iO Stop Arming Israel realizou esta segunda-feira duas ações contra fábricas belgas que são “cúmplices” do genocídio em Gaza. Foi a maior ação de desobediência civil da história moderna do país e seguiu-se a uma manifestação em Bruxelas onde tinham participado mais de 110.000 pessoas. A adesão às inscrições para estas ações foi tanta que o movimento comunicou que teve de deixar de aceitar inscrições por razões logísticas.
A primeira começou por volta das cinco horas da manhã e visou a empresa OIP Sensor Systems de Tournai. Esta é detida a 100% pela Elbit Systems, o gigante do setor da “defesa” israelita. Freddy Versluys, o chefe da empresa, escolheu a estratégia da vitimização, afirmando ao VRT que naquela fábrica se produz sobretudo material para a Ucrânia e que a empresa terá sofrido danos no valor de perto de um milhão de euros.
Israel
Estado português também é cliente da indústria militar que arma o genocídio
Do lado contrário, Cammile, uma das ativistas esclareceu que “a Elbit é o braço industrial do genocídio na Palestina. O facto desta empresa ter filiais na Bélgica e aí ter lucros é inaceitável”. O movimento critica ainda a “instrumentalização” da invasão da Ucrânia: “podemos apoiar o povo ucraniano sem colaborar no genocídio do povo palestinianos”, afirma-se.
A segunda ação foi por volta das 7 horas e 45 minutos em Haren, perto de Bruxelas. A visada foi a fábrica Syensqo. Aqui, perto de mil ativistas bloquearam o acesso às instalações e escreveram palavras de ordem como “Stop Genocidio”, “Palestina livre” ou “Europa cúmplice” na fachada do prédio.
De acordo com a organização pró-palestiniana, a Syensqo “fornece conscientemente um componente essencial de uma arma que se sabe ter sido utilizada em crimes de guerra israelitas. A Syensqo não pode negar a sua cumplicidade no genocídio em curso”. Em causa está a produção da resina MTM46 para os drones Hermes 450 utilizados pelo exército israelita em Gaza.
Esta fábrica esteve totalmente bloqueada até às 17 horas de segunda-feira. Na sequência da intervenção policial, perto de 700 ativistas foram retidos à força e retidos ao sol “durante horas, sem água, alimentação nem acesso a casas de banho”, denuncia a organização. Em algumas detenções, denuncia-se, foi utilizada violência excessiva. Em Tournai, perto de cinco dezenas de pessoas tinham sido interpeladas pela polícia mas depois acabaram por ser libertadas. O Le Soir indicava ao final da tarde de segunda-feira que estas pessoas continuavam ainda detidas.
Para além da Syensqo e da OIP-Elbit, o movimento pró-palestiniano acusa ainda outras empresas de produzir componentes que estão a ser utilizados em drones, mísseis ou aviões da máquina de guerra israelita. São elas a Safran, Thales, Sabca, BMT Aerospace, Caterpillar, Challenge Handling, Maersk e a Sciotea.
A Bélgica tinha imposto um embargo à venda de armas e de componentes para a indústria de guerra a Israel em 2009 e todas as três regiões do país tinham concordado. Contudo, desde então e até desde o começo do genocídio em Gaza, várias empresas continuam a explorar brechas na lei para continuar a exportar. A resina que a Syensqo vende, por exemplo, não é considerada um componente militar, apesar do seu uso exclusivo na empresa para onde é vendida ser o fabrico dos drones de guerra. A OIP, por seu turno, é o principal beneficiário das licenças atribuídas pela região de Flandres entre outubro de 2023 e novembro de 2024 para exportar material para uso militar e que têm um valor total de 22,7 milhões.