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Marisa: escolha de novos líderes da UE é um "filme surrealista" que é "mau demais para ser verdade"

A escolha dos novos líderes da Comissão e outras instituições europeias é para Marisa Matias um "filme surrealista" que põe a nu a falta de democracia de uma UE "cada vez mais virada à direita e à extrema-direita".
Marisa Matias, RTP. Imagem: RTP.
Imagem: RTP.

Marisa Matias considerou as decisões para a liderança das instituições europeias dignas de um "filme surrealista" e "mau demais para ser verdade", ao cederem em toda a linha à extrema-direita, prevendo que os próximos anos vão agravar os problemas de uma Europa "cada vez mais virada à direita".

Em declarações esta quarta-feira à RTP no Parlamento Europeu, a eurodeputada do Bloco foi lapidar: "Isto é tudo matéria de um filme surrealista, para ser muito honesta. A forma como as decisões são tomadas mostra às pessoas que não há democracia na União Europeia em matéria de decisão", afirmou. "Mesmo quando as tentam enganar com supostos candidatos à UE, percebe-se que nada disso funciona. Ontem à ontem matou-se definitivamente a ideia, que era errada, de que as pessoas podiam votar para o presidente da UE", acrescentou.

O nome de Ursula von der Leyen, recorde-se, foi avançado pelos 28 governos para a Comissão Europeia na terça à noite para surpresa geral, passando por cima dos cabeças de lista avançados há meses pelas diversas bancadas, após uma frente do grupo de Visegrado (Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia), a Itália, Croácia, Roménia, Letónia e Irlanda ter bloqueado um acordo para colocar o social-democrata Frans Timmermans à frente da Comissão. Para ser eleita, Leyen precisará do apoio dos deputados do seu Partido Popular Europeu, dos liberais e do centro-esquerda. Num panorama de fragmentação política como nunca houve na UE, a votação será renhida.

Marisa Matias prosseguiu num tom duro: "havia escolhas que não podiam ser mais impossíveis, e foram essas que chegaram ao fim. É esse o resultado, uma cedência total ao grupo de Visegrado e à extrema-direita, que não queriam dois candidatos e conseguiram não os ter".

O juízo foi menos demolidor apenas para o novo presidente do Parlamento Europeu, o social-democrata italiano David Sassoli. "Não era o nosso candidato", disse Marisa, mas referiu no seu discurso "as questões importantes que temos de enfrentar" como os refugiados, as migrações, os direitos humanos, direitos das mulheres, a igualdade de género, e "tem capacidade de fazer pontes" no sentido de procurar "alianças mais progressistas, numa casa que está cada vez mais virada à direita e à extrema-direita".

Quanto às restantes escolhas, Marisa não poupou nas críticas. Ursula von der Leyen, o novo nome avançado para a Comissão Europeia, é "alguém que foi muito mais dura com a Grécia que o ministro Schäuble, que faz dele um moderado, e que tem contratos dúbios na indústria da defesa enquanto ministra e está a ser investigada por isso". Christine Lagarde, que pode transitar diretamente da liderança do FMI para a do Banco Central Europeu, significa "ter à frente do BCE alguém que foi já condenada por corrupção, por desviar indevidamente alguns milhões a favor de uma pessoa". Charles Michel, que sucederá a Donald Tusk na presidência do Conselho Europeu, significa colocar à cabeça da mesa onde os governos negoceiam "um primeiro-ministro demissionário que não é capaz de formar governo no seu próprio país" — a Bélgica tem tido grande dificuldade nos últimos anos para formar governos. "Parece anedota mas é verdade. É o prémio para os liberais", criticou Marisa.

Tudo decisões "de filme", disse Marisa Matias. "O problema é que não é: é política", e política que "não responde aos problemas que temos pela frente e reforça o eixo franco-alemão". A coligação anunciada entre liberais e social-democratas (António Costa, recorde-se, ensaiou uma aproximação ao presidente francês Macron), que "tinha como objetivo a afastar a extrema-direita, a única coisa que conseguiu foi ceder à extrema-direita".

"É mau demais para ser verdade", concluiu Marisa Matias. Em relação à liderança do GUE-NGL, grupo em que o Bloco se insere, explicou que há para já um acordo de "uma liderança partilhada por quatro pessoas" e que "reabriremos o debate a partir de 16 de julho", escusando-se a comentar mais detalhes.

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