Oito meses a fugir sob as bombas, uma queda livre que nada parece ser capaz de parar. O calvário da família Hallak, agricultores da região de Idlib, é emblemático da provação suportada pelos civis desta província do noroeste da Síria.
Na primavera de 2019, as forças pró-Assad começaram o ataque à região, o último bastião da rebelião, dominada pelo grupo jihadista Hayat Tahrir Al-Cham. À medida que se aproximavam os ataques das forças aéreas russas e sírias, os pais alugaram camiões e transferiram todo o conteúdo da sua casa grande de Kafr Sijnah, no sul da região, para Jinderes, a 150 km ao norte. “Levámos até as portas e as janelas ”, testemunhou Ahmed, o filho mais velho, no WhatsApp.
Poucos meses depois, com as suas poupanças esgotadas, a família deixou o apartamento onde se tinham refugiado e foi para uma casa mais modesta no campo, a oeste de Alepo. A pausa foi breve. O avanço das tropas pró-governo (pró Bashar) nesta área forçou a família Hallak a abandonar novamente a sua casa. A terceira vez em oito meses. "Desta vez, já não se trata de levar móveis, a gasolina ficou muito cara", conta Ahmed. “Partimos apenas com os cobertores, roupas e alguns utensílios de cozinha.”
Agora são quinze pessoas, amontoadas num minúsculo apartamento de dois quartos, sem janelas, sem água ou eletricidade, na vila de Deir Hassan, uma localidade próxima da fronteira turca à qual centenas de milhares de sírios chegaram nas últimas semanas. "O regime está a empurrar toda a população de Idlib ao longo da fronteira, como se quisesse criar uma Faixa de Gaza síria", diz Ahmed preocupado. “É como se estivéssemos a mergulhar no desconhecido”.
As Nações Unidas falam de "a maior história de horror humanitário do século XXI". O número de habitantes da província de Idlib deslocados pelos combates, desde dezembro de 2019, já atingiu as 900 mil pessoas, das quais 80% são mulheres e crianças. Esta população está agrupada entre Darkoch, Al-Dana, Afrin e Azaz, territórios de fronteira com a Turquia, relativamente pouco afetados pelos bombardeamentos.
Uma armadilha a céu aberto
Os mais afortunados encontraram uma tenda num dos enormes acampamentos, açoitados pelo vento e pela neve, que alinham estas colinas nos confins da Síria. Outros dormem ao relento, nos seus veículos ou em edifícios inacabados. Todos os abrigos coletivos, como mesquitas e escolas, foram requisitados durante a anterior onda de deslocações na primavera e no verão de 2019, que afetou 300.000 pessoas.
Os náufragos de Idlib estão numa armadilha ao ar livre. A Turquia, que abriga 3,5 milhões de sírios, mas se recusa a aceitar um novo fluxo de refugiados, fechou as suas fronteiras três vezes. Por outro lado, pelos corredores abertos pelo exército sírio para facilitar a passagem para o território governamental, teoricamente protegido do perigo, só passaram mil pessoas, desde dezembro de 2019, segundo a ONU. "Isto é uma prova, se fosse necessária, que o povo de Idlib não quer viver sob o regime de Assad", disse Ossama Shorbaji, diretor da ONG síria Afaq.
Mas a ameaça está a aproximar-se. As forças de Assad, que tinham encontrado dificuldades em avançar durante a primeira fase da ofensiva no ano passado, apoderaram-se de mais de 300 localidades, na região de Idlib, nas últimas semanas. Na quarta-feira, 26 de fevereiro, os combatentes de Hayat Tahrir Al-Cham, com a ajuda de outras fações não-jihadistas, conseguiram recuperar Saraqeb, um cruzamento de estradas que eles tinham perdido no início do mês. Esta operação foi realizada com o apoio do exército turco, que tem vários milhares de homens no terreno. Cerca de 30 deles morreram quinta-feira num bombardeamento atribuído à Força Aérea da Síria1.
Êxodo gigantesco
Mas ao mesmo tempo, os rebeldes foram isolados das regiões montanhosas de Gebel Al-Zawiya e Gebel Shashabo, os bastiões históricos da insurreição, no sul da província de Idlib. As forças de Assad penetraram em particular em Kafr-Nabel, uma cidade reconhecida pela criatividade e resistência dos seus habitantes. Durante anos, eles manifestaram-se todas as sextas-feiras, provocando o poder com slogans, simultaneamente vigorosos e irónicos.
O início da derrota dos grupos anti-Assad é o resultado lógico do seu esgotamento, depois de meses de bombardeamentos, que desgastaram pouco a pouco as suas linhas de defesa. O gigantesco êxodo desencadeado pelos bombardeamentos sírio-russos, que arrasaram dezenas de infraestruturas civis, incluindo escolas e hospitais, acentuou a desorganização do campo rebelde. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, esses ataques causaram a morte de mais de 1.700 civis, entre os quais 337 mulheres e 503 crianças, num período de dez meses.
O recuo dos insurgentes é também o resultado da introdução de drones e instrumentos de visão noturna nas fileiras leais [a Bashar], em quantidades mais importantes do que no passado. Este equipamento aumentou a já esmagadora superioridade militar das forças oficiais. Muitos veículos blindados rebeldes, alguns fornecidos pela Turquia, foram atingidos por tiros de mísseis pouco depois de serem localizados por um desses aviões espiões.
O regresso ao campo de batalha das milícias pró-iranianas, compostas por combatentes xiitas afegãos e iraquianos, também teve efeito. "A República Islâmica do Irão tinha-se mantido afastada dos combates no ano passado para não prejudicar as suas relações com a Turquia", diz Nawar Oliver, analista do centro de estudos sírio Omran, próximo da oposição. “Teerão esperava que Ancara continuasse a comprar o seu petróleo, apesar das ameaças de sanções de Washington. ”
Um custo humanitário "insano"
Um cálculo infrutífero: apesar das complicadas relações com a administração dos EUA, a Turquia aceitou o embargo contra o Irão. As tropas a soldo de Teerão reapareceram em solo sírio, especialmente a oeste de Alepo, zona que ajudaram a recuperar no início do mês [de fevereiro]. Essa medida permitiu que as autoridades sírias reabrissem o aeroporto de Alepo, fechado há quase oito anos pela pressão dos rebeldes.
A reabertura do aeroporto da grande metrópole do norte da Síria foi recebida com alegria pela população. Os bairros ocidentais eram regularmente alvo de grupos armados com base nos arredores. Segundo as Nações Unidas, o fogo dos rebeldes contra áreas controladas pelo governo em Alepo e na província setentrional de Hamah matou 93 civis desde abril de 2019, entre os quais 23 mulheres e 28 crianças.
A vontade do regime de Assad, que reitera constantemente a intenção de restaurar a sua autoridade em toda a Síria, é levar esta ofensiva até ao fim: a reconquista da cidade de Idlib e das duas passagens de fronteira, Bab Al-Hawa e Atme, pelas quais passam armas e ajuda humanitária. "Se Idlib cair, mais 600 mil pessoas serão lançadas às estradas", alerta Assaad Al-Achi, diretor de uma ONG síria sediada no sul da Turquia. O custo humanitário será insano. E a Rússia está disposta a deixar que isto aconteça? ”
Artigo de Benjamin Barthe, publicado originariamente em “Le Monde”, depois em “A l’encontre”, traduzido para espanhol por R. Navarro – Correspondencia de Prensa e para português por Carlos Santos para esquerda.net
Nota:
1 O governo de Erdogan, na tentativa de "negociar" com os governos da UE membros da NATO, está a forçar a transferência de migrantes para a Grécia, causando tensões extremas neste país. As tropas turcas "com base" na Síria não têm cobertura aérea e, portanto, as conversações com Putin demonstram a impotência político-militar de Erdogan. (Redação de A l’encontre)