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Mercenários russos acusados de massacres no Mali e República Centro-Africana

A presença dos paramilitares russos do Grupo Wagner no apoio a governantes africanos aumentou nos últimos anos. E as denúncias dos seus crimes de guerra também.
Elemento do grupo Wagner na segurança presidencial na República Centro-Africana. Imagem VOA

Uma reportagem publicada esta quarta-feira no Guardian, a partir de documentos internos do exército maliano, dá conta da presença dos mercenários do Grupo Wagner, uma rede de empresas privadas de segurança controlada por uma figura próxima de Vladimir Putin, nas "missões mistas" levadas a cabo pelo exército e que resultaram no massacre de civis.

Entre janeiro e meados de abril, nas contas da ONG Armed Conflict Location and Event Data Project (ACLED), terão sido assassinados 456 civis em nove incidentes que envolveram tropas malianas e mercenários russos, apresentados pelo governo como "instrutores" que não participam em combates. O maior massacre terá ocorrido na localidade de Moura, controlada por islamistas, onde em quatro dias terão morrido entre 350 e 380 pessoas. Outro ocorreu num mercado onde o exército terá disparado indiscriminadamente sobre as pessoas em resposta a uma emboscada que terá vitimado um dos mercenários vindos da Rússia. Calcula-se que o Grupo Wagner tenha entre 600 e mil elementos no Mali.

Tortura e execuções na República Centro-Africana

Também na República Centro-Africana as atividades do grupo de mercenários contratados pelo governo para combater rebeldes estão na mira da Human Rights Watch, que denuncia a prática de tortura, espancamentos e execuções. Com base em depoimentos de testemunhas, esta ONG diz que em julho do ano passado, 13 pessoas desarmadas teriam sido espancadas e baleadas na cabeça perto de Bossangoa, a 300 kms ao noroeste de Bangui.

Segundo as testemunhas, os homens que falavam russo entre si, montaram uma barreira na estrada, pararam as vítimas, espancaram-nas e balearam-nas, enterrando pelo menos oito delas num buraco aberto à beira da estrada. A presença do Grupo Wagner no país remonta a 2018 e os seus abusos têm sido denunciados desde então. Nesse mesmo ano, três jornalistas russos que faziam um documentário sobre a presença dos mercenários naquele país foram assassinados, sem que nunca se tenha descoberto os autores do crime.

No final do ano passado, um relatório da União Europeia reconhecia que a maior parte das unidades do exécito centro-africano são comandadas por elementos do Grupo Wagner e que essa influência enfraquece as missões conduzidas quer pela ONU quer pela UE naquele país de cerca de 5 milhões de habitantes, onde mais de metade da população carece de ajuda humanitária e cerca de 1,5 milhões de pessoas estão refugiadas nos países vizinhos ou internamente. O mesmo relatório estimava o número de mercenários russos em mais de 2.600.

Em outubro do ano passado, a ONU divulgou a denúncia por parte de jornalistas, elementos das forças de manutenção de paz e trabalhadores da ajuda humanitária na República Centro-Africana acerca da intimidação e assédio violento de que eram vítimas por parte dos mercenários do Grupo Wagner. A própria comissão de inquérito instaurada pelo Governo reconheceu que os abusos aos direitos humanos também foram praticados pelos "instrutores russos"

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