Extrema-direita

Milei insulta Sánchez, governo espanhol pede explicações

20 de maio 2024 - 16:37

No comício do Vox com a extrema-direita internacional houve espaço para justificar o genocídio em Gaza, acusar o “socialismo” de matar milhões e atacar os imigrantes. Mas no meio da gritaria foi o presidente argentino quem sobressaiu, causando um incidente diplomático.

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Milei no comício do Vox
Milei no comício do Vox. Foto do Vox no Flickr.

Este domingo, a convite do Vox, o Palácio Altavista em Madrid recebeu a extrema-direita internacional. De acordo com a organização, cerca de dez mil pessoas assistiram a discursos muito semelhantes nas temáticas fetiche desta área política. O destaque foi para o presidente argentino Javier Milei e os seus ataques ao socialismo que, alega, “conduz à pobreza e à morte” (segundo as suas “contas” o “socialismo” fez “150 milhões de mortos”), é um “cancro” e “esconde o pior do ser humano”, apelando assim a “destruir essa ideia parasitária do Ocidente”.

Mas o que chamou sobretudo a atenção foram os insultos dirigidos à mulher do chefe do governo espanhol. O mais alto representante da Argentina aproveitou a viagem ao comício partidário, ao qual o político “anti-Estado” foi à conta dos contribuintes do seu país, para acusá-la de ser “corrupta” sem nunca ter coragem de a nomear: “as elites globais não se dão conta do quanto é destrutivo implementar as ideias do socialismo. Não sabem que tipo de pessoas se meteram no poder e que abusos podem gerar. Por exemplo, quando se tem uma mulher corrupta, se suja e leva cinco dias a pensar no assunto”, disse.

O governo espanhol reagiu prontamente, através de uma declaração do Ministro dos Assuntos Exteriores, José Manuel Albares. Exigiu um pedido de “desculpas públicas” e disse que chamou de volta ao país sine die para consultas a sua embaixadora na Argentina, María Jesús Alonso. Lançou ainda a ideia que Espanha irá tomar “medidas oportunas” para defender a sua “soberania e dignidade” face à “ingerência” que “não tem precedentes na história das relações internacionais”, sendo “inaceitável que um presidente em exercício, em visita à Espanha, insulte Espanha e o presidente do Governo de Espanha”.

Em seguida, numa primeira resposta, o Partido Popular parecia justificar as palavras de Milei ao limitar-se a afirmar, pela boca do porta-voz no Congresso, Miguel Tellado, que “o silêncio de Sánchez gera dúvidas em Espanha e no estrangeiro” e ao acusar o governo de querer “que Milei mobilize o eleitorado o qual o governo já não convence”. A direção do PSOE, por intermédio de Santos Cerdán, contra-atacou dizendo que Núñez Feijóo “não pode olhar para o outro lado”. E instou-o a condenar de forma “clara e contundente” as declarações do presidente argentino.

A troca de argumentos continuou na tarde desta segunda-feira com o primeiro-ministro Pedro Sánchez a declarar, numa sessão organizada pelo jornal Cinco Días, estar “plenamente consciente de que quem falou ontem não o fez em nome do grande povo argentino. Mas isto diz muito sobre o risco que representa esta 'internacional ultra'”.

Sem mencionar o líder do maior partido da oposição, não deixou de lançar-lhe críticas: “Defender as instituições de insultos ou difamações não é uma questão de "se" ou "mas". Para além da ideologia, está a educação e o patriotismo". Ao líder do Vox criticou o seu “apelo explícito à violência política. Dizer que um governo legítimo deve ser expulso a murros e pontapés é antidemocrático e exige uma condenação categórica por parte de todas as forças políticas”.

Horas antes já Esteban González Pons, outro dirigente do PP, se sentia na obrigação de dizer que o discurso de Milei era “uma intromissão na política nacional” feito “num espetáculo que qualificarei como chocante”. As críticas ao presidente argentino iam no sentido de considerar que a primeira viagem deste ao país não deveria ter sido feita “sem saudar o rei, o Governo e o Parlamento” e no âmbito de uma atividade partidária mas, acrescentava-se “a mulher de Pedro Sánchez não é um assunto de Estado”.

A cúpula do PP não deu o caso por encerrado e o próprio Alberto Feijóo, um pouco mais tarde voltou ao tema para tentar equiparar o PSOE a Milei: “o que fez Milei é uma amostra do que faz o Governo com quem não pensa como ele”. O dirigente da direita foi rebuscar o caso de umas declarações do ministro Óscar Puente que tinha sugerido que Milei usa “substâncias” para dizer que foi o Governo espanhol que “começou” esta guerra. O responsável da pasta dos Transportes e Mobilidade Sustentável tinha-se retratado das declarações polémicas dois dias depois. Isto não impediu Feijóo de tentar convencer que a forma de fazer política dos dois é a mesma.

Entretanto, Milei, por seu turno, não parece arrependido do que disse. Tanto que republicou a seguir na rede social X várias mensagens de extrema-direita que criticavam a resposta do executivo espanhol. Chegado ao seu país escreveu em tom mais triunfalista: “o leão voltou, surfando uma onda de lágrimas socialistas”.

Ainda sobre o incidente diplomático, o Página 12 cita o porta-voz da presidência argentina, Manuel Adorni, que diz que “não há nada de que desculpar-se” e pede em troca também um pedido de desculpas do governo espanhol.

Do ódio ao “socialismo” e aos imigrantes à defesa do genocídio em Gaza

Santiago Abascal, o anfitrião, atacou a “direitinha cobarde” que “engana os espanhóis” porque “forma coligação em Bruxelas com o PSOE e, sobre este, retomou os habituais ódios: as políticas de memória contra o fascismo, o “terrorismo”, a “imigração ilegal massiva” e o islamismo.

Outra das “estrelas” da sessão foi o ministro dos “Assuntos da Diáspora de Israel e Combate contra o Anti-semitismo”, Amichai Chikli, que foi justificar o genocídio em Gaza perante o aplauso da plateia. O seu combate ao anti-semitismo não foi, contudo, ao ponto de comentar ou criticar algo que foi notícia em parte da imprensa israelita: a presença, no ato final da campanha eleitoral do Vox nas recentes eleições catalãs, de Pedro Varela Geiss, um livreiro neonazi, negacionista do Holocausto, ex-líder do Círculo Espanhol de Amigos da Europa, a mais importante organização neonazi espanhola até à sua dissolução, atualmente a ser julgado por pertença a organização criminosa, justificação e negação do Holocausto e crimes de ódio contra judeus, imigrantes, muçulmanos e homossexuais, como destaca o La Marea.

O trumpista Matt Schlapp, ex-diretor de Estratégia Política na administração Bush, foi no mesmo sentido, afirmando que a esquerda “abraçou o Hamas”. Disse ainda aos dirigentes da “esquerda criminosa” para “não tocarem nos nossos filhos, nas nossas famílias e nas nossas liberdades”. A sua mulher, Mercedes Schapp, da American Conservative Union, diz que a esquerda quer “acabar com a civilização”. E o seu conterrâneo Roger Severino, da Heritage Foundation, trouxe a transfobia rematando que “Deus não comete erros”.

O ex-candidato presidencial chileno José Antonio Kast, um defensor de Pinochet, falou “nas forças da liberdade”, como classifica a extrema-direita, que teria “travado o avanço da esquerda mais radical”.

Marine Le Pen, Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro, e Georgia Meloni, primeira-ministra italiana, também falaram, presencialmente ou por vídeo-conferência.

Pelo meio, e no meio dos “seus”, o discurso de André Ventura não se distinguiu, falou também na prisão para os “corruptos” e elogiou os seus correligionários, afirmando que ele, e os restantes, chegariam em breve ao governo.

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