Maria de Jesus Simões Barroso Soares nasceu na Fuseta, em Olhão, a 2 de Maio de 1925. Era filha de Alfredo José Barroso, um oficial do Exército ligado ao “Reviralho”, que participou na tentativa de golpe de 7 de Setembro de 1927, que pretendia derrubar o regime instaurado em 28 de maio de 1926. Foi preso, a primeira de muitas detenções que se seguiriam até ser deportado para os Açores. Desta forma, Maria Barroso teve desde logo um ambiente político em casa. Numa fotografia tirada quando não teria mais de dois anos, aparece de mão dada à mãe na penitenciária, onde fora visitar o pai.
Em 1943, diplomou-se em Arte Dramática, na Escola de Teatro do Conservatório Nacional, e em 1951 licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Foi atriz na companhia de teatro Rey Colaço-Robles Monteiro, sediada no Teatro Nacional D. Maria II, onde se estreou em 1944, na peça “Aparências”, de Jacinto Benavente, sob a direção de Palmira Bastos.
“O puro grito de heroína”
Desempenhou papéis marcantes, como a Adela, em “A Casa de Bernarda Alba” de Federico Garcia Lorca. “A vida deu-lhe ensejo de transpor do palco para a cena, sem artifícios da opressão humana, o seu puro grito de heroína habitada pela revolta e pela paixão da liberdade”, recordaria Eduardo Lourenço referindo-se a esse papel na peça do grande dramaturgo e poeta andaluz.
Numa entrevista ao Expresso, Maria Barroso recordou esse papel inesquecível: “...em Coimbra, estava lá toda a intelectualidade que era contra o regime – e havia uma cena muito emotiva, que terminava com a Adela aos gritos. No terceiro ato, essa figura dizia, quebrando a vara que a mãe trazia sempre com ela: 'Veja o que eu faço à sua tirania.' O teatro ia vindo abaixo com as palmas, bateram, bateram e começaram a chamar pelo meu nome...”
Mário Soares estava preso quando se casaram
Foi na faculdade que conheceu Mário Soares, que começou a namorar. O seu grupo de amigos da época incluía pessoas que haveriam de marcar o seu tempo, como Lindley Cintra, Sebastião da Gama, Matilde Rosa Araújo. “Acabámos todos muito próximos, organizámos recitais e ações políticas”, recordaria Maria Barroso na última entrevista que deu ao jornal I.
Casou-se com Mário Soares quando ele se encontrava preso por motivos políticos, a 22 de Fevereiro de 1949. As pressões do regime forçaram a sua saída da companhia e a partir daí deixaria o teatro e passaria a dedicar-se com mais intensidade à atividade política.
Em 1969 foi candidata a deputada pela Oposição Democrática e participou no III Congresso daquela organização em 1973, em Aveiro, sendo a única mulher a intervir na sessão de abertura.
No mesmo ano, esteve na reunião de fundação do Partido Socialista, na Alemanha. Foi a única mulher presente e opô-se à fundação imediata do partido, por achar que se deveria esperar um pouco mais antes de tomar a decisão. Mário Soares defendeu a fundação do PS logo naquela reunião, e a sua posição prevaleceria. “Estávamos errados e Mário Soares estava certo, a história provou-o”, reconheceria Maria Barroso. “Todos lhe demos razão a partir do momento em que surgiram movimentos que colocaram logo muita pressão em Marcelo Caetano”.
Proibida de exercer a docência
Foi diretora do Colégio Moderno, fundado pelo seu sogro, João Lopes Soares. Mas esteve proibida de exercer a docência, tanto no ensino público como privado, durante o Estado Novo.
Após o 25 de Abril, foi eleita deputada à Assembleia da República, pelos círculos de Santarém, Porto e Algarve, nas legislaturas iniciadas em 1976, 1979, 1980 e 1983.
Foi primeira-dama de Portugal entre 1986–1996, nos dois mandatos de Mários Soares.
Depois de deixar o Palácio de Belém, em 1997, presidiu à Cruz Vermelha Portuguesa, até 2003. Foi sócia-fundadora e presidente do Conselho de Administração da ONGD Pro Dignitate - Fundação de Direitos Humanos, desde 1994, e da Fundação Aristides de Sousa Mendes.
Foi distinguida com o título de Doutora Honoris Causa pelo Lesley University (23 de Maio de 1994), pela Universidade de Aveiro (16 de Dezembro de 1996) e pela Universidade de Lisboa (3 de Novembro de 1999).
Uma “mulher muito determinada” e apegada à “liberdade e dignidade humana”
A porta-voz do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, lamentou a morte de Maria Barroso, que caracterizou como uma “mulher muito determinada” e apegada à “liberdade e dignidade humana”.
Em declarações à agência Lusa, a deputada bloquista destacou Maria Barroso como uma “mulher com um percurso singular de luta antifascista e que ao longo da sua vida manteve uma determinação, uma atividade e um apego às razões da liberdade e da dignidade humana”.
Segundo Catarina Martins, a morte da ex-primeira dama “é uma perda para o país”.
A dirigente do Bloco de Esquerda frisou que os seus pensamentos são "para com a família e amigos, que estão num momento de dor e de perda".