Cinema

Maria Vitória – o que fica depois do fogo

10 de março 2026 - 14:53

Estreia auspiciosa de Mário Patrocínio nas longas de ficção. Um registo potente que filma aquilo que não se vê.

porPaulo Portugal

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Mariana Cardoso em ‘Maria Vitória’
Mariana Cardoso em ‘Maria Vitória’ (Foto APM / BRO Cinema).

O plano inicial de Maria Vitória é daquelas imagens que ficam connosco. Um homem, no meio do rio, segura a filha ao colo. A atenção centra-se nela, estupefacta, assistindo ao helicóptero que desce, ali mesmo, para se abastecer de água para apagar um incêndio. Mas é no olhar dela que a câmara (e nós) se centra, visivelmente abalado pelo barulho, o vento, a imagem do aparelho. 

Sim, este é mais um filme afetado pela problemática dos incêndios – e de quem os ateia para chamar a atenção em lugares onde nada se passa – mas isso é uma outra conversa. O que mais interessa em Maria Vitória – um filme acabado de chegar às salas e estreado na secção competitiva do festival de Tóquio, além de exibido no LEFFEST – é como o olhar aprende a procurar os elementos que importam para construir a sua narrativa, afinal de contas, as histórias das personagens. Ou daquilo que fica depois do fogo.

Será, aliás, esse lado do indizível, do momento que dispensa palavras a construir este filme surpreendentemente belo de Mário Patrocínio, na sua estreia nas longas de ficção. Isto apesar da carreira sólida em curtas (O Afinador de Silêncios(2023) e Antes do Nascer da Lua (2024) e da entrada, fulgurante, no cinema do real, com o potente documentoComplexo: Universo Paralelo (2010), filmado na favela Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, pouco antes desse espaço ser tomado pela polícia. 

Miguel Nunes e Miguel Borges: um tremendo frente a frente em ‘Maria Vitória’ (Foto APM / BRO Cinema).
Miguel Nunes e Miguel Borges: um tremendo frente a frente em ‘Maria Vitória’ (Foto APM / BRO Cinema).

É verdade, estamos no espaço da terra queimada, tal como em Justao tremendo filme de Teresa VilaverdeEmbora, diga-se, Patrocínio não fica muito aquém daquele que será um dos grandes filmes portugueses dos últimos tempos. Sobretudo por essa narrativa fugitiva que se apenas se afirma no jogo do ótimo naipe de atores. E teremos de dizer os seus nomes: desde logo, a começar pela revelação chamada Mariana Cardoso, ela que se afirma entre os dois Miguéis – o Borges, essa força da natureza, seu pai, Nacho, que a foca nos “treinos-de guarda-redes-para-entrar-numa-equipa-de-topo”; e o Nunes, o seu irmão mais velho, Bruno, regressado depois de partir para o Canadá (com o fogo e a morte da mãe) e regressado já transformado.

Encalhada entre o foco, a autoridade do pai, e o espaço em que vive, Maria terá de aprender a viver de novo, a renascer. Mesmo que possa não ser na equipa de futebol masculina, onde treina, à espera da oportunidade de ser descoberta por um olheiro, ou, quem sabe até, pelo desejo. Quase como todas as personagens presas a esse limbo de cinzas que ainda não esfriaram. Até porque em seu redor existe um mundo do qual Maria Vitória não faz parte verdadeiramente. Seja o grupo de colegas de escola, muito fora dos clichés do género, a contribuir com um inesperado e colorido ritmo rap (ou trap?) e de dança, contribuindo para afirmar o filme num contexto bastante atual e nada suburbano. Ou até a sua família, onde emerge também e imagem da avó que proporciona o fascinante segundo momento musical estruturante do filme. Como que a dizer, as coisas que acontecem no filme não têm de ter uma explicação.

“Eu sempre quis fazer ficções”, afirma Mário Patrocínio, no diálogo com o público após a sessão de estreia no Cinema Nimas. “Só que às vezes há que fazer uma caminhada e foi isso que fiz, através dos documentários”. Ele sublinha precisamente a importância da escuta, “das histórias reais que me pudessem inspirar e que depois pudesse de alguma forma transportá-las para o universo da ficção”. E serve-se até da experiência na publicidade, onde foi buscar “o exercício de rapidez, de trabalhar com muitos estilos ao mesmo tempo”.

Maria Vitória vem então de uma história real, muito pessoal, no caso, a perda da sua própria mãe, em 2018. É então essa sensação de vazio que experimentamos, que percebemos pela perda coletiva fixada num cartaz com os rostos de todos aqueles que pereceram nas chamas. “Depois de ir várias vezes à Serra da Estrela e ter percebido o que é lá aconteceu, como acontece em outros lugares de Portugal, foram momentos de inspiração que me ajudaram a chegar a esta história. Resumindo, foi um processo profundo que me ensinou muito enquanto ser humano e cineasta.”

Foi então com base nessas realidades que se foram trabalhando, e transformando, as diferentes personagens, reescrevendo os diálogos. Desde logo Mariana, apenas com papéis secundários em séries ou novelas de televisão (Jardins ProibidosMorangos com Açúcar), aqui a ser empurrada para o protagonismo de um filme que tem o nome da sua personagem, Maria Vitória. Um desafio, pois, na verdade, como a própria explica, foi algo que teve de ser feito “além do guião, pois este pouso explicava, pois o que ela dizia não era o que ela sentia. Era muito difícil perceber quem era ela.” Ela que acabava por ser um produto do pai-treinador de casa, Nacho (Miguel Borges), habituado a viver de favores e a encará-la até como um ‘passaporte’ para uma vida de pai de uma jogadora de futebol profissional.

Mariana Cardoso e Miguel Nunes, em ‘Maria Vitória’ (Foto APM / BRO Cinema).

A própria Mariana só gradualmente foi percebendo as dúvidas que tinha sobre a personagem: “Agora, olhando para trás, para mim não era óbvio quem era esta pessoa e o que é que ela fazia, porque ela própria também não o sabia. O filme é exatamente esse processo de descoberta de quem é e o que pode eventualmente vir a ser.” Já Miguel Nunes (Cartas da Guerrade Miguel GomesNão Sou Nada – The Nothingness Club, de Edgar Pera), impecável no irmão mais novo que regressa também das cinzas de um passado que deseja concertar e se intromete na dinâmica delicado da sua família. “Era evidente que que o jogo estava lá e nós tínhamos que saber aproveitar”, refere, “basicamente foi isso, por isso é que gostei muito, muito, muito fazer.”

Ficou para o outro Miguel a surpresa se saber, no casting, que não o teria de fazer, pois já estava escolhido. Percebe-se, e os realizadores sabem, que Borges é um dos valores seguros mais consistentes do cinema português, sobretudo num determinado registo, em que a sua carga visceral é insuperável. Como, e não por exemplo, em O Barqueiro, de Simão Cayate, agendado para abril.

Ao longo da conversa percebe-se então que o filme foi-se construindo sobretudo a partir das dúvidas, mas ao mesmo tempo também das soluções sugeridas, mesmo que em forma de perguntas. Porque é isso que se vê na tela. É então assim, dessa forma quase indizível, que Maria Vitória vai renascendo das cinzas e, como sugerimos no início, ajudando a desenhar as personagens e a procurar de soluções de diferentes maneiras. Ou seja, filmando aquilo que não se vê. O que não cabe nas palavras.


Artigo publicado em Insider.pt

Paulo Portugal
Sobre o/a autor(a)

Paulo Portugal

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt