Após meses de uma batalha contra o cancro, faleceu esta segunda-feira aos 57 anos Maria do Carmo Bica, uma das vozes que mais se bateram ao longo das últimas décadas pelo combate ao abandono do interior e a organização associativa em torno do desenvolvimento rural na região de Lafões. Conhecida pela sua combatividade, mas também por uma inesgotável energia e capacidade de trabalho, Carmo Bica deixa-nos um legado importante nas lutas ambientais e sociais numa parte do país que ao longo das décadas foi votada ao abandono.
Natural de Paços de Vilharigues, no concelho de Vouzela, Maria do Carmo Bica fez o ensino básico e secundário em Vouzela e São Pedro do Sul. Seguiu para a Escola Superior Agrária de Coimbra, completando os estudos superiores com uma pós-graduação na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Deu aulas a partir de 1986 e no início da década de 1990 começou a sua carreira como técnica superior no Ministério da Agricultura. Atualmente desenvolvia a sua atividade na Rede Rural Nacional, uma plataforma da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural para promover a participação e o trabalho conjunto entre os agentes de desenvolvimento rural em Portugal.
O percurso associativo de Carmo Bica levou-a a dirigir durante 18 anos a Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões e a presidir à Cooperativa 3 Serras de Lafões, em Vouzela. Foi também dirigente da Confederação Nacional de Agricultura enquanto representante da Associação Regional de Agricultores de Viseu, a qual fundou e foi primeira presidente. Foi ainda dirigente da ANIMAR – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local. A par desta atividade associativa, Carmo Bica dirigia atualmente o jornal Gazeta da Beira, dedicado à região de Lafões.
O ativismo em defesa do mundo rural cruzou-se na vida de Carmo Bica com o da defesa dos direitos das mulheres agricultoras e rurais. Em março deste ano, num artigo escrito para um livro editado pela associação UMAR, da qual fez parte, reconhecia que “está tudo por fazer” para promover a efetiva igualdade de género nos meios rurais: “É urgente criar um Estatuto das Mulheres Agricultoras, à semelhança do que já existe noutros países, que inclua medidas que possam contribuir para alterar as condições de vida das mulheres agricultoras, nomeadamente, alterar as condições de acesso à Segurança Social, através da criação de um regime específico e adequado à realidade concreta da pequena agricultura familiar; preferência nos direitos às ajudas directas da PAC, no caso de divórcio e partilha da exploração; medidas de descriminação positiva em candidatura de projectos a fundos comunitários; acesso a um programa de formação adaptado às suas necessidades; incentivos à constituição de organizações de mulheres agricultoras”, defendia nesse artigo.
No jantar dos 40 anos da UMAR com Manuela Tavares (em pé) e Jorgete Teixeira.
Carmo Bica (1963-2020), uma dor irreparável! Sorriso aberto e irradiante, quando falava das causas em que...
Publicado por UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta em Terça-feira, 18 de agosto de 2020
A atividade política de Carmo Bica passou pela militância comunista nos anos 1980 e 1990, passando pela UEC e pela direção da JCP. Foi deputada municipal em Vouzela entre 1989 e 1993 e candidata às legislativas de 1991 e 1995, protagonizando depois a candidatura do PCP à autarquia de Vouzela em 1997.
Numa entrevista dada em 2013 ao Arquivo Digital Binaural Nodar, a propósito da sua candidatura à autarquia de São Pedro do Sul encabeçando a lista do Bloco de Esquerda, fala da sua infância e da força que então tinha o preconceito contra as ideias de esquerda na região. “Desde cedo percebi que tinha de ter uma atitude na vida completamente irrepreensível. Para viver aqui e ser respeitada afirmando-me como comunista eu tinha de ser boa aluna, vestir de uma forma discreta, ter uma atitude na vida de forma a que ninguém me pudesse apontar nada. Cresci com esta mentalidade e sempre senti que as minhas ideias eram marginais. Mas cresci convencida de que estava no caminho certo: a defesa de uma sociedade mais justa com igualdade de oportunidades para todos e que isso era absolutamente fundamental para a minha região”.
A aproximação ao Bloco de Esquerda surge com o convite de Miguel Portas para integrar a lista às eleições europeias de 2004, na qual o Bloco elegeu o primeiro eurodeputado. Carmo Bica integrou depois vários órgãos concelhios e distritais do partido, em Viseu e Lisboa, onde foi eleita autarca na freguesia de Campolide no atual mandato. Fez também parte da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda a partir de 2014 e das listas às últimas legislativas pelo círculo de Lisboa. E participou nas correntes internas bloquistas, primeiro no grupo "Manifesto" e agora na "Convergência".
Na última década, Carmo Bica dinamizou o Grupo de Trabalho de Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento Rural do Bloco de Esquerda e coordenou o Grupo de Trabalho de Agricultura do Partido da Esquerda Europeia. No âmbito do Parlamento Europeu, participou ativamente nas atividades do intergrupo dos Bens Comuns e coordenou vários encontros sobre economia social e terceiro setor promovidos pelo GUE-NGL. E destacou-se também no movimento social pelo encerramento da central nuclear de Almaraz.
No esquerda.net, assinou uma coluna de opinião onde tratava de temas ligados à agricultura, soberania alimentar e políticas para o interior, feminismo e direitos das mulheres.
O esquerda.net e o Bloco de Esquerda endereçam as mais sentidas condolências à sua família e amigos.
O velório de Maria do Carmo Bica realiza-se esta terça-feira a partir das 18h na casa mortuária da igreja de Nossa Senhora de Fátima, (na Avenida de Berna, em Lisboa). O funeral sai na quarta-feira às 9h desta casa mortuária em direção ao cemitério de Paços de Vilharigues, em Vouzela, onde chegará às 12h.
No jantar dos 40 anos da UMAR com Manuela Tavares (em pé) e Jorgete Teixeira.