Neste seu último filme, Cristian Petzold parece despojar o seu cinema ao máximo, deixando-nos (quase) apenas o que podemos chamar de um esboço, um rascunho de filme. Em todo o caso, com tudo lá dentro. E esse tudo não será pouco, pois revela-nos uma dimensão caleidoscópica do seu cinema, reverberando outras dimensões. Lá está, como um espelho. Miroirs Nº 3 é um filme que quer ser pequeno. Vamos descobrir porquê.
Há um plano de um olhar em movimento que vale (quase) por todo o filme. Nele, uma mulher fita a outra de passagem, mas como uma visão de quase cumplicidade. Um olhar que não é inocente, algo que lhe vem do passado. O suficiente para nos fazer abrir os olhos e despertarmos a mente.
Ficaremos a saber que esta mulher, Laura (um nome muito cinematográfico — sim, o título do filme de Preminger, de 1944 — e ligado à duplicidade), poderá ser a reencarnação da sua filha morta, também ela pianista. Laura é interpretada por Paula Beer, digamos, a atriz recorrente nos três filmes anteriores de Petzold (Afire, Undine, Transit) — assim como Nina Hoss fora nas quatro obras precedentes (Phoenix, Barbara, Jerichow, Yella). Talvez esta ideia de ‘parte’ ou reflexo, de um filme maior, comece por essa assunção de camadas na(s) atriz(es), nas suas múltiplas reincarnações.
É verdade que a alusão ao famoso filme de Hitchcock serve também para sublinhar essa dualidade que se enreda no cinema de Petzold. Como se acrescentasse mais uma peça a um filme enigmático maior, alojado, de algum modo, na memória, no lastro do tempo. Mas também numa certa duplicidade que inquieta, no ‘outro’. Afinal de contas, no cinema, na sua capacidade de reprodução.
Miroirs Nº 3 (título do tema musical do filme), é um trecho de Ravel que revela o ‘fantasma’ do filme, a mulher que viveu duas vezes. Uma mulher que sobrevive ao acidente de automóvel que mata o seu marido. Sozinha, ela é recebida por Betty (Barbara Auer), que testemunha a tragédia e a acolhe em sua casa. É então, na presença desse ‘fantasma’, desse mundo em ruínas, que ambos olham para trás, procurando reparar feridas possíveis. Justamente aí, o marido e o filho de Betty (Mathias Brandt e Enno Trebs). Vem à memória o paradigma no texto ‘Angelus Novus’, do filósofo alemão Walter Benjamin, descrevendo um anjo confrontado com o futuro em ruínas, que procura, desesperadamente, olhar para trás, apesar de ser empurrado para a frente, pelo vento da renovação.
Talvez seja exatamente para isso que somos convocados, quase em surdina: participar e ajudar a colocar essas peças, compreender o estado deste mundo fílmico. Li que Miroirs Nº 3 se apresenta como uma obra menor na filmografia de Christian Petzold. Independente do seu posicionamento na sua carreira, essa reflexão estimulante sobre identidade, perda e nossas relações com o passado é coisa de grande valor. Sim, Miroirs Nº3 desdenha ser um grande filme – deseja ser apenas o filme que poderemos descobrir, pensando-o.
Em 2019, tive a oportunidade de entrevistar Petzold e, inevitavelmente, abordar a coerência do seu cinema e as revisitações de seus duplos. Algo que permanece tão atual, mesmo after all these years… e que parece estar sintetizado nesta pergunta sobre seu fascínio pelo passado e os fantasmas que nele vivem:
“Quando eu e o Harun Farocki (falecido em 2014, a quem Christian dedica Transit) terminámos o filme The State I am In (2000) filmado parcialmente no Algarve e, curiosamente, com Barbara Auer — percebi que se tratava de uma história sobre fantasmas, sobre individualidades esquecidas pela História. No fundo, as personagens do filme procuram materializar-se e adquirir uma nova vida. Querem sentir que são feitas de carne e osso. E acho que é exatamente isso que o cinema representa: histórias sobre pessoas que perderam seus entes queridos ou o trabalho; que, de alguma forma, foram traumatizadas ou ficaram para trás na vida e já não têm mais espaço.”
É isso.
Artigo pubicado em Insider.pt