoso. Sem nenhuma verificação exterior, começa-se a imaginar novos enredos, a sentir medo de ter prejudicado este ou aquele. Esta tortura psicológica foi o pior para mim.

Depois, estive em regime de isolamento durante mais de um mês. Não tinha nada para me distrair. Ouvira dizer que deixavam os presos ler a Bíblia. Recusaram o meu pedido. Depois do Natal, comecei a ter visitas da família. Os meus irmãos vieram todos visitar-me. A minha mãe, no Porto, viúva há pouco tempo e já com uma certa idade, foi protegida da realidade, o mais que se pôde.

As visitas eram no parlatório, uma vez por semana. Um dia, foi lá o meu advogado, o Francisco Sousa Tavares, que se ofereceu para me representar. A visita foi muito engraçada. Gritou contra os pides, perguntou se me tinham tratado mal. Era perigoso dizer que sim, respondi logo que não... Estava certo de existirem “escutas” escondidas e pôs-se a procurá-las e dizia-me para procurar também, do outro lado do vidro. É que nas visitas de advogado não havia a presença de pides.

Trazia um livro para mim, oferta da Sophia.

Cheguei à cela muito bem disposta.

Eu era a da “papelichada”, ou seja, sem grande categoria

A 2 de Janeiro, levaram-me para uma cela onde estava a Xexão (Maria da Conceição Moita), que já conhecia, a Fátima Pereira Bastos, minha colega de Faculdade e a Maria José Campos, da Luar, com apenas 17 anos. Todas tinham sofrido torturas bárbaras. Fiquei cerca de um mês e meio nessa cela, onde fui muito bem recebida e nos demos bem.

Organizámo-nos o melhor que podíamos, fazíamos por nos divertir, maneira de superar a situação. Lembro-me que, a seguir ao almoço, eu costumava repetir, convicta: “agora, vou até ao café “. E ríamos. Com este tipo de piadas ingénuas, tornávamos os dias mais leves, procurávamos refúgio numa vida imaginária...

Mas houve uma fase horrível. Pelas pancadas nas paredes, que era a nossa forma de comunicação, convocou-se uma greve de fome. Em causa estava a informação de que um preso, já saído do regime de isolamento, tinha sido levado para interrogatórios. Depois, surgiu outra informação, também pelas batidas nas paredes, de que afinal não tinha sido levado. Mas a greve manteve-se. Tornava-se um acto gratuito, a meu ver. Não concordei com aquele protesto, porque já não existia um objectivo. Por outro lado, pensei que, estando presa e a precisar de forças, não fazia sentido iniciar uma greve de fome por um motivo que já ninguém sabia se existia. Optei por não aderir à greve, mas custava-me imenso ver as outras três da minha cela, desfalecidas, à minha frente. Então, escondia o prato do almoço e do jantar debaixo da cama e só comia às escuras, para elas não terem de assistir. Foi uma situação muito dura, que ainda demorou uns dias. Eu não podia fazer nada. Ainda por cima, havia uma certa “superioridade” das minhas colegas de cela em relação a mim, porque o motivo da minha prisão era só papel, “papelichada”, como diziam. Como se fosse ali, uma de menor categoria. A Xexão pertencia às Brigadas Revolucionárias e as outras duas, à LUAR. Eu não sabia nada sobre luta armada.

Um dia foram-me buscar e libertaram-me. Foi estranhíssimo

Um dia, sem mais nem para quê, foram-me buscar para sair. A saída é estranhíssima. Uma pessoa anseia por esse dia e depois, quando ele acontece… eu estava triste. Cria-se uma tal ligação, fortíssima, com as outras presas...

Sentia-me mal por ser libertada e elas ficarem. Fui para casa do meu irmão Francisco. A vida cá fora era esquisita. Lembro-me de chegar à mesa e perguntar para que serviam os talheres, há muito que os não via. Mas não conseguia dormir a pensar nas outras que estavam na cela.

Uma das primeiras coisas que fiz foi visitar a mãe da Xexão, com muita idade e doente. A PIDE começou a mandar-me recados, que tivesse cuidado, que andava a fazer coisas que não devia e a falar demais. Estava a ser seguida. Sentia-me presa cá fora. Voltei para minha casa e apresentei-me na escola. Chegou um despacho do Ministério a dizer que eu era “pedagogicamente inconveniente para leccionar”. Assim, não me deram alunos, andava lá pelos corredores, sem fazer nada... Soube, pelo António Alçada Baptista, que se previa o meu afastamento, não seria colocada no ano seguinte. Felizmente, deu-se o 25 de Abril. Foi uma alegria enorme. Estava em casa quando um primo meu, afecto ao regime, me veio avisar. Depois de me inteirar bem do que se tratava, fui para a rua festejar. Foi mesmo fantástico!


Maria Luiza Sarsfield Cabral com alunos na Biblioteca da Escola Francisco Arruda.

Não guardei ressentimentos pessoais.

Na altura em que a Directora da Escola teve um processo de saneamento, fui em sua defesa.

Um dia, no Terreiro do Paço, cruzei-me com uma guarda prisional das celas femininas. Hesitei em reconhecê-la , depois, cumprimentei-a. Era, também ela, uma vítima inconsciente do regime.

Entretanto, o Nuno veio aqui a casa convidar-me para integrar o MES. Recusei, porque me pareceu ser um projecto com pouca consistência e o seu contributo para o futuro do país não me era claro. Mas continuava a ter total confiança no Nuno e a mesma amizade. Pouco depois do 25 de Abril, entrei para o Partido Socialista.

A luta de Mário Soares convenceu-me.


Maria Luiza Sarsfield Cabral nasceu a 6 de Dezembro de 1941, no Porto, freguesia de Miragaia.

Aos dez anos, entrou no Liceu Carolina Michaelis, onde estudou até ao sétimo ano.
Foi para a Faculdade de Letras de Lisboa, onde tirou o curso de Filologia Germânica. Anos mais tarde, fez o Mestrado na Universidade Nova, defendendo, em 1993, a tese "Manter a Distância: a Dimensão Religiosa na Obra de Agustina Bessa-Luís”.

Foi professora de português e inglês, e, posteriormente, apenas de português, nas seguintes escolas: Liceu Pedro Nunes, Escola Nuno Gonçalves, Escola Paula Vicente (sede e secção), Escola Francisco de Arruda. Nas suas últimas pertenceu ao Conselho Directivo e teve outros cargos de teor pedagógico. Deu ainda aulas de Português a refugiados, durante cerca de um ano, no âmbito de um programa do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS Portugal) e da Câmara Municipal de Lisboa.

Antes do 25 de Abril, desenvolveu as seguintes actividades no Porto: pertenceu à JEC (Juventude Escolar Católica), à Cooperativa Confronto e participou em diversas actividades da Mojaf. Já em Lisboa, aderiu à JUC (Juventude Universitária Católica), integrou a cooperativa cultural PRAGMA, pertenceu ao grupo que fazia o boletim Direito à Informação e a distribuição dos Cadernos Gedoc, trabalhou, cerca de um ano, com os moradores que ocuparam o bairro do Bom Sucesso, em Odivelas, participou no processo de alfabetização, segundo o método de Paulo Freire, dos moradores do Casal Ventoso.

Logo após o 25 de Abril, tornou-se militante do Partido Socialista.

Integrou a equipa que trabalhou sobre o conteúdo do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen, entregue à Biblioteca Nacional de Portugal em 2011.

A 22 de Fevereiro de 2014, participou no debate “Os Católicos na Luta contra a Ditadura”, organizado pelo Movimento Não Apaguem a Memória e pelo Instituto S. Tomás de Aquino (ISTA). O seu testemunho foi publicado nos cadernos do ISTA.

A 14 de Outubro de 2014, foi a oradora do painel “A dimensão religiosa na obra de Agustina Bessa-Luís”, numa Conferência organizada pela Gulbenkian.

Em 2015, esteve, a convite do Museu do Aljube, no programa Vidas Prisionáveis, que recolhe os depoimentos de ex-prisioneiros políticos e de resistentes à ditadura.

Participou, por duas vezes, no Museu do Aljube, nos Dias Abertos, dando o testemunho das suas actividades anti-fascistas e da sua prisão a um grupo de estudantes e de professores. Esta última iniciativa teve lugar a 17 de Outubro de 2018.

O seu artigo “Os Cristãos Durante a Ditadura” foi publicado no livro Os Anos de Século, Poder Político e Comunicação Social, edição do Sindicato de Actividade Cinematográfica, coordenação de José Carlos Serras Gago, sem data.

Deu um testemunho sobre a sua prisão, e actividade anterior ao 25 de Abril, a alunos da escola profissional Magestil, em Lisboa.

Foi colaboradora do Centro de Documentação de Autores Portugueses.

LUÍSA SARSFIELD CABRAL Vidas Prisionáveis 2015 Museu do Aljube

Luiza Sarsfield Cabral_Teaser

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