Esta terça-feira, o Presidente do Bangladesh nomeou para líder do Governo interino o economista Muhammad Yunus. Laureado com o Prémio Nobel da Paz em 2006, Yunus fundou o banco Grameen e avançou os conceitos de micro-crédito e micro-finanças. O seu nome foi proposto pelos estudantes que derrubaram o Governo de Sheikh Hasina.
Conhecido como “o banqueiro dos pobres”, o economista de 84 anos nasceu em Chittagong, no sudeste do Bangladesh. Estudou na universidade de Dhaka, recebendo mais tarde uma bolsa que lhe permitiu tirar o doutoramento em economia na universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos da América.
Regressou ao Bangladesh depois de conquistada a independência ao Paquistão, em 1972, onde testemunhou a pobreza e falta de alimentos que, em 1974, mataram 1.5 milhões de pessoas. Em 1983 fundou o banco Grameen, popularizando o uso de micro-créditos como forma de combater a pobreza. Essa prática permitiu que as camadas mais pobres da sociedade, que geralmente não conseguem acesso ao crédito bancário convencional, pudessem ter acesso pela primeira vez a uma linha de apoio sem precisarem de apresentar uma garantia.
O seu trabalho com o banco Grameen valeu-lhe, em 2006, o Prémio Nobel da Paz, mas não o isentou de receber críticas, nomeadamente ligadas ao facto de como as altas taxas de juro dos micro-empréstimos empobreceram os devedores ao mesmo tempo que geraram grandes lucros aos credores. O Madeleine Buntig, no Guardian, chamou ao micro-financiamento um “conto de fadas neoliberal”, citando vários argumentos que explicam que o micro-crédito tem problemas estruturais.
Entre esses argumentos estão o de que a premissa do micro-financiamento é falsa, uma vez que parte da ideia de que as pessoas pobres podem enriquecer se tiverem acesso a crédito, colocando o ênfase no indivíduo, mas não atendendo ao facto de que o enriquecimento normalmente acontece através de esforços coletivos; mas também de que o o micro-crédito não é usado principalmente para a criação de riqueza mas sim para facilitar consumos que de outra forma seriam impossíveis, criando um ciclo de endividamento.
Em 2011, Yunus criou a Yunus Social Business, como forma de criar e investir em empresas da economia social. Entre 2012 e 2018 foi Chancellor da Universidade Caledónia de Glasgow, e entre 1998 e 2021 fez parte do conselho de administração da Fundação das Nações Unidas.
Apesar do seu trabalho incidir sobretudo sobre as camadas mais pobres da sociedade e Yunus afirmar que o seu principal objetivo é combater a desigualdade, o economista não oferece uma crítica ao capitalismo, defendendo pelo contrário o sistema de exploração e procurando um “novo tipo de capitalismo” através do empreendedorismo social. A corrente de pensamento à qual pertence e para a qual contribui, chamada de “capitalismo humanista”, tem sido alvo de fortes críticas à esquerda por ser uma lavagem de imagem ao capitalismo.
Um longo percurso de envolvimento político
O empresário tem participado ativamente na vida política do Bangladesh há duas décadas. Assinou várias cartas abertas e participou em campanhas a favor da transparência e da honestidade na política bengalesa.
Em 2007 assumiu a sua entrada em grande na política quando anunciou a criação de um partido chamado “Poder dos Cidadãos”, mas passado menos de um mês afirmou que tinha desistido da sua ideia de assumir um papel político mais relevante depois de uma reunião com o então presidente do Governo interino.
Foi fundador e participou no grupo encabeçado por Nelson Mandela, conhecido como “The Elders” (Os Anciãos), uma organização não governamental que juntou várias figuras públicas, ativistas pela paz e pelos direitos humanos. Em 2016, foi nomeado pelo então Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, para a Comissão de Alto Nível sobre Saúde, Emprego e Crescimento Económico.
É há muito tempo crítico da antiga primeira-ministra, Sheikh Hasina, que se demitiu no início desta semana, fugindo do país. O executivo de Hasina tinha investigado várias vezes o banco Grameen, devido a vários problemas legais relacionados com Yunus. O economista e empresário apoiou a luta dos estudantes contra as cotas no acesso à função pública e a sua nomeação como líder do Governo interino surgiu depois de uma negociação entre os estudantes que se manifestaram contra o fim do sistema de cotas, as forças armadas e o Presidente do Bangladesh, Mohammed Shahabuddin.