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Marxismo e feminismo: encontros no século XXI

A nova legitimidade conquistada pelo feminismo no debate político e social e a disputa conceptual em curso são temas da intervenção de Andrea Peniche na Conferência dos 200 anos de Marx, nos dias 24 e 25 de março.
Andrea Peniche
Andrea Peniche. Foto Henrique Borges.

Durante muitos anos, uma das dificuldades com que o movimento feminista se debateu foi com a de se legitimar como movimento social. Contudo, as coisas parecem estar a mudar. Em 2017, a palavra feminismo foi a mais pesquisada no dicionário em linha de uma editora norte-americana de referência. Essa curiosidade pela palavra explica-se não só pela eleição de Donald Trump, cujas políticas e retórica misóginas convocam necessariamente o feminismo para que o seu alcance possa ser compreendido e criticado, mas essa atenção também se manifesta, por exemplo, na estreia do filme Mulher Maravilha, como uma representação hollywoodesca do crescimento da imagem das mulheres, mas sobretudo explica-se porque surgiu o poderoso movimento #MeToo, entre outros fatores. Se isto não significa que o mundo tenha passado a ser feminista, significa, no entanto, que o feminismo conquistou uma nova legitimidade no debate político e social, não estando mais acantonado no espaço da irrelevância política. Esta nova situação torna urgente o debate à esquerda, no sentido de não se permitir que o capitalismo capture e docilize a teoria e as suas propostas e, pela via do mercado, transforme uma irrelevância com raiz na invisibilidade e ausência dos meios de poder, numa irrelevância de conteúdo e de proposta política transformadora.

O feminismo, na verdade, sempre se disse no plural, mas o momento atual, pela sua exigência, reclama de nós algumas clarificações. Dizer que o feminismo é uma teoria e uma prática emancipatórias foi uma declaração que serviu enquanto o feminismo foi marginalizado. Agora os tempos são de disputa conceptual e política. Mas, apesar de tudo, esta disputa tem já uma história longa, tendo sido travada entre marxistas e liberais, mas também dentro do próprio marxismo. O percurso que pretendo fazer é, por um lado, o da revisitação de alguns debates centrais ocorridos no feminismo e, por outro, ensaiar de que modo é que eles nos ajudam a compreender a realidade atual e a situarmo-nos nela enquanto militantes e ativistas. Apoiar-me-ei na Greve Internacional de Mulheres do passado 8 de Março como pano de fundo para esta reflexão, no sentido de perspetivarmos a nossa participação nesta disputa que seguramente marcará a nossa intervenção militante nos próximos tempos.

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